A Campanha 10:10 e as Mudanças de Foco nos Acordos Sobre Mudanças Climáticas

A campanha 10:10 lançada na Inglaterra sem a participação do governo propõe que cada cidadão corte 10% de suas emissões de carbono até 2010.  É pouco, mas é muito bom.  Em particular se não for apenas mais uma badalação do tipo eco-bags, eco-barreiras, eco-limites nas favelas e outras bobagens sem fim.

Será muito bom se a campanha não se tornar em apenas mais mais um slogan desses que tanto agradam aos políticos, mas sim a formulação de um conjunto de propostas compreensíveis e factíveis que  incluam a livre opção pelo uso de energias renováveis – a liberdade total de consumidor pagar mais e, assim, incentivar as novas fontes de energia – e o aumento da eficiência energética.

Será melhor ainda se os consumidores entenderem que deverão considerar a “pegada carbônica’ dos produtos que consomem e não apenas as emissões ocorridas a partir do momento em que adquirirem o produto.

Assim, por exemplo, um carro de mais baixa emissão por quilômetro rodado continua sendo um carro, com um montão de aço, ferro, plásticos e, se carros híbridos, uma importante quantidade de metais raros nas baterias.  Não importa de onde venham esses materiais – do Brasil? – e as emissões de carbono resultantes de sua produção devem ser contabilizadas no país onde o carro é finalmente consumido.

Afinal, são os padrões de consumo que estão em jogo e não apenas os padrões de produção!

Esse é balanço mais justo.  Mudar totalmente o foco dos debates sobre as responsabilidades pelas emissões de gases causadores de mudanças climáticas é uma oportunidade que o Brasil está perdendo quando – até pela usual monocultura mental – agarra-se tediosamente à questão do desmatamento na Amazônia enquanto celebra um “pré-sal” cuja viabilidade tecnológica e econômica ainda não está nem vagamente definida.

A campanha 10:10 também evidencia a bobagem dos economistas que só conseguem falar no crescimento econômico – mais do mesmo! – como única solução para todos os males do mundo.  A campanha 10:10, se bem conduzida, implicará, necessariamente, em redução do consumo, e não em seu aumento.

Definitivamente, a qualidade de vida está ligada à educação, à saúde, à habitação, mas não necessariamente ao consumo de todo esse lixo industrial que nos é diariamente imposto pelo lançamento de novos bens de consumo totalmente inúteis.

Para os que gostam da campanha 10:10, vale fazer uma lista dessas asneiras diariamente consumidas, a começar por águas em mínimas garrafas de plástico, que são um bom exemplo da contra-mão das lutas pela redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?