Inglaterra e EUA – As Novas Repúblicas de Bananas

Na Inglaterra e nos EUA, as festividades de fim de ano foram precedidas de grandes desastres ambientais decorrentes da geração e da estocagem de cinzas por termelétricas que usam carvão como fonte de energia primária.

Na Inglaterra, tradicionalmente predadora de recursos (inclusive naturais) alheios, a polícia passou a usar da força contra manifestantes pacíficos de pequenas cidades de seu próprio interior.  Eles protestavam contra a drenagem do lago Thrupp, no Condado de Oxfordshire, que sempre foi usado para fins recreativos.  O objetivo da drenagem é simples: o lago é a alternativa mais interessante economicamente  para que a RWE – empresa de geração de eletricidade – coloque as cinzas resultantes da queima de carvão de uma usina térmica situada nas proximidades.  Informações podem ser encontradas em http://www.cpreoxon.org.uk/campaigns/oxon/vale/radley/srl_9_february_2007.htm.

As manifestações eram pacíficas, até que os advogados da RWE entenderam que poderiam usar uma lei bastante genérica, de 1997, contra o assédio, para ameaçar os manifestantes.  E obtiveram nos tribunais uma decisão que favorável à suspensão de qualquer manifestação sob a alegação de que a empresa estava sendo assediada e constrangida em suas atividades legais.  A partir dessa decisão, qualquer manifestante pode ser condenado a até 5 anos de cadeia.  A RWE é certamente detentora de algum certificado de boas práticas sócio-ambientais, desses emitidos por ONGs inglesas de comercialização desses papéis.

A bela e democrática Inglaterra, orgulhosa do direito anglo-saxão baseado nas tradições, mostrou, assim, a verdadeira face do poder, agora contra os seus próprios cidadãos, já classificados de “extremistas” pelas autoridades policiais.  Nada muito diferente de qualquer tribunal do Acre ou do Pará julgando assassinos de sem-terra a soldo de grandes fazendeiros.

Ao apagar das luzes de 2008, com pressões crescentes ganhando as páginas da imprensa em todo o país, a RWE resolveu enfiar as cinzas de seu carvão em outro lugar e fingir-se alinhada com os interesses da população local, abandonando os planos de aterrar o lago com o seu lixo.

Já nos EUA, os moradores de pequenas cidades do Tennessee receberam um belo presente de Natal: um gigantesco derramamento de lama tóxica – desses que acontecem  a torto e a direito em Minas Gerais, atingindo o Rio de Janeiro, sem que nenhuma iniciativa concreta, punição ou indenização resultem dessas ações e omissões (inclusive das omissões das autoridades). 

Lá, como aqui, a ruptura do dique de contenção não pode ser chamada de “acidente”.  Trata-se de crime ambiental mesmo, de omissão da empresa proprietária e da operadora da termelétrica.  E também de omissão das autoridades.

Casas foram destruídas por 2 milhões de metros cúbicos de lama formada pelas cinzas estocadas ao longo de muitos anos.  Se fosse por aqui, algum palhaço logo transformaria a informação em número de “maracanãs” com o pretexto de facilitar o entendimento dos “expectadores” da vida política.

Com a deterioração da qualidade da imprensa que marcou a era Bush, os jornais – inclusive o New York Times, que publicou a notícia em primeira página – não enfatizaram o nome dos responsáveis pelo crime e até mesmo fingiram acreditar que não houve qualquer impacto substancial na qualidade das águas dos rios atingidos.

De fato, essa foi a versão dos órgãos ambientais e outros, inclusive aqueles que no passado já tiveram merecida reputação de seriedade, como a Agência de Proteção Ambiental – EPA –e a Autoridade do Vale do Tennessee (TVA).  Ambas insistem na versão de que tudo não passou de “um acidente provocado pelas fortes chuvas”.  Assim, já preparam o terreno para que não sejam identificados ou punidos os responsáveis, caindo tudo na vala comum da “força maior”, conhecida como “atos de Deus” na língua inglesa.

Ou seja, em ambos os casos nada diferente do que se passa em qualquer república de bananas, dessas que o Brasil se propõe a liderar.  Lá, como aqui, crimes financeiros e crimes ambientais, entre outros, permanecem impunes.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Inglaterra e EUA – As Novas Repúblicas de Bananas”

  1. Feliz Ano Novo, Luiz! E tomara que a gente possa contar com mais e mais matérias suas neste blog!
    Gostei deste post, porque ele problematiza uma categoria que você utiliza de vez em quando, os “países sérios”.
    Além disto, indica que, se aqui não é nada fácil implementar políticas públicas ambientais consistentes, lá nos países ricos a defesa ambiental não é tampouco figura fácil na gestão pública.
    Ao assistir Gomorra, fiquei me perguntando como é que a União Européia tem feito para engolir a “gestão” do lixo tóxico pela Camorra….

O que você pensa a respeito?