Monthly Archive for setembro, 2008

Segurança Alimentar – Xô, Lerdeza!

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O Financial Times, de Londres, publicou interessante matéria intitulada “Países ricos buscam terras férteis pelo mundo”, com uma chamada – “Segurança alimentar – Nações árabes e China lideram corrida para garantir seu fornecimento agrícola”.  A matéria foi traduzida e publicada no Brasil pelo Valor Econômico.  O tema – segurança alimentar – já foi analisado em artigos anteriores deste blog.

A reportagem informa que a Arábia Saudita está procurando terras no Sudão, na Ucrânia, no Paquistão e na Tailândia.  Os Emirados Árabes Unidos estão fazendo o mesmo no Cazaquistão e no Sudão; a Líbia, na Ucrânia: a Coréia do Sul, na Mongólia; a China, no sudeste asiático e na África.

Como um bom jornal inglês, o Financial Times não faz qualquer referência as massivas aquisições de terras brasileiras por gigantes da área de alimento como ADM, Cargill e Bunge.  Da mesma forma que os EUA, os ingleses nunca reconhecem os próprios crimes – genocídios, colonialismos marcados pela violência - ou ações de ética duvidosa.

Por seu lado, a FAO, usualmente caracterizada pela excessiva diplomacia e até mesmo pela influência das empresas de organismos geneticamente modificados, pesticidas e fertilizantes, resolveu “dar o nome aos bois”.  O seu diretor-geral, Jacques Diouf, tem falado no surgimento de “um pacto neo-colonialista para o abastecimento de matérias primas sem valor agregado exportadas pelos países produtores, em condições inaceitáveis de trabalho  rural”.

Falou pouco, mas falou quase bem.  Quase porque o trabalho rural nesses grandes projetos é irrelevante, os grandes projetos são altamente mecanizados, e os tais trabalhadores simplesmente migram para a periferia das grandes cidades.  Como me disse certa vez uma diretora da área de meio ambiente da Texaco, em Houston, durante a elaboração da lista de temas a serem tratados num estudo de impacto ambiental para um mega-projeto em Angola, no momento em que considerávamos os impactos sociais do projeto: “esse é o país deles, esses são problemas deles”.

A competição exponencial pelo uso das terras agriculturáveis está, sim, na origem dos recentes aumentos de preços dos alimentos.  Não se trata apenas da especulação financeira com as commodities, recentemente adotadas pelo discurso político.  E a prova de que a especulação é uma explicação insuficiente foi a decisão de países tão diferentes como Rússia, Argentina, Vietnam e Índia que proibiram  a exportação de gêneros alimentícios de primeira necessidade para o consumo interno.

O governo brasileiro mostra a sua preocupação falando na limitação de aquisições de terras por empresas controladas por estrangeiros.  É uma iniciativa que tem algum impacto eleitoral nacionalista, mas que está longe de sequer arranhar a face do problema.  A experiência histórica demonstra que sempre é possível arranjar um “laranja” ou alguém com dupla nacionalidade que atue na proteção dos interesses externos.

Para um país que tem nos produtos primários – entre outros os oriundos dos solos agrícolas – os principais ítens de sua pauta de exportações e, portanto, de sua estabilidade no comércio internacional, a situação requer um planejamento mais trabalhoso – xô, preguiça – no sentido do zoneamento das terras agrícolas.  Como, aliás, já fazem os países sérios há muito tempo. 

Nessa linha de raciocínio da FAO sobre o neocolonialismo orientado para a segurança alimentar dos países mais ricos, sempre é bom lembrar que empresas nacionais também podem servir de veículos para esse mesmo tipo dinâmica.  Como, aliás, sempre ocorreu no período colonial e continua ocorrendo com a indústria da cana de açúcar, a da celulose e, mais recentemente, a produção d soja para a exportação.

Mudanças Climáticas, "Chaminés de Metano" e Políticas de Adaptação

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A essas alturas, falar num ranking mundial de países responsáveis pelas emissões de gases causadores de mudanças climáticas já é coisa do passado.  E o presente está passando cada vez mais rapidamente.  A formulação de políticas de adaptação a essas mudanças é cada vez mais urgente.

Um estudo que será publicado em breve pela Associação Geofísica dos EUA trará as conclusões de uma extensa pesquisa que vem sendo realizado há anos na região do Ártico, indicando que imensos estoques de metano estão sendo liberados de maneira acelerada em decorrência do aquecimento dos oceanos.

O metano tem impactos sobre as mudanças climáticas 20 vezes maiores do que o carbono.  A quantidade total de metano estocada sob o Ártico – estimam os cientistas – é muito maior do que aquela contida no conjunto das reservas mundiais de carvão.

Num correio eletrônico enviado do navio de pesquisas Jacob Smirmitskyi por um dos coordenadores do projeto, o doutor Orjan Gustafsson, da Universidade de Estocolmo, na véspera do término da coleta de dados, ele afirma:

“Uma extensa área de liberação de metano foi encontrada.  Em amostras anteriores, medimos níveis elevados de metano dissolvido.  Ontem, pela primeira vez, documentamos emissões tão intensas que o metano não se dissolvia na água do mar e subia até a superfície sob a forma de bolhas.”

Na década de 90, não houve qualquer detecção desse tipo de anomalia nas muitas expedições realizadas por cientistas da Academia Nacional de Ciências da Rússia.  A partir de 2003, altas concentrações de metano começaram a ser detectados na região, o que levou à realização de novas medições, com instrumentos mais sofisticados e sensíveis.

Agora, concentrações de metano até 100 vezes superiores aos níveis normais foram detectadas em dezenas de milhares de quilômetros quadrados na região.  “Ninguém sabe em quantas outras áreas emissões similares podem estar acontecendo na extensa costa do Sibéria”, afirmou o doutor Gustafsson.
 
“Nós detectamos elevados níveis de metano logo acima do oceano e ainda muito mais nas camadas superficiais de água.”
 
As temperaturas do Ártico elevaram-se 4º. C nas últimas décadas, reduzindo de maneira acentuada a cobertura de gelo da região durante os períodos de verão.  Os cientistas temem uma aceleração rápida das mudanças climáticas em decorrência do fato de que sem a cobertura de gelo os oceanos absorvem muito mais calor do que ocorre quando o gelo reflete a luz solar de volta para o espaço.

Comprova-se, assim, a existência de um feed back positivo que tende a acelerar as mudanças climáticas de maneira exponencial.   Mas não faltarão aqueles que dirão que os fatos constatados por cientistas da melhor reputação e de diferentes nacionalidades são apenas “catastrofistas”.

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Fonte: http://www.independent.co.uk/environment/climate-change/exclusive-the-methane-time-bomb-938932.html

Biodiversidade e a "Razão Vitoriosa"

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Em matéria de notícias sobre o meio ambiente, a semana foi marcada pela publicação de um trabalho científico sobre a descoberta de uma nova espécie de formiga na Amazônia, feita por dois pesquisadores norte-americanos e um alemão, com o apoio de um pesquisador da EMBRAPA.

A publicação ocorre depois de dois ciclos de pesquisa de três anos cada, iniciados em 1996, no quadro de um convênio de cooperação entre o Brasil e a Alemanha, com o apoio do CNPq.  A formiga foi encontrada pela primeira vez por um pesquisador alemão em 1998, quando foram coletadas duas dessas formigas pelo pesquisador alemão, que fazia a sua tese de mestrado.  “Mas houve um acidente de transporte e esses exemplares não puderam ser analisados”.  Segundo o mesmo cientista alemão, “existe uma ampla literatura sobre mais de 12, 5 mil espécies de formigas no planeta.

Ou, talvez, a semana tenha sido marcada pela descoberta de que duas espécies de felinos selvagens estão “cruzando” no Rio Grande do Sul.  Os filhotes são férteis.  Segundo os autores da pesquisa, as duas espécies estão com dificuldades de “reconhecer os seus pares biológicos”.  Os cientistas brincaram e afirmaram tratar-se de uma espécie de “swing”, a troca premeditada e consensual de casais tão em moda entre os seres humanos em algumas grandes cidades.

Já os jornais estrangeiros noticiaram que depois de apenas três anos de pesquisa num dos ecossistemas mais estudados no mundo – a Grande Barreira de Corais, na Austrália –, foram descobertas “algumas centenas de espécies”.  Dessas, 150 novos tipos de corais.  Os pesquisadores não sabem quais se encontram em extinção.

Na mesma linha do noticiário, alguns jornais deram destaque, também, ao desencontro de pontos de vista entre uma ONG contratada pelo Ministério do Meio Ambiente – MMA e este sobre o número de espécies de árvores ameaçadas de extinção no Brasil.

A diferença é de tal ordem que ninguém de bom senso consegue entender (a) por que o MMA, na gestão passada, contratou uma ONG – por mais séria que seja – para fazer um estudo dessa importância sem definir critérios claros para definir como considerar quando uma árvore deve ou não ser incluída na lista de espécies em extinção e, sobretudo, por que ao longo do contrato não houve interação suficiente entre profissionais do MMA e profissionais da ONG para evitar que tais disparidades não acontecessem.  Afinal, o grau de conhecimento “científico” contido num estudo desse tipo é função da ótica de seus autores.

Essas notícias nos remetem a uma questão fundamental: as possibilidades “científicas” de conhecer a totalidade das espécies vivas, que continuam em evolução.  E, o que é pior, as interações entre essas espécies de maneira a caracterizar ecossistemas, isto é, a formação de um conjunto no qual as espécies dependem umas das outras para a sobrevivência comum, um determinado espaço geográfico, é igualmente uma tentativa humana de dar forma científica a sistemas biológicos dinâmicos.  Três indivíduos caracterizam um manguezal ou um exemplar do tal bioma Mata Atlântica (que não é um bioma, mas um conjunto de biomas)?

Sem isso – e sem uma razoável margem de flexibilidade e de bom senso não há políticas públicas e não há leis efetivamente aplicáveis.

Dito isso, há que se ter a humildade de admitir que a razão humana nunca conseguirá conhecer e, ainda menos, “entender” tudo.

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Talvez a notícia mais importante da semana tenha sido mesmo o reconhecimento público, por parte de Al Gore, de que já é tempo de dar muito mais ênfase às medidas de adaptação às mudanças climáticas.

Petrobras – Irresponsabilidade Socioambiental e Termos de Ajuste de Conduta – TAC

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O ministro Carlos Minc não tem por que se sentir constrangido com a total irresponsabilidade ambiental da Petrobras, que não se preparou para cumprir metas estabelecidas em 2002 para a redução do teor de enxofre no diesel.  E tampouco tem que se justificar perante as ONGs ambientalistas e a sociedade em geral, incluindo os órgãos estaduais de meio ambiente.  Nem a administração passada do Ministério do Meio Ambiente fez o dever de casa exigindo a apresentação de um cronograma de iniciativas a serem tomadas para o atendimento dessas metas, nem os governos estaduais e as ONGs foram capazes de organizar-se e fazer, se necessário, o mesmo tipo de exigência através do MP federal ou diretamente pela via da ação civil pública perante o Judiciário.

Agora, fala-se em multas e termos de ajuste de conduta (TAC).  As multas nunca são pagas, nem pela própria Petrobras, que vai às últimas consequências em seus recursos ao lentíssimo Judiciário brasileiro.  Já os termos de ajuste de conduta tornaram-se um caminho legal para a violação da lei, bem como dos mais elementares princípios éticos.  O sujeito já faz a coisa errada sabendo que mais adiante poderá assinar um TAC e adiar o cumprimento de suas obrigações mediante a doação de uns trocados para algum programa de interesse eleitoral ou de monitoramento da qualidade de vida de cobras e lagartos.

A verdadeira compensação que a Petrobras deve pagar à Nação é muito simples: subsidiar a introdução de ônibus híbridos, que já são fabricados no Brasil, até o nível de preço de um ônibus comum de maneira a reduzir as emissões totais de enxofre com metas claramente definidas.  Aliás, a introdução desse tipo de veículo nas regiões metropolitanas onde a poluição atmosférica é mais grave só ainda não ocorreu em decorrência da debilidade das políticas públicas estaduais, que já poderia ter tomada iniciativas para viabilizar a introdução de ônibus híbridos em suas regiões metropolitanas há muito tempo.

Um acordo que leve em consideração essa alternativa (ainda que não se limite a ela), possibilita a redução significativa das emissões de enxofre e alavanca a introdução de veículos elétricos ou híbridos de transporte de massa no mercado brasileiro, propiciando uma vitória bem maior do que a mera redução do teor de enxofre do óleo diesel.

Tomada essa diretriz, logo outros fabricantes de ônibus colocarão no mercado os veículos híbridos, com uma queda geral de preços.  Como a taxa de renovação da frota nas capitais e regiões metropolitanas é da ordem de 20% ao ano, ao final de 3 anos seria possível atingir 60% de ônibus híbridos nessas áreas onde a poluição atmosférica é efetivamente um problema, e um problema que não se limita às emissões de enxofre.

Afinal, esses ônibus já são fabricados no Brasil e exportados para países como o Chile e o México – que têm problemas gravíssimoas de poluição atmosférica em Santiago e na Cidade do México.  A fabricação de ônibus híbridos avança em todos os países sérios, e para demonstrar as suas vantagens muitos desses veículos foram usados na China durante as Olimpíadas, exatamente em decorrência da necessidade de reduzir a poluição atmosférica (www.cummins.com.br/cla/imprensa_noticias.asp?NoticiaID=213).

Mas esses veículos não são utilizados no Brasil por omissão dos órgãos estaduais de meio ambiente, que poderiam exigir a sua adoção progressiva nas áreas de maior poluição, reduzindo, assim, não apenas as emissões de enxofre, mas todas as outras.  E a área tributária não pode continuar fingindo que a saúde pública e a inovação tecnológica não são assuntos de sua competência e pode dar isenções de IPI e de ICMS por prazo definido para esses novos veículos.

Soluções complementares, como a adoção de ônibus capazes de aceitar o B-20 – já disponíveis no Brasil -, com o consequente fornecimento dessa mistura, podem contribuir de maneira decisiva para o avanço tecnológico, para a redução das emissões de enxofre nas bacias aéreas das regiões metropolitanas e das grandes cidades, e para que se alcance, simultaneamente, uma solução mais econômica para a própria Petrobras, sem perder de vista o estabelecimento do novo prazo para a diminuição no teor de enxofre de todo o diesel vendido no Brasil.

Com esse tipo de abordagem, o Brasil não estaria sendo pioneiro em nada, mas apenas fazendo uso do da experiência internacional.  Quando a Califórnia percebeu que só poderia alcançar as metas de qualidade do ar das grandes cidades através do estabelecimento de padrões de emissão então inatingíveis, fez o mesmo tipo de exigência às montadoras de veículos.  A indústria norte-americana, conservadora e crente em seu poder de lobby, reagiu afirmando que as tecnologias para a redução drástica das emissões não existia e, portanto, as exigências não poderiam ser cumpridas.  E cruzou os braços, exatamente como fizeram a Petrobras e as montadoras brasileiras diante das novas normas para o teor de enxofre do diesel.

Essa tola reação das montadoras norte-americana de veículos abriu as portas para o debate sobre uma alternativa simples: só poderiam vender veículos na Califórnia os fabricantes que comprovassem parcerias com a então nascente indústria de veículos elétricos ou híbridos, de maneira a que fosse alcançada uma meta de redução global das emissões de veículos auto-motores.  Ou seja, estabelecia-se a possibilidade compensações entre os fabricantes dos diferentes tipos de veículos, de maneira a reduzir os preços dos veículos híbridos (sempre mantidos os padrões de emissão federais para os veículos). 

Para tanto, foi necessário apenas deixar de trabalhar com padrões individuais de emissões – sem abandoná-los – e passar a trabalhar com padrões de carga ou de emissões totais (combinação imprescindível para a recuperação da qualidade ambiental de qualquer corpo receptor).

Enquanto o debate se arrastava, os japoneses avançaram rapidamente no desenvolvimento de veículos elétricos e híbridos e simplesmente engoliram esse novo mercado.

Essa abordagem, sim, permite um tipo de TAC aceitável para a sociedade e para a qualidade do ar das grandes cidades.   Qualquer outro tipo de TAC será mera aceitação do descaso da Petrobras com as normas ambientais em troca de bobagens como alguma contribuição para a simples regulagem dos motores dos ônibus e caminhões.  O único objetivo aceitável do TAC é punir a Petrobras ao mesmo tempo em que coloca no horizonte de curto prazo uma alternativa que efetivamente melhore a qualidade do ar das regiões metropolitanas.

Seja qual for o conteúdo do TAC, não há por que excluir o devido processo criminal contra os diretores da Petrobras responsáveis pelo descaso com a norma ambiental desde a sua  promulgação até a data em que ela deveria entrar em vigor.  Estudos realizados pela União Européia em doze cidades correlacionaram, em muitas delas, um aumento de 50 micra de dióxido de enxofre por metro cúbico de ar com um aumento de 3% o índice diário  de mortalidade (relação direta de causa e efeito).   O mesmo estudo demonstrou que um aumento equivalente nas emissões de fumaça negra (PM-10) result num aumento adicional de 2% na mortalidade diária.  A referência bibliográfica pode ser encontrada em www.bmj.com/cgi/content/abstract/314/7095/1658.

Afinal, se esse tipo de descumprimento de uma norma ambiental tão importante fosse feito por um cidadão comum ou por um produtor rural no Tocantins, o processo criminal seria inevitável.

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O tema dos ônibus híbridos e elétricos já foi objeto de artigo neste blog e de comentário na coluna semanal de meio ambiente que o seu autor faz às terças-feiras no programa de Ricardo Boechat, na Band News FM Rio, há cerca de um ano.

A crise pode, então, ser trasnformada em oportunidade, como ocorre nos ideogramas da escrita chinesa.
 

Shenandoah – Exemplo de Parque Nacional – I

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Você já passeou por trilhas num parque nacional sem  ter que ser um Indiana Jones, atlético e obtendo a sua comida da produção do filme?  Ou sem ter que ser um alpinista carregando uma mochila com alimentos e equipamentos para dormir? Se nunca o fez, visite Shenandoah, um belíssimo parque nacional no estado de Virginia, não muito longe de Washington, capital dos Estados Unidos.  A idéia de uma trilha ampla e bem cuidada, com se fazia na Idade Média com os caminhos que ligavam um vilarejo ao outro, é quase totalmente desconhecida no Brasil.  A imagem abaixo dá uma idéia de como são as muitas trilhas de Shenandoah – concebidas para assegurar os mais lindos passeios em diversos níveis de dificuldade, inclusive sem nenhuma dificuldade, isto é, para quem quer fazer apenas uma belíssima caminhada no convívio com a natureza, independentemente da idade.  Para percorrê-las, não há necessidade de nenhuma autorização especial e nem de estar acompanhado de um incômodo  guarda-parque ou guia, já que elas são bem definidas e sinalizadas.

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Se você quer fazer um passeio de carro ou de bicicleta com a sua família até chegar a um lugar para repousar, também é possível usar Skyline Drive (em tradução livre, a Estrada da Linha do Céu).  A estrada foi concebida para propiciar a mais ampla visão das paisagens, e assim o seu traçado foi feito pela parte mais alta da montanha (o tal do “topo de morro”, que no Brasil é considerado intocável por razões tão genéricas quanto misteriosas, perdidas nas raízes dos tempos coloniais).  A estrada foi uma das primeiras iniciativas objetivando a implantação do parque.  Uma imagem do mapa distribuido nos pontos de acesso dá bem a noção do percurso e dos diversos acessos, que permitem que que os visitantes cheguem de todas as direções.

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Skyline Drive é o que os norte-americanos (inclusive canadenses) e os europeus denominam uma estrada cênica.  No caso, serpenteando ao longo das montanhas, essas estradas nos parques são perfeitamente asfaltadas e com as pistas de rolamento bem demarcadas, com várias áreas de estacionamento para que os visitantes desfrutem da paisagem num mirante, ou para que possam caminhar numa trilha na qual está claramente indicada a distância entre os locais de saída e de chegada, ou para fazer um picnic com a família e os amigos, ou ainda para simplesmente sentar-se embaixo de uma árvore e ler um livro. 

Se o visitante quiser ficar alguns dias com a sua família dentro do parque, há vários tipos de hospedagem, todas com arquitetura compatível com a natureza e a ocupação histórica da região.  As instalações não se reduzem, assim, a um centro de visitantes, mas são confortáveis e permitem o convívio com o parque em diferente estações e condições do tempo.  Em Shenandoah, como nos parques dos países desenvolvidos em geral, nã0 é necessário “dormir com as galinhas”, sendo possivel conviver com outros visitantes nas salas de estar e restaurantes.

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 Os visitantes podem ter acesso, também, a instalações para comprar alguns gêneros de primeira necessidade, incluindo medicamentos que não requeiram prescrição médica, e até a um posto de gasolina.

O parque foi criado na década de 20, já com a alocação de recursos para a aquisição das terras.  Depois, foi visitado com frequência por Franklin Roosevelt, que gostava de permanecer nele por alguns poucos dias.  Durante a Grande Depressão, Roosevelt alocou os famosos Corpos Civis – criados para dar emprego digno aos desempregados – para trabalhar na abertura e consolidação das estradas, trilhas e outras facilidades para os visitantes do Parque Nacional de Shenandoah.

A página do Parqne Nacional de Shenandoah na internet merece ser visitada em www.nps.gov/shen/, tanto pela linda galeria de fotos históricas e atuais, quanto pelas informações sobre o sistema de planejamento.  A administração é, evidentemente, privada, ainda que o planejamento necessite da aprovação de um conselho de administração, que delibera sobre diretrizes e metas, supervisionando as formas de obtenção e aplicação dos recursos financeiros, bem como todo o conjunto do regulamento do parque.

Tecnologia da Energia e Tecnologia da Informação – Revoluções Semelhantes?

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Acaba de ser publicado um interessante livro sobre meio ambiente.  No Brasil intitulado O Mundo é Plano, o livro tem um título bem mais longo em sua versão original, em inglês: Quente, Plano e Populoso – Por Que Necessitamos de Uma Revolução Verde e Como Ela Pode Renovar a América.  O autor, Thomas Friedman, é jornalista, colunista do New York Times, e já agraciado com um Prêmio Pulitzer.

O livro ironiza aqueles que acreditam na continuidade de uma civilização do petróleo, como George W. Bush, que aposta na exploração desse combustível fóssil em águas ultra-profundas (utra-deep drilling) – como é o caso do que aqui se convencionou chamar de pré-sal.

Numa entrevista recente para a renomada revista Foreign Policy, Thomas Friedaman afirmou que essa visão é apenas non-sense.

“Ninguém acredita sinceramente que nas profundezas dos oceanos exista petróleo para assegurar a autonomia dos EUA.  Essa é uma abordagem errada porque, num mundo que se tornou quente, plano e super-populoso, os combustíveis fósseis – e em particular o petróleo – vão ser demasiadamente caros e finitos.  Então, o nosso foco  deve ser na próxima grande indústria global: energias renováveis e limpas.  Quando o McCain diz `perfurem, perfurem, perfurem`, eu vejo algo similar a alguém que defendesse as máquinas de escrever elétricas da IBM às vésperas da revolução da tecnologia da informação.

Para o autor, a próxima revolução tecnológica será uma revolução de elétrons.  Os países que liderarem essa revolução serão aqueles nos quais os padrões de vida serão os mais elevados, que serão mais respeitados pelo “resto do mundo” (ah, a usual arrogância norte-americana), e nos quais a inovação vai se acelerar e a segurança nacional aumentará.

“Eu quero gente colocando dólares malucos em idéias malucas, em cada garagem, 100.000 pessoas tentando 100.000 coisas diferentes, cinco das quais serão bem sucedidas, e duas poderão ser o próximo Google verde.  Só assim, com cada um sendo um cientista inovador verde, é que a tecnologia da energia – TE – será para o século XXI o que a tecnologia da informação – TI – foi para as décadas de 80 e 90 do século XX.”

Thomas Friedman fala na necessidade de escala para a revolução da tecnologia da energia e ironiza os ambientalistas que acreditam na conscientização de todos: “se você tiver que educar as pessoas a fazerem 20 coisas verdes a cada dia, esqueça a possibilidade de qualquer mudança significativa; é necessário ter um novo sistema em funcionamento sem que as pessoas sequer percebam, como ocorreu com a tecnologia da informação”.

Thomas Friedman talvez sintetize o que serão as mudanças feitas por Obama caso seja eleito presidente dos EUA.  Algo similar ao que fez Bill Clinton, que dinamizou a economia e revolucionou o mundo ao retirar a internet e o GPS da lista de tecnologias restritas aos usos militares.

É bem verdade que hoje as coisas são bastante mais complexas, já que as previsões de aumento da demanda de matérias-primas sugerem um colapso da civilização do consumo.  Ainda assim, Friedman aporta um bom discurso eleitoral para Obama e de esperança para a maioria dos norte-americanos, hoje muito preocupados com os preços do petróleo.

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Numa situação dessas, as ONGs ambientalistas que já foram inovadoras, como os Greenpeace da vida e tantas outras sem a mesma fama, podem ser vistas, hoje, como tão anacrônicas quanto os combustíveis fósseis.  Elas têm tantos compromissos com o próprio passado que não lhes sobra tempo para ver o presente e o futuro.  É o conservacionismo conservador, já mais que ultrapassado.  Recentemente, o Greenpeace apelou para a produção e divulgação de um “Manual do Sexo Ecológico”, recomendando aos casais que verifiquem antes se a madeira das camas tem origem certificada.  Coisa de hippie velho.

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A maior parte do petróleo do pré-sal brasileiro está a profundidades acima de 7.000 metros.  Sondagens já são feitas até mesmo na China e na Rússia a profundidades de até 12.000 metros.  Mas a tecnologia para a efetiva exploração do petróleo e do gás em reservas ultra-profundas nunca superou a marca dos 3.500 metros.

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A entrevista de Thomas Friedman, em inglês, pode ser lida em www.foreignpolicy.com/story/cms.php?story_id=4463.

Atraso e Truculência do Setor Elétrico no Uso dos Recursos Hídricos

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O setor elétrico brasileiro é obstinadamente atrasado em relação à gestão dos recursos hídricos.  Por uma única razão: tem uma visão limitada à geração de eletricidade e não encontra um outro poder que lhe force a deixar de lado essa burrice crônica.

Graves demonstrações da persistência do setor elétrico nesse tipo de descaso com outros interesses sociais e econômicos, bem como de sua indiferença à gestão pública dos recursos ambientais, ocorreram no recente licenciamento de hidrelétricas sem a inclusão de sistemas de passagem dos peixes que precisam migrar para se reproduzir e para assegurar a distribuição dos recursos biológicos dos rios.

Tais sistemas, na verdade, poderiam e deveriam ser exigidos pelos órgãos de licenciamento ambiental para todas as hidrelétricas existentes no Brasil.  Mas o setor elétrico é obstinado em seu atraso cultural.

Há relatos da construção de passagens para peixes – também conhecidas como escadas ou ladeiras para peixes – na França no século XVII.  Em 1837, um inglês patenteou um sistema de passagem de peixes que seriam impedidos de migrar por um moinho d’água.  Na Irlanda, uma passagem para assegurar a migração do salmão foi feita em 1852.  Em 1880, um sistema para assegurar a movimentação dos peixes foi implantado nas barragens do rio Pawtuxet, construídas para assegurar a navegação na Nova Inglaterra, nos EUA.

Todos esses países sempre usaram barragens e sistemas de eclusas para assegurar a navegação nos rios, um tipo de oportunidade de desenvolvimento econômico amplamente desprezado no Brasil, em especial quando se trata de projetar uma nova hidrelétrica.

Modernamente, os mais diversos tipos de passagens para peixes são encontrados em todos os países sérios.  Já 1955, a autorização da construção da barragem de Holyoke, em Massachusetts, nos EUA, foi condicionada à apresentação de uma solução para a passagem dos peixes, dando origem ao primeiro elevador com essa finalidade.  Esse elevador era capaz de subir cerca de 500 peixes de cada vez a uma altura de 16 metros.  Em 2004, aprimorado, o elevador permitiu a passagem de 500.000 peixes por ano.

Enquanto isso, no Brasil, hidrelétricas continuam sendo projetadas e implantadas sem nenhum tipo de passagem para os peixes que, na região do rio Madeira, entre outras, asseguram a maior parte das proteínas da dieta da população local.  O setor elétrico insiste na farsa dos “laboratórios para peixamento” e os órgãos ambientais continuam a aceitar essa solução vadia.

E isso para não falar nos demais usos potenciais dos rios, como a navegação, o abastecimento público de água, a irrigação e o lazer.

O subdesenvolvimento cultural e a truculência do poder econômico do setor elétrico resultam no mau uso dos recursos ambientais do Brasil.

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Imagens de diferentes tipos de passagens para peixes podem ser encontradas em
www.en.wikipedia.org/wiki/Fish_ladder.   Essas imagens podem ser melhor visualizadas clicando-se com o cursor sobre elas.