As Enganações da Coca-Cola e os Produtos "Caseiros" Industrializados

A Cola-Cola faz propaganda enganosa quando anuncia sucos do jeito que você faz em casa, com gominhos de laranja, para vender um produto que é cozido, desidratado, congelado, e depois adicionado com água e sabores artificiais. O consumidor vê nas prateleiras de suco dos supermercados uma embalagem muito convidativa, que lembra uma toalha de mesa, lembra fazenda, toalha de mesa da fazenda… algo bem aconchegante… a casinha bem cuidada da fazenda e seus frutos recém saídos do pé: Laranja caseira.   

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O consumidor e a embalagem:

Na embalagem, o fato de dizer que é caseira – com gominhos de laranja, entende-se que é feito da polpa e no máximo deve conter algum ‘ante’ para segurar o suco por mais tempo. Feliz por ter um suco mais próximo do natural em caixinha, essa informação leva-o a consultar os ingredientes. “Por que um suco que se diz caseiro mistura suco, polpa e água?” Ele imagina que o ‘polpa’ sejam os gominhos. Como o suco é caseiro numa embalagem tetrapak e com ‘ácidos’ e ‘antes’ mesmo não sabendo o que isso significa exatamente? Para um leigo no assunto (diga-se os consumidores em geral), qual a diferença entre néctar e suco? Já nas informações nutricionais surge mais uma dúvida: como é caseiro e só contém carboidratos e calorias? Cadê as vitaminas da laranja (Vitamina C)?

Ao procurar o responsável pelo produto para serem tiradas as dúvidas, encontra-se uma fazenda situada no Espírito Santo e a palavra Coca-Cola escrita em fontes pequenas no símbolo do SAC. Logo acima do nome do produto está a marca Minute Maid Mais, então deve ser com a Coca-Cola que o consumidor tira suas dúvidas.

 

Aos fatos:

Polpas e concentrados de frutas são feitos a partir do suco da fruta, aquecidos em altas temperaturas em torno de 7 horas, evaporando o excesso de água (leia-se vitamina das frutas), reduzidas a uma espécie de xarope. Por conta desse cozido, não há seleção das frutas junto aos produtores e o transporte desses concentrados para as fábricas fica mais barato (redução da água = peso).  Na fábrica, esse “xarope” é misturado à água tratada da rua, açúcar, conservantes, e aroma idêntico ao natural (leia-se artificial). Para exemplificar no dia-a-dia, é a mesma coisa que pegar qualquer laranja, espremer o suco, colocar numa panela, ligar o fogo a 180 graus e deixar cozinhando o suco por horas.

Às evidências:

A embalagem de qualquer produto é uma forma de publicidade, por isso se encaixa nas regras aplicadas à atividade:

O nome do produto refere-se aos sucos caseiros e o próprio texto de apresentação inicia com: sabe aquela laranja que você faz em casa quando é proibida a comparação de um produto industrializado com o que é feito em casa.

O código publicitário exige a apresentação correta das características de sabor, tamanho, etc. Além de não mencionarem o processo do suco cozido, a embalagem não menciona que os gominhos de laranja são feitos de partículas de gelatina imitando os gominhos e que o aroma da fruta fresca é artificial.

O código também prevê que as informações contidas tem o dever não gerar confusão quanto à qualidade, natureza (natural ou artificial), “bem como quanto à presença de aditivos, quando for o caso.” Em momento algum diz que é um suco artificial, e sim, utiliza a palavra néctar uma hora e suco

em outra. Será que o consumidor sabe que néctar é o suco mais pobre na cadeia de sucos?  

 

Raquel Valentini

 

(Iniciamos, aqui, uma série de artigos sobre “ética na publicidade”, incluindo as embalagens, de autoria de Raquel Valentini, que concluiu o seu curso de Communicação Social com especialização em Publicidade e Propaganda, no Instituto Superior de Educação da Paraíba, tendo apresentado a monografia intitulada “Publicidade e Meio Ambiente – Ausëncia de Ética nas Campanhas Ambientais”, na qual analisa a publicidade da Petrobras sobre a proteção do meio ambiente. 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

9 comentários em “As Enganações da Coca-Cola e os Produtos "Caseiros" Industrializados”

  1. Raquel, mandou bem de mais. Ficou ótimo o texto. Didático e explicativo, em forma e conteúdo. Parabéns! Adorei.

  2. Muito esclarecedor. Minha intenção ao pesquisar no Google “suco de laranja caseiro concentrado” era de aproveitar o excedente de laranjas da horta. Vou buscar outra maneira. Grato.

    Comentário do autor:

    Difícil – muito difícil – ver a Coca-Cola tendo atitudes de responsabilidade social e ambiental.

  3. Eu posso direcioná-la à pessoa… Raquel Valentini.. Mas seria legal se voce falasse um pouco mais de você, do que anda pensando em escrever, quais as hipóteses.

  4. Prezado,
    Lendo a sua matéria concordo plenamente com alguns pontos descritos . Primeiro a marca laranja caseira não tem nada de natural a não ser os “gominhos” conhecidos como daily pack no mercado de laranja, os demais componentes são artificiais . Quanto a industrialização das frutas, concentração – suco concentrado, não podemos dizer que é um xarope, pois para usar essa denominação o produto tem que ser 100% artifical . Sendo assim os produtos concentrados c/ açúcar e s/ adição de açúcar não são considerados xaropes e sim concentrado líquido para refresco . A conservação desses produtos é feita por baixas temperaturas, -18C para manter as suas propriedades organolépticas ( Naturais ) . Hoje a denominação dos produtos é regida pelo Ministério da Agricultura e as empresas produtoras de suco concentrado, as mais conhecidas, tem seus produtos analisados em laboratórios credenciados no MAPA, assim comprovando sua idoneidade .

    Att.,

    Guilherme

  5. Não creio que no artigo de Raquel Valentini a questão central – ou mesmo periférica – fosse a “legalidade”. A “legalidade” pode ser burra, como ocorre no caso da introdução de novas substâncias químicas no meio ambiente, todas consideradas seguras até que se prove o contrário. E a “legalidade” não tem qualquer relação com a idoneidade. Falar em “idoneidade”, no caso de um líquido amarelo que tenta parecer “laranja caseira”, é insensato. “Propriedades organolépitcas”? E quem as mede? Nessa linha de raciocínio as “propriedades organolépticas” de uma banana “Chiquita” colhida verde, banhada em produtos químicos e depois resfriada para venda no mercado dos EUA são as de uma banana “de verdade”, colhida madura na bananeira. Por esse caminho talvez seja possível propor que um Porto de 30 anos teve as “propriedades organolépticas” conservadas pelo mesmo processo. Mas, realmente, o que mais me chama a atenção – e esse é um assunto que sequer foi tocado por Raquel Valentini – é uma outra coisa: qual a “pegada carbönica” de um produto desses? Quanto custa a embalagem, o transporte, e o líquido estranho contido, por exemplo, numa garrafa de H2O não sei das quantas? E aí, aparece um otário de um ambientalóide falando que essa embalagem pode ser reciclada…..

  6. Prezado Juarez,
    Acho todas as iniciativas que levem à redução do consumo de coisas inúteis, supérfluas ou que causem poluição muito úteis. E acho mais ainda: que as pessoas devem lutar por seus anseios e sonhos.
    Na prática, no entanto, não entendo como combater com a educação a publicidade massiva de uma Coca-Cola, por exemplo, para que as pessoas tomem água vagabunda com nome de fantasia e cujo preço da embalagem e do transporte é MUITO maior do que o preço da água, para não falar da alternativa de ter um simples filtro em casa.
    Ou seja, ainda não encontrei uma forma de propor mudanças mais profundas numa civilização voltada para o consumo… ou melhor, para o consumismo como forma de realização pessoal, em particular das crianças e jovens. As Coca-Colas da vida pagam fortunas por horários nobres de televisão – o que não deixa de ser uma forma de “educação”, ainda que às avessas.
    Mas sigo esbravejando!
    Abraços!
    Luiz

  7. Olá..bom dia =)
    Adorei seu texto! Bem explicativo. Tem muito conhecimento =)

    Sou estudante de nutrição, mas ainda nõo tenho conhecimentos para desvendar dessa forma, certos produtos, e acabo sendo,também, enganada.

    Eu gostaria de saber, como você sabe, ou descobriu que “os gominhos de laranja são feitos de partículas de gelatina imitando os “gominhos” ?

    Fui enganada ahuhuhushauahsua

    Obrigada.E parabéns =)

  8. Simples, Ingrid,

    Basta ter amigos que trabalham na produção desses sucos.

    Mas, sugiro que leia sempre os rótulos, até mesmo de sabonetes.

    E, já que é estudante, se dispõe de um laboratório na universidade teste alguns alimentos processados industrialmente – proteínas, teste para hormônios e antibióticos, por exemplo. Você vai se divertir e poderá ajudar muito as pessoas.

    Luiz

    http://alimentacaoesaude.org/livro-o-dilema-do-onivoro/

O que você pensa a respeito?