Um Plano B Para As Mudanças Climáticas

Os cientistas tardaram um tanto para admitir – ao menos publicamente – que as mudanças climáticas são irreversíveis. 

O Protocolo de Kyoto naufragou graças aos economistas e seus Mecanismos de Desenvolvimento Limpo – MDL, concebido por economistas devotos do tal livre mercado.  Os MDL permitiram que os ricos comprassem certificados de redução de emissões dos pobres, fazendo com que ao final todos se tornassem igualmente ludibriados e com as consciências tranquilas.  Os níveis de emissão de CO2 continuaram subindo ao longo da última década e, agora, aumentam com uma velocidade muito superior a dos piores cenários concebidos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC.

Aos poucos, tornam-se mais contundentes os indícios de que os próximos acordos serão forjados com a mesma matéria prima da enganação acadêmica, burocrática e diplomática.  Em conseqüência, os cientistas já começaram a viajar na maionese com propostas pirotécnicas tipo Guerra nas Estrelas.

Numa enquete realizada pelo jornal inglês The Independent com 80 expoentes do mundo científico na área de mudanças climáticas, mais da metade admitiu que já é hora de pensar num plano B para compensar o fracasso nos esforços para simplesmente reduzir as emissões de CO2.

Consultado, James Lovelock, autor da Teoria de Gaia e sempre devoto de sua própria hipótese de que a Terra teria mecanismos de auto-regulação, afirmou que a concepção de um Plano B é, agora, urgente.

“Eu nunca pensei que o Protocolo de Kyoto resultaria numa redução significativa das emissões de gases causadores do efeito-estufa.  Então não estou mais otimista e nem mais pessimista do que há 10 anos atrás.  No entanto, estou menos otimista em relação à capacidade da Terra para compensar as excessivas emissões de carbono e, portanto, eu concordo enfaticamente com a necessidade de um Plano B que inclua medidas de geo-engenharia a serem implementadas em paralelo com os esforços para reduzir as emissões de carbono.”

As propostas pirotécnicas – altamente controvertidas e que até recentemente seriam consideradas fantasiosas – incluem, entre outras:

– O bombeamento de partículas de sulfato na estratosfera para refletir a luz do sol de volta para o espaço;
– A criação de nuvens artificiais de baixa altitude sobre os oceanos de maneira a encobri-los parcialmente;
– A colocação de espelhos na órbita da Terra para desviar a luz do Sol;
– A fertilização dos mares com ferro, que é o fator limitante para a reprodução de fitoplancton nas “áreas mortas” dos oceanos de maneira a aumentar a fixação de carbono, e;
– A colocação de gigantescos tubos nos oceanos para levar a água das superfícies, com maiores concentrações de carbono, para níveis mais profundos, onde são menores as concentrações de carbono (esta, do próprio Lovelock que, pelo jeito, já não é tão acredita tanto no poder de sua própria teoria de Gaia).

Entre os que se opõem a esses malabarismos cientificistas, destaca-se o professor David Archer, geo-físico da Universidade de Chicago e especialista em química oceânica.  Ele enfatiza que o carbono já despejado na atmosfera continuará a impactar o clima durante milênios e que “acreditar em esquemas como os aerossóis de sulfatos seria como colocar o planeta numa UTI”.  Se a humanidade não se decidir a “pagar a conta das mudanças climáticas, terá que arcar com o efeito devastador dessas mudanças dentro de muito pouco tempo.” – afirma Archer.

***

A NASA acaba de divulgar um estudo sugerindo que o melhor caminho para que a humanidade “ganhe tempo” para desenvolver e disseminar tecnologias capazes de conter as mudanças climáticas é o controle de emissões de… fuligem.  Esse tipo de material particulado é emitido tanto pela queima de combustíveis fósseis – fonte de mais fácil controle – quanto pelo uso, nos países mais pobres, de carvão e madeira para cozinhar – uma fonte fora de controle.  No estudo, a NASA sugere que os sistemas de preparação de comida utilizados nas regiões mais pobres sejam substituídos por fogões solares.  Nessa linha de pensamento, os gringos logo, logo conseguirão transferir responsabilidades para os que quase não têm comida e cozinham com lenha.  Felizmente, essa é a última molecagem de George W. Bush e sua canalha, que conseguiu politizar até a NASA, depois de conseguir afastá-la das pesquisas mais sérias sobre o tema.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Um Plano B Para As Mudanças Climáticas”

  1. Condeno o catastrofismo, mas acho que é apenas uma questão de lógica que o interesse ecológico vai se sobrepor ao econômico. Portanto, acho bastante provável que grandes prejuízos e tragédias serão mesmo o caminho inevitável. A partir destas é que poderá surgir um equilíbrio, embora ao custo de milhões de vidas. Tal e qual a destruição das Grandes Guerras faz prevalecer desde 1945 a paz no mundo ocidental.

    Comentário do autor:

    Estamos falando num custo de bilhões de vidas, não de milhões. Até porque, neste assunto, não estaremos falando apenas do mundo ocidental,
    mas também de países como China e Índia, com quase 2,5 bilhões de habitantes.

    Além do que, quando centenas de cientistas do mundo inteiro concordam, ficam difícil falar em “catastrofismo”.

    Mas, veremos. Grato pelo comentário, sempre bem vindo, quando vindo de você.

  2. Errei na digitacao. A frase correta é “o interesse ecológico NÃO vai se sobrepor ao econômico”.

    Quanto ao catastrofismo, me referia a todos os alarmes recentes não ao seu texto, embora, pela sua resposta, veja que está mesmo entre os catastrofistas.

    De qualquer modo, tenho que rever meu conceito de catastrofismo ou aderir a ele, pois milhões de vidas perdidas, que admito que podem ocorrer, já são uma catástrofe. Nem precisam ser bilhões.

O que você pensa a respeito?