A Festa da Menina Morta – A Psicose Amazônica e Nacional

A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele, eleva a filmografia brasileira ao nível dos grandes clássicos mundiais como Akira Kurosawa, Federico Fellini (em Amarcord) e Ingmar Bergman.  Nessa obra imperdível, Nachtergale coloca na tela, magistralmente, a vida de um vilarejo ribeirinho na Amazônia, e joga na cara e na alma do espectador uma “psicose amazônica” que também está presente nos sertões nordestinos, no Congresso Nacional e no Planalto em geral: a psicose de verdades passageiras, criadas de uma hora para a outra, sem fundamentos, como uma “nau dos insensatos” da Idade Média, quando um vilarejo colocava os seus loucos em barcos e os “despachavam” rio abaixo para serem eventualmente recolhidos à jusante, como descreve Michel Foucault.  Entre muitas coisas, o filme impõe uma reflexão sobre a identidade de uma região e de um povo.

Alberto Torres foi um brilhante pensador brasileiro (1865-1917) que teceu reflexões sobre a identidade nacional, entre outros assuntos.  Bruno Tolentino (1940-2007) foi genial poeta brasileiro que retorna à sua terra depois de quase uma vida no exterior, publica pouco depois de seu retorno Os Deuses de Hoje, livro de poemas em que destila ironias sobre o Brasil.  O livro principia com uma citação de Alberto Torres.  Abaixo, a transcrição do início do poema intitulado Torres e Deuses, onde Bruno cita Alberto Torres.

Um Interlúdio
Torres e Deuses

“Este estado não é uma nacionalidade;
Este país não é uma sociedade;
Esta gente não é um povo.
Nossos homens não são cidadãos.”

ALBERTO TORRES

AlbertoTorres
há muitos anos
disse de nós
que não formamos
uma união
ainda não;
que, como os símios
que trocam os ramos
pelos cipós,
nos enredamos
com o ilusório
e confundimos
o bem e o mal;
que porque temos
um território
nos persuadimos
de que há um país
neste local.

Que nesses termos
nunca faremos
uma nação
de um matagal,
pois se não dermos
comida, teto,
lugar, raiz
e dignidade
ao cidadão,
ao branco e ao negro,
nosso projeto,
nossa retórica
nacional,
não passarão
de uma inverdade,
de uma ilusão
escrita a giz
no quadro-negro

***

Neste domingo, 14 de junho, O Globo publicou uma página inteira de informações um tanto desconexas sobre o crime e o castigo na Amazônia.  Perdida na reportagem, a informação de que 42% da Amazônia são áreas protegidas, metade por terras indígenas e outra metada por unidades de conservação.  Noo período 2000 – 2008, 22 mil quilômetros quadrados foram desmatados nessas áreas protegidas.  Esse é o poder público que acusa outros atores sociais e econômicos de desrespeito às leis ambientais!  O Planalto parece, assim, uma Nau dos Insensatos, em sua psicótica Festa da Menina Morta, que arrebata adeptos e fiéis que não têm a mais vaga idéia de por que estão ali.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários sobre “A Festa da Menina Morta – A Psicose Amazônica e Nacional”

  1. “… que arrebata adeptos e fiéis que não têm a mais vaga idéia de por que estão ali”.
    E quando o sabem, pouco dizem, pouco fazem!
    O que fazer, caro autor?
    Há que se munir os amazônidas, os ribeirinhos de informação, de conhecimento, de ciência sobre o que se pode ou não fazer. Nós, “povo da floresta”, conhecemos a terra, sabemos como tirar proveito de suas substâncias, mas não sabemos como cuidar, como proteger, como guardar! Culpa dessa nossa concepção de que nada vai acabar, desse nosso “deitar em berço explêndido”, desse nosso marasmo em ver o branco lotear a terra “beneficiando” o indígena acentando-o no “seu lugar” (…)!

    E projetos que visam a inclusão da disciplina “Amazônia” nos currículos escolares são arquivados, banalizados, pouco divulgados.

    O que fazer então?

  2. Brilhante!
    E continua a falácia do governo, ONGs e ambientalistas midiáticos oportunistas, “vendendo” a quimera do desenvolvimento sustentável nesse maluco modelo de crescimento econômico.

  3. Quanto ao poder publico, suas pseudo-politicas ambientais e sociais com o “tom” amarelado da democracia, sá mesmo a lamentar… ou quem sabe “participar criticamente” (talvez possivel esta tautologia) por meio das correntezas de e-mails repassados com piadinhas sobre o governo…estamos mesmo na “nau” e pensando ser governado pelo “cara”, e até mesmo FELIZES com isso.
    Excelente artigo!

  4. Eu compus a música tema do filme que é “Vestidinho rasgado” Adorei seus comentários!! O filme é uma viagem assim como Matheus Nachtergaele atuando de diretor!!!

O que você pensa a respeito?