Fernando Gabeira – Mais Uma Demonstração de Sabedoria e Maturidade Política

Fernando Gabeira deu um grande passo em direção à defesa consensual e socialmente aceitável do meio ambiente ao aceitar o convite da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária – CNA para debater mudanças no Código Florestal.  E um passo ainda maior ao declarar, diante de uma platéia atônita, que “aceitamos a ciência para mediar, porque fixar 80% como reserva legal na Amazônia é metafísica”.

É realmente preciso ter coragem para reconhecer que contra os fatos, as opiniões são inúteis.  Há cerca de 1 milhão de famílias vivendo na floresta amazônica – ou fora das áreas urbanas – e elas não podem ser extintas pela mera sonegação de informações ou desejo de não tomar conhecimento delas.

Há pouco tempo, depois de uma apresentação sobre mudanças climáticas para executivos de uma grande empresa, um dos mais notáveis jornalistas e estudiosos dos problemas ambientais no Brasil e no mundo, Washington Novaes, foi questionado: “- O senhor não está sendo pessimista?”.  E respondeu com a sua usual tranquilidade, paciência e sabedoria: “Eu estar sendo pessimista ou otimista é irrelevante, porque isso em nada altera os fatos”.

O ex-secretário geral do ministério do Meio Ambiente na gestão Marina Silva, João Paulo Capobianco, também falou no mesmo seminário e defendeu “um amplo consenso sobre o tema”, afirmando que “os ambientalistas sabem que é preciso um acordo; ninguém quer acabar com a agricultura”.

Nada como deixar o poder brasiliense que é pautado pela arrogância para “cair na real”.  Se os nossos prefeitos e governadores andassem de transporte público uma vez por mês, acreditariam menos nos releases de imprensa preparados por suas próprias assessorias.

Em sua exposição no I Seminário CNA Discute o Brasil, que foi aberto com o tema Meio Ambiente e Produção de Alimentos, a senadora Kátia Abreu lembrou que “o assunto é importante indistintamente para toda a sociedade”.

“Não se pode esquecer que o Brasil substituiu cobertura original por arroz, feijão, soja, PIB, emprego e balança comercial. o Brasil tem, atualmente, 56% de ”.  A senadora destacou que o Brasil registra atualmente 56% de cobertura vegetal original, enquanto na Europa essa preservação é de 0,1% da área original. Queremos construir um consenso, mas de acordo com a ciência, com a pesquisa”.

De fato, os agrônomos, geólogos, geógrafos e outros não têm sido ouvidos na elaboração de regulamentos ambientais, que terminam nas mãos de biólogos e botânicos, que não são menos importantes, mas que não podem ser os únicos a decidir o que, depois, as instâncias decisórias do Executivo e o Legislativo aprovarão por desconhecerem o que ali está escrito e por não haver qualquer avaliação do impacto sobre a sociedade.  E falar em “desenvolvimento sustentável” sem gente dentro é bobagem pura e simples.

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O estranho foi a imprensa – exceto o Valor Econômico – não ter divulgado a notícia.  Será que isso aconteceu apenas por estarem querendo tirar Fernando Gabeira do páreo para governador ou senador pelo estado do Rio de Janeiro?

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

5 comentários sobre “Fernando Gabeira – Mais Uma Demonstração de Sabedoria e Maturidade Política”

  1. REF. A POSIÇÃO DA SENADORA KÁTIA ABREU:
    ela já demonstrou pra o que veio, e qual sua intenção, (e investida em defesa da MP 458/2008.)
    COMPARAR A COBERTURA VEGETAL E NOSSAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO NATURAL COM A EUROPA ?
    santa paciência !
    A SENADORA DEVERIA UTILIZAR ARGUMENTOS MAIS “INTELIGENTE” NINGUÉM NASCEU ONTEM !

    ESSA “BALELA” DE GERAÇÃO DE EMPREGO,ALIMENTO, … ?
    AQUI NO SUL COM A MONOCULTURA DO EUCALIPTO,CELULOSE,… “NÃO COLOU”, ESTÁ COMPROVADO ENTRE O RIO GRANDE DO SUL E URUGUAI UMA VERDADEIRA DESGRAÇA PARA AS FAMILIAS QUE MORAM NA ÁREA RURAL, A MIGRAÇÃO PARA AS CIDADES, A REDUÇÃO DOS RECURSOS HIDRÍCOS, FAUNA, MISÉRIA, MARGINALIZAÇÃO DA JUVENTUDE POBRE, A DESCARATERIZAÇÃO DRÁSTICA DA CULTURA PAMPEANA, O DERESPEITO TOTAL COM NOSSO BIOMA PAMPA,ETC.

    Eduino de Mattos
    porto alegre rs brasil.

  2. Concordo plenamente que as monoculturas extensivas geram desemprego e muitos danos ambientais. Já vi isso no Espírito Santo, com a Aracruz Celulose. E geram, também, deficits regionais de alimentos básicos para a população. Além disso, há outros prejuízos – econômicos, para a nação -, já que a exportação desses produtos resultantes da monocultura – a “mineração dos solos” – está controlada por 2 ou 3 multinacionais.

    Mas, nesse caso, caberia ao poder público desenvolver uma política de segurança alimentar. A Inglaterra e a Alemanha já limitaram as áreas de produção agrícola destinadss aos biocombustíveis, e não por razões ambientais, mas por razões de segurança alimentar. E o Brasil continua sem uma política de segurança alimentar neste sentido.

    Mas também há, no Rio Grande do Sul, extensas áreas de pequenos e médios agricultores voltadas para a produção de alimentos de consumo regional e nacional, sob plantio direto e com rotação de culturas. Não creio que a senadora Katia Abreu – que não conheço e não é senadora pelo meu estado, o Rio de Janeiro – tenha em mente apenas os grandes produtores dessas monoculturas, já que a sua eleição depende da moeda usual dos políticos, isto é, votos. Mas nada é impossível.

    Seja como for, não tenho qualquer sombra de dúvida sobre a sinceridade do deputado Fernando Gabeira no que se refere á proteção ambiental.

    Novamente, vale consultar a página da Federação Brasileira para o Plantio Direto na Palha, para se ter uma idéia do excelente trabalho feito por grande número de produtores e de agrônomos de excelente formação.

    Finalmente, não vejo razões para NÃO COMPARAR a área coberta por florestas nativas nos diversos países. Afinal, se os países muito desenvolvidos querem proteger a biodiversidade e combater as mudanças climáticas com a proteção de florestas aqui, e se o Brasil quer uma negociação inteligente no próximo encontro sobre mudanças climáticas, deve levar isso em conta. Afinal, os EUA, por exemplo, continuam devastando as suas florestas nacionais em ritmo acelerado.

  3. Enquanto essa discussão (Produção de Alimentos x Meio Ambiente) tiver extrema proximidade com “maniqueísmos” ou “ideologizações”, dificilmente encontraremos um rumo sério e linear em busca das soluções… Se ninguém cede, tudo se perde e a alineação sobre a razão prevalece…

    Esperamos que um dia possamos ver essa discussão em um nível bem melhor para que os resultados possam aparecer…

    Parabéns pelo blog!

    Márcio A. Bezerra
    Eng. de Pesca – Fortaleza-CE

  4. Concordo inteiramente. Os “ambientalistas”, por desconhecimento ou politicagem – dependendo de suas origens – inventaram o “ruralista mal”, que é uma simplificação de bons resultados para os otários. Evidentemente, essa figura de “ruralista” não existe. Há de tudo, desde monoculturas extensivas que são propriedades de corporações nacionais ou estrangeira (dá na mesma), direta ou indiretamente, e estão pouco se lixando para meio ambiente até mesmo no sentido dos recursos hídricos, mas há, também, grandes agricultores que começaram nos anos 70 e 80 a fazer o desmatamento “raso”, passando por cima até mesmo de nascentes, e que já mudaram totalmente de posição. Sugiro dar uma passada de olhos em http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,irmaos-gauchos-encarnam-dilema-entre-producao-e-conservacao,441504,0.htm. E há o pessoal do plantio direto, já na liderança internacional da preservação dos recursos naturais e da biodiversidade, agora já mergulhados no imenso potencial de retenção de carbono decorrente dessa prática agrícola, potencial ainda desconsiderado pelo MMA (e talvez pelo MCT), mesmo que esses créditos de carbono já estejam sendo transacionados na Bolsa de Chicago.

    Já a reserva legal, muito sinceramente, foram os líderes políticos “ambientalistas” que ajudaram a explodi-la, na prática, quando aceitaram a reserva “consorciada”. Ela teve, originalmente, a função de assegurar a produção de madeira mesmo, depois, num passe de mágica, falou-se no “fluxo gênico”, mas quando se autorizou que a reserva fosse feita em outro lugar – no Rio de Janeiro o lobby para a aprovação da lei foi feito pelos grandes de papel e celulose -, aí a história do fluxo gênico foi para o beleléu.

    O conflito entre produção de alimentos e proteção da biodiversidade, no entanto, tende a aumentar, com a população e com as mudanças climáticas, mas essa é outra história, já que essas mudanças vão alterar os ecossistemas com ou sema produção de alimentos. O INPE e a EMBRAPA já vêm alertando o “governo” (entre aspas mesmo) que continua acreditando no simplismo eleitoreiro do “ruralista” X “ambientalista”.

  5. Parabéns pelo blog.
    Apaixonei-me por esse local (Arraial) e tenho varias idéias. Vão das fazendas criatórias de Artemias Salkinas ao porto espoecializado em conteires e pesca de alto mar (ômega 3).Tudo isso passa pela desfazelização,tratamento de esgotos, infra estrutura em geral, etc…
    Volto depois com as idéias!
    Abraços!
    lfd

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