Meio Ambiente como Negócio – Business as Usual

O governo de Rondônia suspendeu a autorização para as obras da Empresa Sustentável de Energia – cujo nome é uma piada pronta – que venceu a concorrência para a concessão do potencial hidrelétrico de Jirau, no rio Madeira.  O empreendimento é totalmente privado mas faz parte do tal PAC.

A vantagem da decisão é o entendimento de que o município pode paralisar obras cujo lienciamento ambiental foi feito pelo órgão federal ou estadual de meio ambiente, seja por razões propriamente ambientais ou outras de interesse local.

Ninguém supõe que o governador Ivo Cassol esteja interessado qualquer tipo de proteção ambiental.  Na semana anterior o governador fez críticas à tal da Empresa de Energia Sustentável por comprar madeira fora do estado e pelos poucos benefícios que a hidrelétrica trás para Rondônia.  O governador sequer se preocupou em esclarecer que outros benefícios ele acha que a empresa deveria trazer para o estado, mas certamente tem razão ao querer abocanhar um naco mais suculento de um tipo de empreendimento que usualmente cria imensos problemas para o poder público local.

Numa entrevista à imprensa, o secretário de estado de “Desenvolvimento Ambiental” alegou que o Ministério Público Estadual – MPE havia determinado a suspensão das autorizações.  Em nota oficial, o MPE negou que tenha feito isso.  Até porque o MP não tem poderes para tanto.

Ninguém ainda questionou coisas bem mais simples como a quantidade e o valor da madeira que se encontra na área de alagamento.

Pode ser usado como referência um estudo do IBGE que  considera padrões de extração “sustentável” na faixa de 40 metros cúbicos por hectare para as florestas nativas da Amazônia legal (o banco de dados pode ser encontrado na página do IBGE na internet, no campo de downloads, Geociências).

A área do reservatório da hidrelétrica de Jirau tem 25.800 hectares, de onde a madeira extraída não precisaria respeitar nenhum padrão de sustentabilidade.  Mas, mesmo segundo esses padrões restritivos de extração, o volume total de madeira de valor econômico que poderia ser extraído da área de alagamento seria superior a 1 milhão de metros cúbicos.

Projetos implantados no Espírito Santo para estudar a viabilidade da utilização de madeira na construção de casas e outras edificações demonstram que é possível construir uma unidade de 100 metros quadrados com 20 metros cúbicos de madeira, como se pode ver em www.planetaorganico.com.br/trabcasaeco.htm.  Para quem não conhece e se interessa pelo tema, vale, também, visitar a Reserva de Linhares, onde um mestre do reflorestamento e da gestão de unidades de conservação, Renato de Jesus, coordenou um projeto que levou à implantação de casas fabricadas com madeira de reflorestamento para abrigar visitantes e pesquisadores.  Clicando na imagem, é possível ter uma boa visão de uma dessas casas em  www.vale.com/hot_sites/linhares/reserva_cond.htm.

Mesmo se consideradas casas tão maiores do que as plantas de usuais para a baixa renda, o governador Ivo Cassol poderia liderar o maior programa de construção de casas populares do Brasil, com 50.000 unidades fabricadas com a madeira que apodrecerá no reservatório de Jirau.  Usando o mesmo princípio, podem, também, ser construídos postos de saúde, escolas, e outras edificações de interesse social.  Com um pouco de planejamento, essa já seria uma excelente “compensação ambiental” para o seu estado.

No passado, a madeira das áreas alagadas por outras hidrelétricas não foi removida, gerando deterioração da qualidade das águas dos reservatórios.  Só Tucuruí implicou no alagamento de 2.414 quilômetros quadrados, sem a remoção das árvores e grandes perdas econômicas, ainda que o planejamento e a construção de hidrelétricas seja assunto de muito longo prazo.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Meio Ambiente como Negócio – Business as Usual”

  1. Eu ainda me lembro o que a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí gerou a região:

    O relocamento as pressas de espécies ainda encontradas sobre troncos flutuantes, enquanto a lagoa se formava com o represamento;

    O remanejamento das famílias que seriam afetadas pelo alagamento e claro, de outros tantos que aproveitaram a situação para se beneficiar e que hoje ocupam a conhecida e abandonada cidade do Breu Branco;

    O subsequente e arriscado serviço de retirada de imensas árvores submersas que, ao tombarem, rumavam a jusante, exigindo procedimentos de segurança especialmente dedicados para evitar problemas as turbinas;

    Do projeto que se arrastou por anos e que iria devolver a trafegabilidade de embarcações pelo rio Tocantins, e que hoje ignoro se deveras funciona;

    Da falta de informações de segurança aos moradores de Tucuruí, parte baixa da cidade, no caso de ocorrência de acidentes (Graças a Deus, nada ocorreu até hoje!)

    Do enclave social decorrente do surgimento de uma cidade para os funcionários da Hidrelétrica. Uma disparidade enorme, tendo a referida uma infraestrutura notória, com escolas de rede nacional como C.O.C. e Pitágoras, urbanização planejada e descontos altos nas contas em relação ao moradores da região.

    (As casas eram disputadíssimas, apesar de pequenas. Todos tinham vontade de morar lá pela infraestrutura. Mas hoje tudo está estagnado ou esmaeceu por causa da finalização parcial da obra).

    Enfim, nada muito nostálgico.

    Mas, em suma, se paralisaram a obra, com certeza não foi em prol do resguardo ambiental, mas quem sabe para a preservação de outros tipos de recursos que os interesses políticos quase sempre enxergam melhor do que ninguém.

    Vamos ficar de olho!

  2. Luiz Prado,

    Hoje, ouvindo a Radio Bandeirante, o que faço sempre quando estou dirigindo, ouvi um diálogo seu com o Boechar sobre os aeroportos do Rio de Janeiro. Achei a reportagem oportuna, embora questione o número de aviões (grande aviões a jato) que o aeroporto Santos Dumont recebe diariamente.

    Quando os irmãos Roberto projetaram o aeroporto, ali já funcionava a Escola Naval e, a menos de mil metros estava a Santa Casa de Misericórdia…

    Concordo que é um absurdo os nossos aeroportos não serem servidos por metrô, a exemplo do que acontece em outros países.

    Absurdo maior é a Rodoviária do Rio de Janeiro, instalada distante do termina de trens, sem acesso ao Metro e servida por uma rede de táxis conduzidos por mafiosos; muitos desses táxis ‘bandalha’, os taxímetrso escondidos ou não instalados. Não seria a hora de se fazer uma nova rodoviária, com instalações modernas e em um lugar que tenha acesso ao metrô?

    Vocês já passaram pela Rodoviária Novo Rio? Ela é um absurdo arquitetônico; para o turista ou o visitante, um parque de horror. Bares imundos, barulho, sem conforto, acesso por escadas, assaltantes, vigaristas etc. Não seria o caso de vocês fazerem um programa questionando a situação dos nossos terminais rodoviários? O Fontenele na Central do Brasil e a Rodoviária Novo Rio?

    Prezado Elmer,

    Grato pelas observações e pela sugestão, já aceita.

O que você pensa a respeito?