Desenvolvimento Não-Sustentável e Mudança de Paradigmas

Num de seus excelentes artigos para o Estado de São Paulo, Washington Novaes narra como economistas que ganharam o Nobel de economia estão se debatendo para tentar rever os critérios econômicos para rever os critérios utilizados na avaliação do tal do desenvolvimento.

A iniciativa foi do presidente da França, país que tradicionalmente valoriza bens culturais e horas de lazer, ainda quando esses não sejam integrados aos cálculos um tanto limitados das ciências econômicas.  Calcular a depreciação – ou a depleção – dos recursos ambientais não é novidade nos países muito avançados.  A novidade é a tentativa de valorizar a qualidade dos recursos humanos – que podem representar 80% do valor do Produto Interno Bruto de uma nação – e outras atividades não contabilizadas, como o lazer e outros serviços – como cuidar de crianças.  Em resumo, a qualidade de vida não se mede apenas – e nem principalmente – pelas estatísticas econômicas e financeiras.  Simples assim!

De fato, como aplicar as bobagens do FMI e do Banco Mundial sobre a necessidade de integrar à sociedade de consumo amplos segmentos da população que vive com “menos de US$ 1 por dia” quando falamos, por exemplo, da população rural – ou não-urbana – da Amazônia que se alimenta muito melhor que a classe média norte-americana simplesmente pescando e coletando produtos da floresta?  O que está em jogo é o próprio conceito de riqueza e de desenvolvimento.  Afinal, não se gasta nada – ou não há geração de riqueza – quando se joga vôlei e futebol nas praias, ou passeando na Floresta da Tijuca e no Aterro do Flamengo.

A economia não é a ciência social adequada para resolver esse tipo de questionamento.  Nenhum desses economistas se atreverá a propor uma vida mais simples, com menos consumo, ainda que o imensos desperdícios materiais e morais do “desenvolvimento” já estivessem descritos por um dos melhores entre eles – John Kenneth Galbraith – em 1958, em seu livro A Sociedade de Afluência, escrito sem o uso do ”ecomomês” e questionando o uso da produção como única medida de avaliação da prosperidade de uma nação.

Depois, em 1971, com a publicação de sua obra definitiva – A Lei da Entropia e os Processos Econômicos –  Nicholas Georgescu-Roegen demoliu a idéia de um crescimento econômico infinito da produção de bens materiais.  Nela encontram-se justificativas suficientes para fechar instituições como o Banco Mundial que servem para “enxugar gelo”.  Enxugar gelo, aliás, é o que esses economistas laureados estão fazendo por encomenda de Sarkozy.  O proposta poderia se chamar, também, de “como enganar as pessoas sem perder a pose”.

O que está em questão, hoje, é a própria sobrevivência da sociedade de consumo.  Só mesmo na cabeça de gente como o presidente da Companhia Vale do Rio Doce é que “o investimento é sagrado” – esse é o título de um artigo de Roger Agnelli na Folha de São Paulo no qual fica evidente que essa gente não tem a mais vaga idéia do que significa o conceito de “sagrado” e nem mesmo de “gerações futuras”.

O crescimento econômico entendido como o contínuo crescimento da produção de mais é uma mesmice não sustentável e, por exemplo, a produção de veículos híbridos pode reduzir as emissões de gases causadores de mudanças climáticas nos países detentores dessa tecnologia e capazes de pagar por ela, mas não reduzirá a demanda por aço e outros materiais resultantes da simples mineração de recursos naturais.

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Vale ressaltar que esses economistas laureados ainda desconsideram a dimensão populacional e o abandono dos programas de controle da natalidade, essenciais para que se evite ou adie um colapso do atual e de qualquer outro “modelo econômico”.

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A imprensa de São Paulo há muito superou a do Rio de Janeiro no dinamismo e na capacidade de análise crítica. O artigo de Washington Novaes pode ser lido em  http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090724/not_imp407539,0.php.  Nele, há uma referência ao fato de que se as remessas de capital para o exterior fossem contabilizadas de maneira apropriada, o PIB de Irlanda se reduziria em cerca de 10%.

 No caso do Brasil, então, reduziriam de maneira drástica a classificação da economia brasileira e a tão festejada capacidade de atrair capitais externos não resultaria nas mesmas celebrações atuais.  Comprar vagões de trem e de metrô na China – como fez, recentemente, o governo do Rio de Janeiro –  tampouco seria algo encarado com naturalidade pela imprensa, ainda mais se considerarmos que os vagões de um dos sistemas de metrô mais modernos do mundo – o de Washington, capital dos EUA – foram, no passado, fabricados no Brasil.

Transferem minério de ferro e empregos do Brasil para a China, orgulham-se disso, e a imprensa nem nota, tal o grau de deterioração moral e intelectual atingido pelo Brasil.  Assim, conseguem desvalorizar e anarquizar os recursos humanos brasileiros em nome da suruba global.

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É risível a decisão do governo federal de denunciar a Inglaterra perante a Conveção da Basiléia por conta de alguns conteineres de lixo.  Em particular quando a Inglaterra tem leis que proibem a exportação de lixo e foi muito mais rápida que o Brasil no que se refere à prisão dos responsáveis.  É desprezível a atitude das autoridades brasileiras que tentam, com isso, ganhar uns votinhos e dar a impressão de rigor.  Em particular num país que não tem aterros sanitários na quase totalidade dos municípios.

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