A Escassez de Água e a Tempestade Perfeita

No governo inglês, há um cargo denominado “cientista-chefe” ou “cientista principal” -“chief scientist”.  O novo cientista-chefe, que fala em nome da comunidade científica, é o professor John Beddington, graduado em economia com especialização em biologia e economia aplicada à gestão sustentável dos recursos naturais.

Na última quinta-feira, 19 de março de 2009, o professor Beddington discursou na abertura da Conferência Britânica Sobre Desenvolvimento Sustentável.  Entre outras coisas, ele afirmou que haverá um crescimento de 50% na demanda de alimentos e de energia do planeta até 2030, quando a população do mundo alcançará 8,3 bilhões de pessoas.

“As reservas mundiais de alimentos alcançaram o seu ponto mais baixo em 50 anos; as estratégias de produção e estocagem de alimentos têm debilidades que podem se tornar fatais para grandes parcelas da população, que morrerão de fome” – afirmou.

Até 2030, a demanda de água será 30% superior aos níveis atuais.  Essa afirmação coincide com as do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que antecipa para 2025 o declínio acentuado das disponibilidades de água per capita em grande parte da Europa, da Ásia e da África.

“É mais do que concebível que a escassez aguda de recursos gerará uma instabilidade global e a guerra” – afirmou o professor Beddington.

É difícil falar em pessimismo quando milhares de cientistas dos mais diferentes países dizem a mesma coisa.  Ainda assim, os governos falam em retomar os níveis de produção e consumo!

Ninguém ainda fez a conexão entre a atual crise econômica e a mudança de percepção das pessoas – genericamente denominadas de “consumidores” pelos economistas – sobre o tal mercado, ou seja, sobre as suas prioridades de consumo.  Elas continuarão a querer mais do mesmo?  Um computador pessoal duas vezes mais rápido será uma prioridade, como no passado recente, ou naufragará como a migração do Windows XP para o Windows Vista?

Nos EUA, Obama acaba de dar o primeiro passo na direção da criação de sua “agenda verde” com a alocação de US$ 2,5 bilhões para a pesquisa e desenvolvimento de carros elétricos, juntamente com um desconto de US$ 7.500 para cada cidadão que comprar um desses veículos. 

Pode-se dizer que US$ 2,5 bilhões é bem pouco diante do trilhão que em breve alcançarão os recursos para salvar bancos – isto é, recursos disponíveis para o consumo, para a poupança que financia novos negócios e para a aposentadoria no país.  Ou do outro trilhão que já custa a insana invasão do Iraque segundo o Escritório Central de Contabilidade do Governo norte-americano (General Accounting Office).  Nada se fala, tampouco, sobre o fato de que carros, elétricos ou não, continuam a consumir a mesma quantidade de aço – e, portanto, de energia – e outros materiais em sua produção.

O professor Beddington, ainda apostando na ciência e na tecnologia para mitigar essa combinação de escassez de água, de alimentos e de energia, que ocorrerá antes mesmo dos problemas gerados pelas mudanças climáticas – a “tempestade perfeita”, nas palavras dele próprio -, conclui: “a humanidade não será extinta; a natureza encontrará os seus caminhos”.  Isso é óbvio.  Mas um tanto irônico em relação ao custo em vidas humanas e em sofrimento.

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Uma simulação do crescimento populacional e do consumo de recursos da Terra pode ser vista em www.peterrussell.com/Odds/WorldClock.php.

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Para muitos ambientalistas, a “tempestade perfeita”, que eliminará centenas de milhões de seres humanos, talvez seja encarada como uma bela solução.  Afinal, eles parecem querer uma natureza virgem, sem seres humanos, que são os verdadeiros causadores de todos os grandes problemas ambientais.

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A apresentação de Sir Beddington – sem os slides – pode ser encontrada, no original,  www.govnet.co.uk/news/govnet/professor-sir-john-beddingtons-speech-at-sduk-09

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “A Escassez de Água e a Tempestade Perfeita”

  1. Warm congratulations, Luiz.

    Yours is the “Blog of Blogs”, always separating the grain from the dross, always up-to-the minute, always apposite. UK Science Adviser Beddington’s warning of the “Perfect Storm” has already started in several places worldwide. The recent book: “Philippines: Mining or Food?” shows how government enthusiasm for envirnmentally damaging mining has converted the Philippines from a rice exporter into the biggest rice importer — and they cant afford the rice, so the poor go hungry or worse.

    Keep up the GREAT work and many thanks from us all!
    Robert Goodland

  2. Em suma, os governos têm muito a fazer, mas ninguém quer “sujar” as mãos.
    Estamos ferrados!(?)

    Ratifico os elogios do Robert a você e vou além, agradeço por salvar-nos da ignorância, da censura de informações e por nos instigar a pensar além do óbvio ululante.

O que você pensa a respeito?