Nicholas Stern, Crise Financeira e Mudança

“A crise financeira é uma oportunidade para repensar o modelo de crescimento” – afirmou Nicholas Stern em visita ao Brasil, como afirmam tantos outros economistas e até a plataforma política de Barack Obama.  Não é!  Não existe modelo sustentável de crescimento, nem mesmo com tecnologias limpas, carros elétricos e outras pérolas da criatividade humana.

O modelo que teria que ser mudado é o modelo cultural, de consumo, de satisfação através da apropriação de objetos industrializados.

A bobagem tantas vezes martelada nos últimos anos pelo Banco Mundial, governos de países ricos, Bill Gates e uma porção de ONGs foi a de que 3 bilhões de pessoas seriam integradas ao mercado de consumo.  Enfim, a redenção da pobreza através do tal mercado, criando novas ondas de dinamismo e crescimento econômico.  Sem essa expectativa, não haverá crescimento econômico.

Se insistirem nesse tipo de crescimento, sobrevirá a nova crise.  Em breve e de maneira muito mais profunda.  Ou alguém consegue imaginar mais 3 bilhões de pessoas consumindo carros (ainda que elétricos, iPods, televisões de plasma, estradas, viagens aéreas e tudo o mais que se tornou necessário para a felicidade (?) no atual modelo de consumo?  Ah, há!  O World Resources Institute – WRI, ONG chapa branca sediada em Washington, chegou a publicar um estudo celebrando os 3 bilhões de novos consumidores.

A verdadeira e inevitável mudança será a do paradigma cultural.  Inevitável pelo colapso dos recursos naturais e pelas mudanças climáticas.  Mas, afinal, é possível uma mudança dessa profundidade, que evidentemente na será conduzida por lideranças políticas?  A resposta é um vago talvez, já que movimentos inovadores como o Slow Food – www.slowfood.com – não chegaram a ganhar a necessária amplitude.  As pessoas continuam querendo mais do mesmo.  E as lideranças políticas continuam prometendo mais do mesmo, agora com a ilusão da criação de milhões de empregos verdes.

O oposto só pode ser MENOS.  Menos crescimento demográfico e maior satisfação com atividades que não requeiram consumo.  Mas quem tem coragem de falar nisso?

***

Para conhecer melhor as linhas de pensamento mais avançadas no sentido da segurança alimentar, vale fazer o download do Manifesto Sobre o Futuro da Alimentação em www.future-food.org.   É útil até na vida cotidiana, para mandar às favas e exigir que saiam pelo menos das escolas aqueles fabricantes de comida-lixo como Nestlé, Danone, Coca-Cola, Kellog’s, McCain e similares.

***

Um amigo norte-americano me pergunta se a proposta do Manifesto Sobre o Futuro da Alimentação é que todos fiquem pobres para sempre.  Não, definitivamente não.  Mas já pode ser uma proposta de menos lixo  do tipo “sell old junk and buy new junk” (venda as porcarias velhas e compre porcarias novas) e no sentido de que seja disponibilizada muito mais serviços de extensão rural para a agricultura da alimentação do que para os grandes exportadore de soja.  Afinal, pequenos produtores italianos fazem excelentes vinhos e vivem muito bem, obrigado.  São os já famosos “vins de garage” (vinhos de fundo de quintal) que enlouquecem os grandes produtores pelos altos preços que alcançam.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

3 comentários em “Nicholas Stern, Crise Financeira e Mudança”

  1. Como economista e interessado basicamente em macroeconomia e meio ambiente, parabenizo-o efusivamente pela estocada profunda nessa “coisa” de desenvolvimento sustentável nos moldes que preconizam. Malthus deve estar rindo no além e dizendo “eu falei que a progressão geométrica e a progressão aritmética são incompativeis”…

  2. Caro Luiz Prado

    Embora não tenha nenhuma especialização em área afim do que v. discute, só posso parabenizá-lo pelo que percebo intuitivamente. O consumismo ocidental aparece como o último degrau do capitalismo, depois que ele absorveu os restos de seu antagonista.

    Prezado Luiz Costa Lima,

    Senti-me honrado com a sua visita ao blog, já que sempre acompanhei o seu trabalho.

    Eu não sei se falaria em termos de “capitalismo”, mas de um misto entre a cultura “objetal”, na qual as estruturas de valores são construídas através da apropriação de bens materiais, de um lado, e a mera explosão de crescimento da população, do outro. Ou seja, acabamos numa situação de duplo crescimento exponencial, o que objeto de análise por equipes do MIT desde 1970, quando a publicação de Limits to Growth deu origem à decisão da Gro Brundtland de convocar a I Conferência Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

    Então, sugiro a leitura, no blog, de Limites para o Crescimento I, Limites para o Crescimento II, de A Realpolitik Ambiental Alemã.

    O MIT reviu os seus estudos em 1990 – o que resultou na publicação de Beyond the Limits – e depois em 2002. Os prognósticos foram os piores possíveis.

  3. E qual seria a estrategia de desenvolver a gratificacao nao produzida por consumerismo ? Seria um elevado grau de sofisticacao utilitária, um renascimento espiritual, uma conscientizacao da dignidade humana?

    Prezada Lena,

    Acho que não temos a possibilidade de definir o que se passará depois do colapso da nossa civilização, em particular no momento em que as mudanças climáticas já são consideradas irreversíveis. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE entregou, há cerca de um ano ou pouco mais, um longo estudo sobre o impacto dessas mudanças no Brasil, recomendando, entre outras coisas, que se preparasse desde já a remoção de 46 milhões de pessoas do litoral. No INPE, não há “ambientalistas”, mas físicos. Então, o que intuo é que essa transição será extremamente dolorosa, como ocorreu como no caso de outros colapsos civilizatórios (incas, astecas, maias – para falar só dos casos das “Américas”, já que ocorreram casos semelhantes na Ásia, ou de colpasos da hegemonina de um povo ou cultura (a queda do império romano). Eu diria que o próximo colapso (desculpe-me pela palavra forte, mas é a que é a cada dia mais usada nos meios científicos europeus) será bem mais devastador do que qualquer outro ocorrido anteriormente.

O que você pensa a respeito?