Tecnologia da Energia e Tecnologia da Informação – Revoluções Semelhantes?

Acaba de ser publicado um interessante livro sobre meio ambiente.  No Brasil intitulado O Mundo é Plano, o livro tem um título bem mais longo em sua versão original, em inglês: Quente, Plano e Populoso – Por Que Necessitamos de Uma Revolução Verde e Como Ela Pode Renovar a América.  O autor, Thomas Friedman, é jornalista, colunista do New York Times, e já agraciado com um Prêmio Pulitzer.

O livro ironiza aqueles que acreditam na continuidade de uma civilização do petróleo, como George W. Bush, que aposta na exploração desse combustível fóssil em águas ultra-profundas (utra-deep drilling) – como é o caso do que aqui se convencionou chamar de pré-sal.

Numa entrevista recente para a renomada revista Foreign Policy, Thomas Friedaman afirmou que essa visão é apenas non-sense.

“Ninguém acredita sinceramente que nas profundezas dos oceanos exista petróleo para assegurar a autonomia dos EUA.  Essa é uma abordagem errada porque, num mundo que se tornou quente, plano e super-populoso, os combustíveis fósseis – e em particular o petróleo – vão ser demasiadamente caros e finitos.  Então, o nosso foco  deve ser na próxima grande indústria global: energias renováveis e limpas.  Quando o McCain diz `perfurem, perfurem, perfurem`, eu vejo algo similar a alguém que defendesse as máquinas de escrever elétricas da IBM às vésperas da revolução da tecnologia da informação.

Para o autor, a próxima revolução tecnológica será uma revolução de elétrons.  Os países que liderarem essa revolução serão aqueles nos quais os padrões de vida serão os mais elevados, que serão mais respeitados pelo “resto do mundo” (ah, a usual arrogância norte-americana), e nos quais a inovação vai se acelerar e a segurança nacional aumentará.

“Eu quero gente colocando dólares malucos em idéias malucas, em cada garagem, 100.000 pessoas tentando 100.000 coisas diferentes, cinco das quais serão bem sucedidas, e duas poderão ser o próximo Google verde.  Só assim, com cada um sendo um cientista inovador verde, é que a tecnologia da energia – TE – será para o século XXI o que a tecnologia da informação – TI – foi para as décadas de 80 e 90 do século XX.”

Thomas Friedman fala na necessidade de escala para a revolução da tecnologia da energia e ironiza os ambientalistas que acreditam na conscientização de todos: “se você tiver que educar as pessoas a fazerem 20 coisas verdes a cada dia, esqueça a possibilidade de qualquer mudança significativa; é necessário ter um novo sistema em funcionamento sem que as pessoas sequer percebam, como ocorreu com a tecnologia da informação”.

Thomas Friedman talvez sintetize o que serão as mudanças feitas por Obama caso seja eleito presidente dos EUA.  Algo similar ao que fez Bill Clinton, que dinamizou a economia e revolucionou o mundo ao retirar a internet e o GPS da lista de tecnologias restritas aos usos militares.

É bem verdade que hoje as coisas são bastante mais complexas, já que as previsões de aumento da demanda de matérias-primas sugerem um colapso da civilização do consumo.  Ainda assim, Friedman aporta um bom discurso eleitoral para Obama e de esperança para a maioria dos norte-americanos, hoje muito preocupados com os preços do petróleo.

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Numa situação dessas, as ONGs ambientalistas que já foram inovadoras, como os Greenpeace da vida e tantas outras sem a mesma fama, podem ser vistas, hoje, como tão anacrônicas quanto os combustíveis fósseis.  Elas têm tantos compromissos com o próprio passado que não lhes sobra tempo para ver o presente e o futuro.  É o conservacionismo conservador, já mais que ultrapassado.  Recentemente, o Greenpeace apelou para a produção e divulgação de um “Manual do Sexo Ecológico”, recomendando aos casais que verifiquem antes se a madeira das camas tem origem certificada.  Coisa de hippie velho.

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A maior parte do petróleo do pré-sal brasileiro está a profundidades acima de 7.000 metros.  Sondagens já são feitas até mesmo na China e na Rússia a profundidades de até 12.000 metros.  Mas a tecnologia para a efetiva exploração do petróleo e do gás em reservas ultra-profundas nunca superou a marca dos 3.500 metros.

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A entrevista de Thomas Friedman, em inglês, pode ser lida em www.foreignpolicy.com/story/cms.php?story_id=4463.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?