Publicidade – A Verdade Deve Ser Dita?

Num artigo publicado numa revista de circulação nacional afirma-se que a publicidade aderiu à filosofia de dizer a verdade aos consumidores. Coloca como responsável por essa adesão o “excesso de marcas similares no mercado e as exigências dos consumidores”.  Mas… o que é dizer a verdade na área da publicidade?

Já é possível ver anúncios de produtos de beleza dispostos a valorizar a real beleza, redes fast food ressaltarem um estilo de vida saudável, bancos ensinando a economizar, indústria petrolífera ressaltando o meio ambiente mais limpo, etc.   Sim, é uma boa notícia o fato de haver um pouco mais de verdade na propaganda brasileira.  Mas a quem pertence essa verdade?  Aos clientes das agências de publicidade, aos consumidores, ao mundo, a algum tipo de verdade absoluta? 

Em sua maioria, essas verdades pertencem às aspirações dos consumidores e ainda não passam (para muitos) de uma bonita utopia.  Essas “verdades” descrevem desejos ainda não colocados em prática. 

Para determinados tipos de produtos e serviços, não é necessário ser um chato idealista numa publicidade, se ela não apresenta um risco à vida (“sempre desejada, por mais que esteja errada”, já dizia o mestre Gonzaguinha), como ocorre no caso da maquiagem.  A vida não é profundamente influenciada pela escolha de ficar ou não mais bela.

Mas a alimentação e tudo o que envolve nosso meio é um caso delicado, envolve a vida e deve ser dita a verdade de interesse do cliente.  Ou apenas uma “verdade” para posicionar ou reposicionar o produto no mercado?  No caso de alimentos do tipo fast food ou industrialmente processados, a verdade seria apenas que utilizar aquele produto é mais fácil e mais rápido para preparar?

Com o passar dos anos, o corpo humano vai reagindo às substâncias ingeridas diariamente e não é a toa o alto nível de câncer (para citar um exemplo) encontrado nas populações que aderiram ao consumo de alimentos industrializados.

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“Não podemos admitir a perda de sequer um dólar em faturamento”.  Quando esta é a verdade no interior da maioria dos clientes, é utopia ou real esperar um posicionamento verdadeiro de sua parte?

A palavra cliente refere-se àquele que contrata uma agência de publicidade para seu trabalho, termo utilizado na área.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Publicidade – A Verdade Deve Ser Dita?”

  1. Em nossa sociedade de consumo – seja qual for à conotação elogiosa ou depreciativa que se associe a esse termo -, a questão primordial, desde o nascimento até a morte, e em todos os níveis de atividade, se coloca da seguinte: “O que é que eu posso ter?” Comprar, conquistar, possuir. Ter: bens materiais, fortuna, felicidade, honrarias, poder, celebridade, êxoto amoroso, prestígio, emprego, família, saúde, casa, amigos, ou ainda cultura, saber, erudição. O que é que eu posso ter, conservar, aumentar?

    Essa é a questão lancinante, obsessiva, que sustenta o conjunto de nossas motivações.

    Basta pensar nos modelos que nos são propostos: vedetes políticas, super-homens de negócios, estrelas de cinema ou da televisão, artistas ou cientistas célebres, campeões esportivos, heróis de romances policiais ou de quadrinhos, ídolos de todos os tipos – todos esses personagens encarnam o triunfo e a glorificação do Ter. Todas elas podem dizer: “Tenho mais poder, tenho mais dinheiro, tenho mais recordes, mais saúde ou mais beleza, mais diplomas e competências. E por que não o drama mais terrível, a pior doença etc.” A valorização passa exclusivamente pelo Ter.

    Em Suma: a publicidade, hoje onipresente, consiste, no essencial, em proclamar que é preciso Ter absolutamente esta ou aquela marca deste ou daquele produto para Ser – Dinâmico, sedutor, feliz, satisfeito, estar bem em sua própria pele.

    Nossa busca é a alienação de um modelo insustentável e terrivelmente decadente. A questão decisiva deveria orientar-se para – “O que é que eu posso ser?”.

O que você pensa a respeito?