Dia Mundial do Meio Ambiente e o Oba-Oba Brasileiro

Hoje, através da internet, é possível percorrer os principais jornais do mundo sem encontrar qualquer referência ao tal Dia Mundial do Meio Ambiente, que entre nós é motivo de algum badalo. E, ainda menos, notícias de franchises de ONGs estrangeiras criticando decisões do Senado ou do governo dos países sérios.

The New York Time, The Washington Post, Le Monde, The Guardian e The Independent (estes dois últimos que usualmente têm a melhor cobertura do assunto) nada falam sobre esse “Dia da Árvore” travestido de disputas sobre o imaginário.

Aqui, inaugurações e quermesses. Fernando Gabeira, com o seu usual otimismo, afirma ter esperanças de que em Copenhaguem, no final do ano se chegue a um acordo internacional sobre as mudanças climáticas – o que é um tanto irrelevante pois a União Européia já tem a sua decisão interna favorável e obrigatória para os seus membros, enquanto os EUA de Barack Obama negociam febrilmente com a China um acordo bilateral sobre o mesmo tema.

O The Independent continua publicando interessantes reportagens sobre a continuidade do excesso de captura de espécies marinhas de grande valor comercial. E, o mais interessante, é a sequência de fotos sobre o rápido recuo das neves dos Himalaias publicada pelo The Guardian e que pode ser vista em www.guardian.co.uk/environment/gallery/2009/may/29/himalayas-glaciers-everest-changing-landscapes?picture=348304432.

Fora isso, espera-se que o presidente Lula siga firme em seu propósito de devolver a Amazônia aos brasileiros que lá habitam, depois de sua corajosa decisão de facilitar o processo através de Medida Provisória.

No futuro próximo, se o governo brasileiro quiser enfrentar as questões relacionadas às inevitáveis mudanças no antiquado e ilusório Código Florestal, recomenda-se que sejam ouvidos os melhores profissionais do país, cientistas, que estão na EMBRAPA e em alguns poucos sobreviventes órgãos estaduais de pesquisa agronômica, como o IAPAR, do Paraná. Eles, sim, entendem de florestas e de conservação de solos e contenção de processos erosivos, recursos hídricos superficiais e subterrâneos, e muito mais. O resto é ideologia e blá-blá-blá eleitoreiro.

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Uma referência explícita ao Dia Mundial do Meio Ambiente no The Guardian limita-se a uma série de fotos sobre como os países pobres NÃO RESOLVERAM os problemas mais elementares de saneamento básico pode ser vista em www.guardian.co.uk/environment/gallery/2009/jun/05/waste-world-environment-day?picture=348339024.  Nada muito diferente do que se vê às margens dos rios em grande número de cidades da Amazônia, entre outros locais do país.

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Por um momento, talvez Marina Silva possa deixar de lado a sua usual vocação para vítima e parar de exercer o seu legítimo jus esperneandi no genérico, como faz ao vociferar contra a legalização de áreas de poss de pessoas jurídicas na Amazônia.  Para tanto, basta lembrar que as associações e cooperativas de extrativistas também são pessoas jurídicas.

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Ah, nesta semana, em compras acima de R$ 150,00 em cosméticos de marcas mais caras, , ganha-se uma “bolsa-ecológica” – ou “ecobag”- para compras.  Esse é o resultado da vulgarização do tema, que nos países sérios encontra-se nas mãos de cientistas.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Dia Mundial do Meio Ambiente e o Oba-Oba Brasileiro”

  1. Veja o acompanhamento processual no STF sobre a ADIN do PV contra o código catarinense…

    Data Andamento Órgão Julgador Observação Documento
    04/06/2009 Não conhecido(s) MIN. CELSO DE MELLO “Trata-se de ação direta de inconstitucionalidade, que, ajuizada pelo Partido Verde, insurge-se contra regras legais inscritas na Lei catarinense nº 14.675/2009 (“Código Estadual do Meio Ambiente”). Ante a ausência, nos autos, do pertinente instrumento de mandato judicial, assinei, ao autor da presente ação direta, o prazo de dez (10) dias, para que regularizasse a sua representação processual nesta causa.(…)Não obstante todas essas considerações, o Partido Verde, ainda assim, deixou de atender a determinação constante do despacho de fls. 193/194, embora regularmente intimado para proceder a tal regularização (fls. 200).(…) Sendo assim, em face dos precedentes referidos e considerando que o Partido Verde deixou de proceder, de modo integral, à regularização que lhe foi expressamente determinada (fls. 193/194), não conheço da presente ação direta, restando prejudicada, em conseqüência, a apreciação da medida cautelar requerida. Arquivem-se os presentes autos. Publique-se.”

  2. Luiz,
    você está corretíssimo em tudo que expõe …
    Apenas não sei se existe o ‘propósito firme’, por parte do Lula, de devolver a Amazônia aos brasileiros … Penso que ele está somente dando continuidade ao plano neo-liberal do FHC … E de forma bem eficiente ….

    Roséli

    Resposta do autor do texto:

    Sem dúvida o projeto neo-liberal se manteve, se acentuou nos benefícios aos bancos e ao capital, se deteriorou moralmente.
    Mas no caso específico da Amazônia, em muitas ocasiões, nos últimos 20 anos, viajei milheres de quilômetros em estradas de terra em diversas viagens por la’, e de barco, também, e o que vi foi o óbvio: amazônidas e imigrantes pobres, nordestinos, ou de classe média, cearenses. Eles não reconhecem a expressão utilizada pelas ONGs vadias – “povos da floresta”. E são cerca de 5 milhões vivendo ali de alguma agricultura de subsistência, além da pesca e coleta. São brasileiros e merecem ter o sentimento de que naquela terra poderão ficar sem serem expulsos pelo mais forte.

    Se é verdade que todos nós temos o nosso momento de burrice, pode ser verdade também que até o Lula tenha tido, agora, o seu momento de lucidez. Ambos chafurdam na vaidade, mas o FHC se rendeu mais às opiniões midíaticas estrangeiras.

O que você pensa a respeito?