Escassez de Água e Mudanças Climáticas – Agrava-se a Situação na Bolívia

Um grupo indígena que viveu por 4.000 anos no altiplano boliviano defronta-se com a extinção e a necessidade de migração para as cidades em decorrência da escassez de água, decorrência direta das mudanças climáticas. Os Uru Chipaya sobreviveram ao desaparecimento do Império Inca e à conquista espanhola. Agora, o rio Lauca, que já foi grande e assegurou a vida dos Uru Chipaya, transformou-se num córrego, às vezes quase um filete de água, dependendo de variações nos índices pluviométricos.

Há muito os cientistas já alertaram os governos de países hispânicos na América do Sul que a rápida redução dos glaciais terá conseqüências catastróficas para a Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. Uma estação de esqui nas proximidades de La Paz encerrou as suas atividades há alguns anos em decorrência do recuo do glacial de Chacaltaya. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas alertou, em 1997, que as geleiras que abastecem esses países de água podiam não durar mais do que 15 anos.

Recentemente, os burocratas do Banco Mundial, com a sua enorme capacidade de copiar e colar, ecoaram o alerta.  Certamente com o intuito de enfiar algum dinheiro extra goela abaixo dos bolivianos, em troca das usuais exigências.

Os primeiros atritos em torno do uso da água já surgem na Bolívia. As pessoas de La Paz e de El Alto, que fica a poucos quilômetros, estão sendo contidas, por enquanto, por massivas campanhas de conservação de água, o que apenas adia o problema por alguns poucos anos. Os Uru Chipaya acusam os Aymara que vivam à montante do rio Lauca de utilizar cada vez mais água. E Evo Morales limita-se a esbraveja contra os países ricos, enganando o seu povo com o usual teatrinho. Bate na mesa e diz que vai exigir medidas severas contra as emissões de gases causadoras de mudanças climáticas na conferência que se realizará na Dinamarca ao final de 2009 para tentar um acordo que substitua o falido Protocolo de Kyoto.

A Bolívia, como o Brasil e os países andinos, não têm políticas efetivas de gestão de águas e, muito menos, de adaptação às mudanças climáticas.  Políticas efetivas são aquelas que têm metas e alcançam os resultados a que se propuseram.  Os resultados das políticas brasileiras de gestão de águas aí estão, para todos verem: a contínua deterioração da qualidade das águas.  A vaidosa afirmação de que a lei é boa, “uma das mais avançadas do mundo”, só faltando a sua aplicação, não se sustenta diante dos fatos.  A contínua degradação dos recursos hídricos não parece ser um assunto que leve à reflexão e à mudança de rumos.

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Imagens recentes dos Uru Chipaya e do rio Lauca podem ser vistas em www.guardian.co.uk/world/2009/apr/24/andes-tribe-threat-bolivia-climate-change (depois de uma curta lavagem cerebral verde sobre o café das florestas).

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Com a seca em centenas de municípios em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e enchentes na região Norte, os dogmáticos da faixa marginal de proteção padrão ficaram no silêncio da omissão.  Nã será possível dizer que o primeiro caso se deve à remoção da vegetação ciliar e o segundo ao excesso de vegetação ciliar.  Essa correlação não é tão simplista assim. 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?