Desmatamento na Amazônia, Mudanças Climáticas e Verdades Convenientes

Os dados sobre a emissão de gases causadores de mudanças climáticas decorrentes do desmatamento da Amazônia são “chutados”.  A declaração foi feita no último dia da reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, há dias, em Manaus, por nada menos que um diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, Gilberto Câmara.

Por que a imprensa não repercutiu a declaração com a merecida amplitude, apesar das qualificações de seu autor?  Porque é mais fácil ficar com verdades que são consenso no imaginário coletivo?   Essa declaração cria, também, um imenso divisor de águas dentro do governo, que tampouco deu sinais de vida, com alguns setores optando pela usual omissão e outros pela manutenção da monocultura do debate político que tem mais espaço na imprensa e é mais facilmente “digerido” pelo eleitorado.  Afinal, a falação sobre o combate ao desmatamento da Amazônia é uma verdade – mas uma verdade conveniente, confortável, que oculta muitas outras como a poluição hídrica, a quase total inexistência de aterros sanitários, a anemia das políticas de eficiência energética e muito mais.

Com poucas palavras, Gilberto Câmara demoliu a tese de que o desmatamento na Amazônia é responsável por 20% das emissões de carbono no planeta.  E de maneira simples: se na década de 90 o desmatamento médio anual foi de 22 mil quilômetros quadras e isso representava cerca de 8% das emissões planetárias de CO2, com uma média anual de 12 mil quilômetros quadrados o desmatamento atual da Amazônia não pode representar mais do que 5% das emissões globais.  “Logo, o G8 deve estar equivocado e baseou-se em dados fracos”.

Com um pragmatismo ao mesmo tempo simples e contundente, Gilberto Câmara foi além, e afirmou que “a conta de 20% das emissões de CO2 pode não ter base científica”, mas ser um número que mascara tendências políticas.  “Quanto mais países como o Brasil responderem pelos prejuízos ambientais globais, menos os países do G8 serão responsáveis.”

O que ele não disse foi que números exagerados podem interessar, também, aos políticos do lado de cá que tentando fazer os demais acreditarem que o Brasil pode ficar rico – ou diminui em muito as suas disparidades sociais – se conseguir vender créditos de carbono decorrentes da redução do desmatamento ou até o chamado “carbono virtual” existente na floresta que não foi desmatada.

Ao contrário, Gilberto Câmara alerta para o fato de que esse feitiço pode se voltar contra o feiticeiro, já que em decorrência dele o Brasil pode ser instado a assegurar níveis de redução das emissões muito maiores, com benefícios para os países mais ricos.

E, num golpe de misericórdia, Gilberto Câmara concluiu: e não há garantias de que ao receber dinheiro para não desmatar o desmatamento realmente diminua: “se um assentado recebe uma quantia para não desmatar em determinada região, por exemplo, ele pode simplesmente embolsar o dinheiro e ir desmatar em outra”.

Hora de refazer o dever de casa e de mudar o rumo das estratégias políticas!

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Roberto Goodland, em Washington DC, perguntam-me por que Gilberto Câmara não disse isso antes, há muito mais tempo.  Fica a pergunta para ele e para o próprio INPE.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?