Biodiversidade e a "Razão Vitoriosa"

Em matéria de notícias sobre o meio ambiente, a semana foi marcada pela publicação de um trabalho científico sobre a descoberta de uma nova espécie de formiga na Amazônia, feita por dois pesquisadores norte-americanos e um alemão, com o apoio de um pesquisador da EMBRAPA.

A publicação ocorre depois de dois ciclos de pesquisa de três anos cada, iniciados em 1996, no quadro de um convênio de cooperação entre o Brasil e a Alemanha, com o apoio do CNPq.  A formiga foi encontrada pela primeira vez por um pesquisador alemão em 1998, quando foram coletadas duas dessas formigas pelo pesquisador alemão, que fazia a sua tese de mestrado.  “Mas houve um acidente de transporte e esses exemplares não puderam ser analisados”.  Segundo o mesmo cientista alemão, “existe uma ampla literatura sobre mais de 12, 5 mil espécies de formigas no planeta.

Ou, talvez, a semana tenha sido marcada pela descoberta de que duas espécies de felinos selvagens estão “cruzando” no Rio Grande do Sul.  Os filhotes são férteis.  Segundo os autores da pesquisa, as duas espécies estão com dificuldades de “reconhecer os seus pares biológicos”.  Os cientistas brincaram e afirmaram tratar-se de uma espécie de “swing”, a troca premeditada e consensual de casais tão em moda entre os seres humanos em algumas grandes cidades.

Já os jornais estrangeiros noticiaram que depois de apenas três anos de pesquisa num dos ecossistemas mais estudados no mundo – a Grande Barreira de Corais, na Austrália –, foram descobertas “algumas centenas de espécies”.  Dessas, 150 novos tipos de corais.  Os pesquisadores não sabem quais se encontram em extinção.

Na mesma linha do noticiário, alguns jornais deram destaque, também, ao desencontro de pontos de vista entre uma ONG contratada pelo Ministério do Meio Ambiente – MMA e este sobre o número de espécies de árvores ameaçadas de extinção no Brasil.

A diferença é de tal ordem que ninguém de bom senso consegue entender (a) por que o MMA, na gestão passada, contratou uma ONG – por mais séria que seja – para fazer um estudo dessa importância sem definir critérios claros para definir como considerar quando uma árvore deve ou não ser incluída na lista de espécies em extinção e, sobretudo, por que ao longo do contrato não houve interação suficiente entre profissionais do MMA e profissionais da ONG para evitar que tais disparidades não acontecessem.  Afinal, o grau de conhecimento “científico” contido num estudo desse tipo é função da ótica de seus autores.

Essas notícias nos remetem a uma questão fundamental: as possibilidades “científicas” de conhecer a totalidade das espécies vivas, que continuam em evolução.  E, o que é pior, as interações entre essas espécies de maneira a caracterizar ecossistemas, isto é, a formação de um conjunto no qual as espécies dependem umas das outras para a sobrevivência comum, um determinado espaço geográfico, é igualmente uma tentativa humana de dar forma científica a sistemas biológicos dinâmicos.  Três indivíduos caracterizam um manguezal ou um exemplar do tal bioma Mata Atlântica (que não é um bioma, mas um conjunto de biomas)?

Sem isso – e sem uma razoável margem de flexibilidade e de bom senso não há políticas públicas e não há leis efetivamente aplicáveis.

Dito isso, há que se ter a humildade de admitir que a razão humana nunca conseguirá conhecer e, ainda menos, “entender” tudo.

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Talvez a notícia mais importante da semana tenha sido mesmo o reconhecimento público, por parte de Al Gore, de que já é tempo de dar muito mais ênfase às medidas de adaptação às mudanças climáticas.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?