Crise, Consumismo, Nadismo e Mudanças Climáticas

Com bom humor, vale lembrar que neste sábado, 13 de dezembro, é o Dia Nacional do Nadismo – de não fazer nada mesmo (www.marboh.com.br/clubedenadismo).  Esse  interessante movimento pode ser comparado às propostas de adoção do “ócio criativo”, sistematizadas pelo italinao Domenico de Masi, e tem pontos em comuns com o muito mais sofisticado movimento denominado Comida Lenta (Slow Food) e outros tantos, até bastante mais profundos, alguns com vigorosas conotações religiosas.

Em todos os casos, o objetivo é uma redução drástica do consumo, elevado a consumismo e transformado em dogma pela assim  chamada civilização contemporânea.  E um aumento do tempo disponível para coisas mais valiosas, como conviver com familiares e amigos, ouvir música, contemplar a paisasgem – entre outras coisas que os economistas não valorizam nada.

Nos EUA, ao longo do mês de outubro, com os preços da gasolina em queda livre, os norte-americanos dirigiram muito, muito menos, algo como 13 bilhões de quilômetros.  Os números são Departamento de Transportes do governo dos EUA (equivalente ao nosso ministério) e mostram tendências interessantes.  Entre novembro de 2007, quando a queda na quilometragem percorrida se iniciou, e outubro de 2008, os norte-americanos dirigiram cerca de 140 bilhões de quilômetros a menos.  E isso num período em que os preços dos combustíveis caíram 25%, o que, em tese, estimularia o aumento do consumo.

Será que os hábitos norte-americanos estão mudando?  E será que eles conseguirão dar continuidade à mudança de maneira a deixar de consumir toda a imensa quantidade de produtos inúteis e lixo tecnológico que se misturam às inovações realmente úteis?  Ou será que continuarão invadindo e cometendo genocídios em busca de petróleo ou pelo simples prazer de guerrear?

O fato é que se os hábitos de consumo do mundo dito desenvolvido e dos países em fase de acelerado crescimento econômico não mudarem, nenhuma medida para conter as mudanças climáticas será efetiva.  E não se trata apenas das mudanças climáticas, mas do consumo de muitos outros recursos naturais, hoje mais rápido do que a capacidade de recomposição até mesmo dos recursos renováveis – como já se disse aqui nos artigos intitulados Limites para o Crescimento I e II.

Disso já se sabe desde o início da década de 1980.  Mas só agora a mídia, ainda que timidadmente, começa a falar sobre a necessidade premente de um redirecionamento radical dos hábitos de consumo e de vida para conter tanto as mudanças climáticas, quanto o colapso dos recursos naturais. 

A crise atual certamente não é apenas financeira.  Decorre, também, da percepção de que a economia não voltará a crescer como no passado.  Não se integrarão 3 bilhões de novos consumidores ao mercado.  Nas palavras de Herman Daly, um dos raríssimos economistas que vêm alertando para essa realidade há algum tempo, “o custo moral da atual crise dos mercados será muito mais elevado do que os seus custos financeiros”.

***

Na saída dos banheiros de um bar em San Francisco, entre aqueles cartões nos moldes de postais distribuidos gratuitamente para os cllientes, um trazia a seguinte frase: “venda o lixo velho, compre lixo novo”.

***

As fantasias de um convívio harmônico entre o ser humano e a natureza – algo sem precedentes históricos de realização efetiva – sempre existiu.  Mas as possibilidades de que haja algum avanço nesse sentido são praticamente nulas quando a população do planeta chegou a 6,7 bilhões em 2008, com previsões de 1,2 bilhões adicionais até 2025.  Mas os “ambientalistas” e os políticos não gostam de falar em programas de controle da natalidade.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?