Surgiram há tempos nos Campos Gerais e difundem-se rapidamente a partir de Ponta Grossa, no Paraná, importantes notícias para a gestão ambiental no Brasil e para os esforços para conter as mudanças climáticas: a tecnologia agrícola conhecida como plantio direto na palha, que conserva e recupera solos agrícolas, reduzindo drasticamente impactos ambientais de todos os tipos, entre os quais o uso de pesticidas e os processos erosivos que causam sedimentação nos rios e reservatórios de todos os tipos. E, como se não bastasse, mais recentemente o uso da técnica de plantio direto demonstrou ser uma importante forma de captura de carbono, cujas emissões são as principais causadoras das mudanças climáticas.
A tecnologia consiste em não remover a cobertura dos solos de maneira a não prejudicar e mesmo aniquilar com as suas propriedades físicas, químicas e micro-biológicas, aposentando os equipamentos que o revolvem e toda a chamada “revolução verde” que, no passado e ao longo do tempo, consagrou o uso intensivo de métodos de destruição daquilo que a natureza levou séculos para constituir – os solos agrícolas. Ao contrário, são utilizados até mesmo culturas de inverno com a única finalidade de manter a cobertura dos solos e a sua fertilidade.
Conhecida no exterior como agricultura de conservação (conservation agriculture) ou sem revolvimento do solo (no-till), essa abordagem foi trazida para a região de Ponta Grossa por produtores agrícolas como única forma de evitar a perda total da produtividade dos solos pela erosão que se acentuava de maneira acelerada e visível. “Durante chuvas mais fortes, podíamos ver o solo e até mesmo as sementes serem carreados pela água de escorrimento superficial” – afirma Manoel Pereira, mais conhecido como Nonô, um dos líderes do movimento que se transformou numa referência nacional e internacional.
Hoje, produtores e agrônomos do mundo inteiro visitam a fazenda de Nonô, no município de Palmeira, vizinho a Ponta Grossa, e a Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha – www.febrapdp.org.br – já organizou inúmeros cursos e visitas de estudo a pedido do Banco Mundial para produtores e representantes de governos africanos. Enquanto isso, o professor João Carlos de Moraes Rego, especialista em matéria orgânica e gestão da fertilidade do Departamento de Ciência do Solo e Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa, e seus alunos finalizam importantes trabalhos sobre o potencial de sequestro de carbono da agricultura feita com base nos princípios do plantio direto. Enquanto isso, numa fazenda exprimental, a agrônoma Lutécia expõe a técnica a centenas de produtores com notável habilidade para a comunicação daquilo que conhece profundamente. Esses são exemplos de um trabalho que envolve dezenas de pesquisadores e de milhares de produtores rurais que são, hoje, um exemplo de gestão de recursos naturais que deveria ser seguido pelas autoridades dos mais diversos setores.
A FAO já reconheceu a importância do plantio direto como feito no Brasil desde 2001 – www.fao.org/docrep/004/y2638e/y2638e00.htm (em inglês e em espanhol) e já é tempo do governo federal começar a dar um maior apoio a essa iniciativa a esse magnífico trabalho que surgiu por iniciativa dos produtores rurais e revoluciona a gestão dos recursos naturais no Brasil e no mundo.
A EMATER-PR anda fazendo excelente trabalho de disseminação das técnicas de plantio direto para os pequenos produtores rurais. São significativos tanto o aumento da produtividade das áreas agrícolas quanto a redução de custos e do tempo de trabalho dispendido por hectare. Da mesma forma, toda uma indústria de equipamentos para o plantio direto se desenvolveu no sul do Brasil. Já é hora do governo federal e de outras unidades da federação apoiarem de forma decisiva as iniciativas de plantio direto, que começam a chegar à Amazônia.
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O plantio direto protege muito mais os recursos hídricos do que as genéricas faixas marginais de proteção (FMPs) que a lei mal feita tenta definir como sendo a mesma para a Amazônia e para as serras gaúchas. O plantio direto não protege apenas os solos, mas assegura a lenta infiltração da chuva, recarregando aquíferos subterrâneos e regularizando a vazão dos rios.
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Evidentemente, os países mais desenvolvidos têm as suas próprias políticas de conservação dos solos há décadas. A Lei de Conservação dos Solos dos EUA, que criou o Serviço de Conservação dos Solos, foi aprovada pelo Congresso em 1936 por unanimidade. O Canadá tem, hoje, a quase totalidade de sua área agrícola produzindo com técnicas que incorporam pelo menos alguns dos conceitos do plantio direto. No Brasil, estranhamente, o governo estabeleceu que o dia 15 de abril seria o Dia da Conservação dos Solos por ser a data de nascimento de americano Hugh Hammond Bennett (1881- 1960), que foi o primeiro chefe do Serviço de Conservação dos Solos dos EUA. Mas, para valer, o importante é o Plantio Direto conforme concebido pelos próprios produtores agrícolas, com pouca interferência do governo do estado do Paraná e quase nenhuma do governo federal.
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