Miliband – Go Home! E Faça o seu Dever de Casa

O ministro da Energia e das Mudanças Climáticas da Inglaterra – um dos países que descumpriu totalmente o Protocolo de Kyoto e as metas européias de redução de emissão de carbono – encontra-se no Brasil dando palpites sobre a floresta amazônica.  A intromissão nos assuntos internos brasileiros é parte do usual showzinho britânico para o eleitorado interno e para encobrir os desmandos de seu país em relação às próprias responsabilidades na área das mudanças climáticas.

Miliband, que nunca apresentou um programa sério de mudanças na matriz energética inglesa em direção às energias limpas e finge desconhecer a importância da redução das emissões decorrentes da aviação e do transporte marítimo internacional, aproveita a visita para jogar uma cortininha de fumaça que ajude a esconder o próprio rabo.  Essa atitude é característica do usual cinismo britânico, invasivo e colonialista.

O ministro inglês, tão criticado em sua própria terra por parte das organizações ambientalistas, visitou, ontem, grupos indígenas no Xingu que, animados, tirararam fotos com as suas câmeras digitais.  Conta a imprensa inglesa que ontem Miliband reuniu-se com 5.000 indígenas de 14 diferentes grupos étnicos que vieram de longas distâncias para “discutir os perigos das mudanças climáticas e do desmatamento”.  Certamente com o apoio de algumas dessas ONGs pagas pelo próprio governo inglês e o cordial assentimento da FUNAI.  Na hora das fotos oficiais, cada lado estava devidamente vestido com suas melhores  fatiotas, um teatrinho armado para consumo da imprensa britânica.

Ninguém imagina ministros brasileiros visitando a Inglaterra e se reunindo com os manifestantes que recentemente protestaram pelo licenciamento ambiental de uma nova térmica que utilizará carvão ou de mais uma pista para o aeroporto de Heathrow, o maior do mundo em termos de trâfego internacional de passageiros.  Ou para questionar o papel da Inglaterra na invasão do Iraque em busca de mais um naco de petróleo.

Miliband insiste na tese agora contestada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE de que o desmatamento na Amazônia representa o equivalente a 17% das emissões globais de carbono.  Mas o governo brasileiro insiste em não ouvir o INPE para não perder as esperanças de ganhar uma graninha extra para proteger a Amazônia.

Nos encontros oficiais, Miliband não falará, evidentemente, na transferência gratuita de tecnologia na área de energias renováveis – eólica, por exemplo.  Interesses globais da humanidade, mas nada de tocar no bolso das empresas deles, altamente subsidiadas na área de pesquisa e desenvolvimento – subsídios nunca questionados na Organização Mundial do Comércio – OMC.

A chamada “ofensiva diplomática” de Miliband no Brasil ainda continuará por alguns dias e provavelmente terminará com o usual showzinho em Brasília.  Uma ótima oportunidade para as autoridades e a imprensa perguntarem a Miliband como o seu país encara a inclusão do transporte internacional marítimo e aéreo no cômputo das emissões globais de carbono e a mudança das regras de cálculo das responsabilidades globais com base na “pegada carbônica” do consumo final de produtos (assim, as emissões de um carro vendido na Inglaterra e fabricado com ferro ou aço brasileiro seriam em parte computadas nas emissões inglesas, e não nas brasileiras).  Ou quem sabe Miliband lidera uma “ofensiva diplomática” para que os EUA ratifique a Convenção sobre a Biodiversidade e para que ela seja efetivamente aplicada.

Miliband certamente não será levado a visitar nenhuma das centenas de cidades da Amazônia, cheias de favelas e com pouco ou sem qualquer tipo de saneamento, da qual a foto abaixo dá apenas uma vaga idéia.

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Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?