Agência Internacional de Energia e Mudanças Climáticas – Cenário Pessimista ou Projeções Realistas?

A Agência Internacional de Energia – AIE divulgou hoje o seu relatório anual, cujo Sumário Executivo encontra-se disponível em www.iea.org (em inglês).

“O petróleo é e continuará sendo, por muitos anos, a fonte vital de energia do mundo, até mesmo se considerados mais otimistas pressupostos sobre o ritmo de desenvolvimento e a incorporação de novas tecnologias.”

“A prevenção de mudanças climáticas irreversíveis requer uma radical “descarbonização” dos recursos energéticos do mundo. Mantidas as atuais tendências, as emissões de carbono decorrentes do uso de energia e de outros gases causadores do aquecimento global levarão a temperatura média do mundo a subir, inexoravelmente, em 6 graus centígrados no longo prazo (AIE analisa as tendências até 2030). Uma ação forte e urgente é necessária para reduzir essa tendência.”

Mesmo consideradas todo o conjunto de iniciativas e medidas tomadas até meados de 2008 no campo das energias renováveis, o crescimento projetado da demanda por petróleo é de 1% ao ano, passando de 87 para 106 milhões de barris por dia entre 2007 e 2030. O crescimento previsto do consumo de gás natural é maior – 1,8% ao ano – e o do carvão (o combustível mais sujo) é ainda maior – da ordem de 2% ao ano.  A participação do carvão na matriz energética mundial subirá de 26% para 29% em 2030.

Num esforço para reduzir as responsabilidades dos países desenvolvidos (membros da Organização de Desenvolvimento e Cooperação Econômica – OCDE), o relatório enfatiza que a quase totalidade desse aumento de consumo ocorrerá nos países em desenvolvimento: 87% do crescimento da demanda se deverão à China, à Índia e ao Oriente Médio.

O relatório informa que a participação dos países em desenvolvimento no consumo de energia primária subirá de 51% para 62%, sem enfatizar que o percentual de responsabilidade dos países desenvolvidos continuará elevadíssimo, em particular se considerado o consumo per capita.  Essa linha de apresentação dos fatos é um forte indicador das posturas que serão adotadas pelos  países desenvolvidos nas futuras negociações internacionais sobre mudanças climáticas.

De acordo com a AIE, a maior parte do aumento da produção virá dos países membros da OPEP, que aumentarão a sua participação na produção mundial de petróleo de 44% em 2007 para 51% em 2030. As reservas desses países são consideradas suficientemente grandes e seu baixo custo relativo de produção assegurará essa posição.

Além disso, não há escassez de petróleo à vista.

“Acredita-se que cerca de 1/3 do óleo recuperável ainda não descoberto encontra-se na Oriente Médio, na Rússia e no Mar Cáspio. (…) Os recursos não convencionais de óleo, que permanecem quase intocados, também são muito grandes. Entre 1 e 3 trilhões de barris  de areias betuminosas e de óleo extra-pesado poderão ser recuperados economicamente. Esses recursos estão amplamente concentrados no Canadá (principalmente na Província de Alberta) e na Venezuela (no cinturão do Orinoco).”

***

A seguinte notícia foi publicada na Folha de São Paulo de hoje:

A Vale avança para licenciar uma usina termelétrica no Estado do Pará que, além de contribuir para sujar a matriz energética brasileira, deve frustrar o plano do governo de criar um projeto de reflorestamento sustentável na área de Carajás, uma das mais desmatadas da região amazônica.

“A usina, de US$ 898 milhões, utilizará carvão mineral importado da Colômbia e emitirá 2,2 milhões de toneladas de CO2 ao ano – o equivalente a 3,6% das emissões de todo o setor energético brasileiro em 2005.  O carvão mineral é o mais sujo dos combustíveis fósseis.”

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?