Resíduos Radioativos e Bagunça Generalizada nos EUA – Um Alerta para o Brasil

Menos de um mês depois do ministro Carlos Minc colocar o dedo na ferida da disposição final dos resíduos nucleares de Angra III, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês)  deixou vazar para a imprensa um relatório considerado “devastador” por algumas das mais altas autoridades do setor.  Dezenas de milhares de contêineres com esses resíduos radioativos têm altas chances de apresentar vazamentos antes de serem enterrados em depósitos subterrâneos selados de maneira segura.  Segundo as autoridades ambientais dos EUA, esses resíduos permanecem letais por… dezenas de milhares de anos.

O relatório mostra que muitos contêineres contendo resíduos radioativos são feitos de materiais de má qualidade que os torna vulneráveis à corrosão, além de serem manuseados de forma inapropriada.  Conclusão: “pode-se assumir que uma parcela significante desses contêineres apresentará vazamentos, e modelos computacionais indicam que cerca de 40% deles já podem estar em risco”.

Na Inglaterra, que pretende ampliar rapidamente a sua capacidade de geração nuclear mas ainda têm sistemas de estocagem e disposição final de resíduos radioativos considerados inseguros, o professor Gordon MacKerron, que até recentemente presidiu o Comitê para a Gestão de Resíduos Radioativos, depois de ler o relatório declarou que as informações nele contidas eram “um prego no caixão” das propostas de que os resíduos sejam mantidos acessíveis por dezenas de anos antes de selados e enterrados de maneira segura.  “Se nós vamos buscar uma disposição final para os resíduos, isso deve ser feito da maneira mais rápida possível”, afirmou. 

A situação é confusa.  Os planos atuais do governo norte-americano prevêem que esses contêineres permanecerão onde estão por até 150 anos antes de serem transferidos para depósitos subterrâneos que levariam cerca de 50 anos para serem preenchidos e depois permaneceriam abertos e monitorados por 300 anos antes de serem selados.

O relatório sugere que esses contêineres não foram feitos com aços inoxidáveis apropriados para resistir à corrosão, revela que as suas partes internas não receberam tratamento adequado contra a mesma corrosão, e ainda afirma que foram manuseados por operadores sem luvas, o que aumenta os riscos de corrosão em função da umidade das mãos.

“Cerca 17.000 contêineres têm resíduos nucleares que reagem com o cimento utilizado em sua fabricação e apresentarão fraturas em 140 anos ou menos.”

Ou seja, uma bagunça total.  Isso sim é que é desenvolvimento sustentável para as gerações presentes e futuras.

A imprensa, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC (que já foi mais atuante), a Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, a Sociedade Brasileira de Física e outros não podem deixar a exigência feita no licenciamento de Angra III ser objeto de tergiversações e cair no esquecimento, continuando a ser empurrado com a barriga como aconteceu até hoje com os resíduos de Angra i e II (com o alto patrocínio de muitos contratos de consultoria para comprar o silêncio da comunidade científica).

Aliás, por que foi mesmo que a exigência feita a Angra III não se estendeu a Angra I e II?

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Pelo jeito, pelo menos uma parte da EPA sobreviveu às muitas interferências da Casa Branca e indicações de políticos sem qualificações para os cargos de direção da Agência na administração George W. Bush.  Parabéns à equipe que elaborou o relatório, e também aos que o fizeram vazar para a imprensa.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários sobre “Resíduos Radioativos e Bagunça Generalizada nos EUA – Um Alerta para o Brasil”

  1. Caro Luiz Prado,

    Esta é uma notícia apavorante, principalmente se considerarmos que 40% dos estoques radioativos nos EUA equivalem a 16 mil m3 de resíduos radioativos.

    No Ecodebate tentamos fazer uma cuidadosa cobertura sobre os riscos e os acidentes nucleares (veja, por exemplo, nossa tag “acidente nuclear” in http://www.ecodebate.com.br/index.php/tag/acidente-nuclear/ ). No entanto esta é uma informação de fundamental importância que nos passou despercebida.

    Por isto, por favor, peço que informe a fonte e o link original da informação.

    Grato,

    Henrique Cortez
    coordenador do Portal Ecodebate

    Prezado Henrique,

    A notícia é do The Independent e pode ser encontrada em
    http://www.independent.co.uk/environment/green-living/nuclear-waste-containers-likely-to-fail-warns-devastating-report-907200.html

    Realmente, é apavorante.

    Abraço!

  2. Adorei como vc falou desse problema. Sempre que publicar algo nesse sentido por favor me mande por e-mail.

    Obrigada!!!!!

O que você pensa a respeito?