Contaminação da Água de Abastecimento Público X Mal de Alzheimer

“Como os demais países em desenvolvimento, o Brasil deverá igualar-se, nas próximas décadas, aos do primeiro mundo no que diz respeito ao mal de Alzheimer, a condição mais crítica que se conhece de degeneração cerebral…”.   A afirmação é do notável médico e pesquisador Helio Póvoa, em seu livro Nutrição Cerebral, leitura indispensável para epidemiologistas e, sobretudo, para as autoridades da área da saúde, bem como para os leigos. A doença de Alzheimer deveria ser objeto de políticas preventivas de saúde pública, e não apenas da gana dos laboratórios farmacêuticos por maiores lucros.

De fato, diversos estudos sugerem a ligação entre essa doença e a contaminação por alumínio.  Não há estudos conclusivos, mas há muito a Organização Mundial de Saúde – OMS reconhece que o alumínio tem efeitos negativos nas funções cerebrais, no desenvolvimento do sistema neurológico e nos ossos.

Ainda que estudos da OMS indiquem que a absorção de alumínio residual existente na água potável corresponda a apenas 5% a 10% da absorção total das pessoas, os países desenvolvidos têm sido cautelosos ao assunto, amplamente estudado e debatido.   O restante da absorção de alumínio por seres humanos viria de diversas fontes, incluindo desde as panelas usadas no cozimento de alimentos até anti-ácidos e aditivos amplamente usados nos alimentos industrialmente processados.

No Brasil, um estudo publicado em 2001 indicava a presença de níveis inaceitáveis de alumínio em 100% das amostras de água de abastecimento público nos municípios de São Gonçalo e de Duque de Caxias – no Rio de Janeiro – , abastecidos a partir de sistemas diferentes – Acari e Imunana-Laranjal.  Esses sistemas de captação, tratamento e distribuição de água não abastecem apenas esses dois municípios.

O estudo – intitulado “Importância da análise de água para a saúde pública em duas regiões do Estado do Rio de Janeiro: enfoque em coliformes fecais, nitratos e alumínio” é de autoria dos professores Marcelo Bessa de Freitas, do Núcleo de Saúde Coletiva da UFRJ, Liz Maria de Almeida, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, e Ogenis Magno Brilhante, do Instituto de Estudos Urbanos de Roterdam.  A versão integral da pesquisa pode ser encontrada em www.scielo.br/pdf/csp/v17n3/4647.pdf.

Os padrões de potabilidade de água para consumo humano estão definidos, no Brasil, pela Portaria no 518/2004 do Ministério da Saúde.  Essa norma permite que os programas e resultados do monitoramento sejam feitos pelas próprias concessionárias dos serviços, que usualmente não os divulga, ainda que algumas, como a SABESP, o faça em sua página na internet.  Esses programas deveriam ser auditados por instituições autônomas independentes das concessionárias de água e esgoto, por razões óbvias.  Auditar a si próprio não é uma prática recomendável em lugar nenhum do mundo, em nenhum setor da atividade humana.

A violação dos padrões de alumínio – entre outros – não é “privilégio” de nenhuma concessionária em particular e certamente pode ocorrer na água de muitas outras prestadoras de serviços de abastecimento de água, estaduais, municipais, públicas ou privadas.  Em Santa Catarina, o Ministério Público estadual abriu inquérito sobre o assunto em 2008.

Estudos feitos por solicitação da Organização Mundial de Saúde – OMS indicaram que na década de 90 as concentrações de alumínio na água distribuída à população na Alemanha variavam de 0,01 mg/litro a 0,2 mg/litro, enquanto 2,7% da população recebiam água com concentrações mais altas de alumínio.  Num amplo programa de monitoramento feito na Inglaterra nesse mesmo período, apenas 0,7% das amostras indicaram concentrações superiores a 0,2 mg/litro.  No entanto, episódios de concentrações residuais de alumínio mais elevadas ocorreram na Irlanda do Norte e em regiões dos EUA (onde foram constatadas concentrações máximas 2,5 vezes superiores aos limites máximos estabelecidos pela norma).  Nos países sérios, esses problemas são amplamente debatidos em público sem que ninguém ache que há qualquer difamação na divulgação de informações.

A OMS considera que a operação correta de uma grande estação de tratamento de água pode assegurar concentrações residuais de alumínio de 0,1 mg/litro.  Isso significa que desjustes temporários ou não na operação dessas estações pode deixar, na água, concetrações residuais mais elevadas.

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O uso de panelas de alumínio aumenta a ingestão desse metal tóxico, de acordo com estudos de pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, que detectou elevadas quantidades de alumínio na simples preparação de arroz e feijão.  O sal colocado na água durante a preparação de alimentos em panelas de alumínio aumenta a condutividade da água, resultando num aumento de 25% das concentrações de alumínio nos alimentos.  Pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da UNICAMP também recomendam evitar que alimentos sejam cozidos ou armazenados em utensílios de metal.

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Outra interessante análise das questões relacionadas ao uso de alumínio no tratamento de água, feita por André Trigueiro, foi publicada em O Globo em maio de 2003 e pode ser encontrado em www.recicloteca.org.br/agua/trig-quim.htm.  André Trigueiro, que escreveu sobre as quantidades de sulfato de alumínio utilizado pela SABESP e pela CEDAE (na estação do Guandu) chama a atenção para um fato importante: “se o Guandu fosse um tecnicamente limpo, a quantidade de sulfato de alumínio necessária para tornar a água bruta própria para o consumo seria de apenas 28 toneladas por dia”, muito inferior às 280 toneladas diárias então utilizadas (que atingiriam 840 toneladas nos dias de chuva).

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

10 comentários sobre “Contaminação da Água de Abastecimento Público X Mal de Alzheimer”

  1. Obrigado pela matéria.
    Ouvi sua coluna na BandNews e fiquei interessado.
    Os metais nos alimentos são muito ruins para quem tem autismo também.
    Tenho um conhecido com autismo e esse artigo será válido para a sua família.
    Um abraço.

  2. Fantástico artigo, parabéns! Muito esclarecedor. Tenho um irmão autista de 09 anos e devido a isso estudo muito sobre o tema. De acordo com algumas pesquisas, o autismo é o resultado de um organismo bioquimicamente desequilibrado e uma das condições que afeta o indivíduo autista é: metilação e sulfatação inadequada com o aumento de toxidade.

    Quando a metilação não funciona adequadamente, os neurotransmissores não podem ser metilados, portanto não são “ativados” como deveriam ser, aumentando ou detonando sintomas como: ansiedade, depressão, déficit de atenção e problemas com o sono.

    Quando o processo de sulfatação não funciona bem, não é adequado, as toxinas e as químicas provenientes do ambiente e do consumo alimentar como: alumínio, mercúrio, glutamato, e toda sorte de ingredientes artificiais, não são eliminadas
    corretamente, provocando um acúmulo no organismo. A sulfatação inadequada enfraquece a barreira hemato encefálica e essas toxinas podem chegar até o cérebro e causar sintomas como: irritabilidade, agressão, hiperatividade e comportamento auto-lesivo. Além de aumentar as possibilidades de danos celulares e cerebrais.

    As panelas dele já foram trocadas e usamos de vidro e inox, ele evita comer frutas com fenol, não come alimentos com corantes e conservantes mas a questão da água me preocupa muito. Como dar a ele uma água sem alumínio? Seria melhor pegar água de alguma bica (sem tratamentos mas testada para saber se está limpa) para fazer sua comida ou para ele beber? Por favor, me ajude. Abraços!

    Grata e mais uma vez, parabéns pelo artigo!

  3. Prezado Luiz Prado

    Gostaria que me informasse alguns nomes de laboratorios que façam análise de água para consumo humano, pois não sei se a água “mineral” que estou bebendo é pura e da fonte.

    Att,

    Joaquim

    Caro Joaquim,

    Qualquer laboratório de análises físico-químicas faz esse tipo de análise. Ainda assim, é importante levar a garrafa fechada e deixar que eles façam a coleta da amostra, para evitar que se diga que a contaminação se deu depois. É importante saber que tipo de parâmetro (contaminante) voce gostaria de analisar, já que a metodologia de análise micro-biológica é diferente daquela utilizada, por exemplo, para medir a presença de nitratos. Em todo caso, sugiro que voce comece procurando no Google ou outro “contaminação de água mineral”.

    Fora isso, água engarrafada “adicionada de sais” não é mineral, e essa expressão consta dos rótulos.

  4. Gostei muito da matéria quando ouvi hoje pela manhã na rádio, gostaria de saber se esses testes também foram feitos aqui na Região dos Lagos, em caso afirmativo gostaria de saber do resultado.

    Resposta do autor:

    Os resultados são usualmente entregues à Vigilância Sanitária estadual. Mas nada no regulamento determina que as auditorias sejam independentes e as próprias concessionárias fazem as suas análises. Nunca encontrei esses resultado divulgados.

  5. A CEDAE vai dizer, com certeza, que não tem alumínio na água da cidade. Então, para onde vai a enorme quantidade de alumínio usada no tratamento da água? Para o Rio Guandu e depois para a Baía de Sepetiba?

    Estou imaginando a cena….

    E ainda, na sequência:

    Sobre a toxicidade do alumínio para organismos aquáticos…

    Apesar de não terem causado efeito agudo aos organismos-teste, os dois tipos de lodo causaram efeito crônico. Portanto, não seria o caso de ter algum tipo de cautela no lançamento destes resíduos (in natura) nos corpos receptores?

    Ao meu ver, tudo isso pode prejudicar a biota aquática e ainda degradar MAIS AINDA a qualidade das águas e sedimento, não é mesmo?

    Bom, esses são questionamentos que estão boiando para todo mundo ver…

  6. Prezado Luiz Prado, a matéria é ótima, mas é bom que se esclareça que esta portaria citada na reportagem é de 1990, O Ministério da Saúde já realizou duas revisões, e a última publicada em 2004 PORTARIA N.º 518, DE 25 DE MARÇO DE 2004. No entanto, o valor máximo permitido para alumínio continua sendo o mesmo, ou seja, 0,2 mg/L. Por hora, me parece que o estudo foi um recorte espacial e temporal que precisa ser considerado, tendo em vista investigações mais recentes.
    Abraço

    Resposta do autor:

    Grato pelo esclarecimento! De fato, procurei por atualizações mas ou não fiz a pesquisa direito ou elas não estão facilmente disponíveis. De toda forma, a informação já foi atualizada no artigo.

    Fora isso, entendo perfeitamente que a pesquisa foi um recorte espacial e temporal. O objetivo foi justamente alertar para a necessidade desses recortes serem feitos com mais frequência. Situações semelhantes já foram detectadas na Irlanda, na Alemanha e nos EUA, e mesmo com ultrapassagens dos padrões nacionais na água de apenas 2,7% da população (no caso da Alemanha) e de 0,7% das amostras, no caso da Irlanda ou da Inglaterra, não me lembro ao certo, a divulgação dos resultados e o debate na mídia foi essencial para que o governo ou as concessionárias fizessem os investimentos necessários para corrigir o problema. Aqui é que se tem essa visão de que qualquer informação não alinhada com a posição oficial é uma declaração de guerra. Esse tipo de stalinismo cultural está atrapalhando um bocado o Brasil

    Abraço e, novamente, grato pelo comentário construtivo.

  7. O aluminio é descartada junto com o lodo das ETAs, causando o assoreamento das áreas onde ocorre lançamento. Estudos apontam para a contaminação do ambiente aquático e a ocorrência de morte de peixes, seja pela contaminação química causada pelo alumínio, ou seja pelo entupimento das guelras dos peixes que vivem no fundo do reservatório. Este entupimento das guelras dos peixes ocorre devido a consistência de gel do lodo lançado.

  8. Como voce é sabedor, mas provavelmente a maioria dos seus leitores não, as grandes empresas instaladas no Estado do Rio de Janeiro que tenham potencial poluidor e sejam passíveis de licença ambiental, têm q apresentar anualmente ao órgão ambiental do Estado -FEEMA, hoje INEA, o q se convencionou chamar de RAA – Relatório de Auditoria Ambiental. Cabe perguntar: onde estão os RAAs da CEDAE? Se feitos, quem os elaborou? Pq o MPF e o MPRJ, sempre tão pródigos em filigranas supostamente técnicas, não notifica a Empresa a divulgá-los; já que a empresa é uma grande poluidora e responsável por sérios problemas potenciais de saúde pública. Não esqueçamos que o alumínio que NÃO chega com a água potável (?) servida pela CEDAE é descartado através dos sistemas de descarga das estações de tratamento de água, e, daí, já sabemos onde vai parar: em corpos d’água compartilhados pela população.

  9. Gostei da informação.

    Felizmente, a 20 anos usamos panelas de aço inox, aqui em casa. O mesmo não podemos obter em restaurantes, pois panelas inox com capacidade para uso profissional são caríssimas.
    Sendo um típico caso de saúde pública, não seria o caso do governo estimular a produção de panelas inox ou de ferro, reduzindo seus impostos, ou quem sabe (do jeito que gostam) sobretaxando as panelas de alumínio?

  10. Muito obrigada. Estava precisando destes dados de fonte segura.

O que você pensa a respeito?