Segurança Alimentar – Xô, Lerdeza!

O Financial Times, de Londres, publicou interessante matéria intitulada “Países ricos buscam terras férteis pelo mundo”, com uma chamada – “Segurança alimentar – Nações árabes e China lideram corrida para garantir seu fornecimento agrícola”.  A matéria foi traduzida e publicada no Brasil pelo Valor Econômico.  O tema – segurança alimentar – já foi analisado em artigos anteriores deste blog.

A reportagem informa que a Arábia Saudita está procurando terras no Sudão, na Ucrânia, no Paquistão e na Tailândia.  Os Emirados Árabes Unidos estão fazendo o mesmo no Cazaquistão e no Sudão; a Líbia, na Ucrânia: a Coréia do Sul, na Mongólia; a China, no sudeste asiático e na África.

Como um bom jornal inglês, o Financial Times não faz qualquer referência as massivas aquisições de terras brasileiras por gigantes da área de alimento como ADM, Cargill e Bunge.  Da mesma forma que os EUA, os ingleses nunca reconhecem os próprios crimes – genocídios, colonialismos marcados pela violência – ou ações de ética duvidosa.

Por seu lado, a FAO, usualmente caracterizada pela excessiva diplomacia e até mesmo pela influência das empresas de organismos geneticamente modificados, pesticidas e fertilizantes, resolveu “dar o nome aos bois”.  O seu diretor-geral, Jacques Diouf, tem falado no surgimento de “um pacto neo-colonialista para o abastecimento de matérias primas sem valor agregado exportadas pelos países produtores, em condições inaceitáveis de trabalho  rural”.

Falou pouco, mas falou quase bem.  Quase porque o trabalho rural nesses grandes projetos é irrelevante, os grandes projetos são altamente mecanizados, e os tais trabalhadores simplesmente migram para a periferia das grandes cidades.  Como me disse certa vez uma diretora da área de meio ambiente da Texaco, em Houston, durante a elaboração da lista de temas a serem tratados num estudo de impacto ambiental para um mega-projeto em Angola, no momento em que considerávamos os impactos sociais do projeto: “esse é o país deles, esses são problemas deles”.

A competição exponencial pelo uso das terras agriculturáveis está, sim, na origem dos recentes aumentos de preços dos alimentos.  Não se trata apenas da especulação financeira com as commodities, recentemente adotadas pelo discurso político.  E a prova de que a especulação é uma explicação insuficiente foi a decisão de países tão diferentes como Rússia, Argentina, Vietnam e Índia que proibiram  a exportação de gêneros alimentícios de primeira necessidade para o consumo interno.

O governo brasileiro mostra a sua preocupação falando na limitação de aquisições de terras por empresas controladas por estrangeiros.  É uma iniciativa que tem algum impacto eleitoral nacionalista, mas que está longe de sequer arranhar a face do problema.  A experiência histórica demonstra que sempre é possível arranjar um “laranja” ou alguém com dupla nacionalidade que atue na proteção dos interesses externos.

Para um país que tem nos produtos primários – entre outros os oriundos dos solos agrícolas – os principais ítens de sua pauta de exportações e, portanto, de sua estabilidade no comércio internacional, a situação requer um planejamento mais trabalhoso – xô, preguiça – no sentido do zoneamento das terras agrícolas.  Como, aliás, já fazem os países sérios há muito tempo. 

Nessa linha de raciocínio da FAO sobre o neocolonialismo orientado para a segurança alimentar dos países mais ricos, sempre é bom lembrar que empresas nacionais também podem servir de veículos para esse mesmo tipo dinâmica.  Como, aliás, sempre ocorreu no período colonial e continua ocorrendo com a indústria da cana de açúcar, a da celulose e, mais recentemente, a produção d soja para a exportação.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?