Monthly Archive for novembro, 2009

Mudanças Climáticas – Os Produtores Rurais na Liderança da Fixação de Carbono

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O teatrinho no qual os “ambientalistas bons” combatem os “ruralistas maus” é coisa para enganar eleitores otários.  Na vida real, as coisas não são tão simples quanto num vídeo game, e há um grande número de produtores rurais de todos os portes, de agrônomos e de cientistas das mais diversas especialidades, bem como de dirigentes de órgãos estaduais e municipais de meio ambiente que afirmam a necessidade de mudanças profundas no Código Florestal sem que com isso se oponham a políticas sérias, rigorosas e consistentes (isto é, aplicáveis) de proteção dos recursos ambientais.

O curioso é que em meio a todo esse tiroteio, nem os agrônomos e engenheiros florestais mais renomados e tampouco os dirigentes de órgãos ambientais são sequer consultados.  E todos ou a esmagadora maioria dentre eles sabem que há necessidade de mudanças profundas no Código Florestal.

Evidentemente, eles – como os físicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE – que no Brasil lideram as pesquisas sobre mudanças climáticas são considerados “ambientalistas”.

Recentemente, três dos mais renomados cientistas brasileiros da área de conservação dos solos e, por tabela, dos recursos hídricos, afirmaram, em conjunto, que a tecnologia de produção rural conhecida no Brasil como Sistema de Plantio Direto na Palha pode compensar a totalidade das emissões de gases causadores de efeito estufa do setor rural brasileiro.  O Ministério do Meio Ambiente, que pretende ter a palavra final nas questões de redução das emissões desses gases, prestou atenção?

A seguir, a transcrição da Carta de Foz do Iguaçu.

A agricultura tem sido a principal fonte de alimentos e a geradora de uma enorme cadeia de negócios que movimenta quase ⅓ do PIB brasileiro.  Nas últimas três décadas a evolução da produção agrícola teve como um dos pilares a adoção e a manutenção do Sistema Plantio Direto na Palha (SPDP). Esse sistema de manejo do solo ocupa cerca de 26 milhões de hectares do território brasileiro e representa 52% das áreas cultivadas.

O SPDP promove inúmeros benefícios, entre eles destacam-se o controle da erosão, a redução dos custos para o produtor, o aumento da produção e da sua estabilidade em anos secos. Do ponto de vista ambiental o SPDP integra o desenvolvimento de novas tecnologias com a minimização do impacto ambiental devido à redução das emissões de gases do efeito estufa e da maior fixação do carbono no solo.

Na primeira Comunicação Nacional sobre emissão de gases do efeito estufa referente ao período de 1975-1995, as emissões de CO2 pelas atividades agrícolas foram responsáveis pelas taxas anuais líquidas de 46,4 Mt CO2 o que equivale a 12,65 Mt C. Os resultados de pesquisa comprovam que a adoção do plantio direto associado à rotação de culturas para manter o solo coberto com resíduos culturais podem compensar todas as emissões geradas pelo setor agrícola no Brasil.

Mesmo conhecendo o benefício que o SPDP promove ao meio ambiente, ainda não é reconhecido como atividade para requerer créditos de carbono no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo estabelecido no Protocolo de Quioto. Dessa forma, é preciso ações políticas imediatas para fazer com que essa redução na emissão de gases, e o seqüestro de carbono pelo solo devido ao sistema plantio direto, sejam reconhecidos como atividades elegíveis para o período pós-Quioto, que será amplamente discutido em dezembro de 2009 durante a 15º Conferência das Partes a ser realizada na Cidade de Copenhagen, Dinamarca. 
 
Foz do Iguaçu, 11 de Setembro de 2009

Prof. Dr. Carlos Eduardo P. Cerri – Universidade de São Paulo, SP
Prof. Dr. João Carlos de Moraes Sá – Universidade Estadual de Ponta Grossa, PR
Prof. Dr. Telmo Jorge Carneiro Amado – Universidade Federal de Santa Maria, RS

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Para não se estender em demasia, os autores não mencionaram que (a) os créditos de carbono decorrentes da utilização dessa técnica de manejo dos solos já são transacionados na Bolsa de Chicago, no mercado voluntário, e (b) cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas já têm recomendado a inclusão do plantio direto no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, com a correspondente qualificação das áreas rurais sob plantio direto para o recebimento de créditos de carbono.

***

Para quem se interessa por redução das emissões de carbono que não seja através do mero reflorestamento e no samba de uma nota só da redução do desmatamento na Amazônia, vale passar os olhos na nova publicação da Agência Internacional de Energia sobre transferência de tecnologia no campo da geração eólica – em inglês – no link a seguir:

http://www.iea.org/Papers/2009/Wind_Roadmap.pdf

Copenhaguem, Mudanças Climáticas e a Mitologia do Valor Econômico das Florestas Amazônicas

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Entre os mitos amazônicos, o mais atual refere-se ao imenso potencial de atrair recursos dos países altamente industrializados para a proteção das florestas de maneira a conter as emissões de dióxido de carbono.  Toda a luta da jogatina política, bem como as esperanças dos ambientalistas fascinados pela Amazônia que não conhecem está no reconhecimento do valor da preservação das florestas pré-existentes ao encontro de Copenhaguem – já que essas florestas não foram incluídas como potenciais receptores de créditos de carbono no Protocolo de Kyoto.

Essa farsa não sustenta diante da mais superficial avaliação da distribuição de florestas no mundo e da posição relativa do Brasil entre os países.  Caso os “ricos” forem pagar por florestas e a densidade per capita de florestas na totalidade dos países ou mesmo entre os países pobres – e até muito mais pobres do que o Brasil, já que se pretende aliar desenvolvimento às metas de redução de gases causadores de mudanças climáticas -, as vantagens comparativas do Brasil podem não ser tão grandes quanto observadas sob a ótica planetária – em lugar do próprio umbigo.

Abaixo, as 31 primeiras posições de 194 países.  A lista completa pode ser encontrada em www.nationmaster.com/graph/env_for_are_sq_km_percap-area0sq-km-per-capita.

Área de Florestas Per Capita – Em Quilômetros Quadrados (2005)
Ranking País Área
1 Suriname 325.913
2 Guiana 201.060
3 Gabão 157.351
4 Canadá   96.020
5 Austrália   80.515
6 Botswana   67.669
7 Bolívia   63.973
9 Rússia   56.514
11 República do Congo   56.193
12 Butão   50.186
13 Papua Nova Guiné   50.002
14 Ilhas Salomão   45.464
15 Finlândia   42.889
16 Mongólia   40.141
17 Namíbia   37.716
18 Angola   37.076
19 Zâmbia   36.383
20 Guiné Equatorial   32.412
21 Paraguai   31.321
22 Nova Caledônia   30.578
23 Suécia   30.505
24 Laos   27.248
25 Brasil   25.627
26 Peru   24.579
27 Rep. Dem. do Congo   23.217
28 Vanuatu   20.817
29 Noruega   20.304
30 Nova Zelândia   20.217
31 Palau   19.901

Como se vê, as vantagens comparativas do Brasil não são tão grandes apenas em decorrência de seu território coberto por florestas nativas.  Quando a questão das florestas é vista sob uma perspectiva global, as florestas do Suriname, da Guiana ou do Gabão podem exercer uma atratividade muito maior para os países que querem preservar florestas nativa, tanto em função das menores pressões demográficas quanto com os objetivos de associar desenvolvimento e proteção da biodiversidade.

O divertido é que em nenhum desses países há vestígios dos debates enfáticos e manipulativos que podem ser observados no Brasil.  Até porque florestas maduras não absorvem carbono, e florestas bem manejadas preservam o ciclo do carbono quando uma árvore abatida é substituída por outra, recém plantada.  Assim fazem países como a Suécia e a Finlândia, originalmente para manter os seus estoques de madeira destinada ao uso econômico.

Esta, aliás, é a origem da reserva legal no Brasil, que depois foi indevidamente apropriada pelos “zambientalistas” que ainda não explicaram qual seria a sua ‘função ecológica”.

Mudanças Climáticas – Diferenças de Percepção Sobre Responsabilidades e "Metas"

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A China anunciou metas de redução das emissões de dióxido de carbono superiores àquelas alardeadas pelo governo brasileiro.  O Brasil não tem uma avaliação concreta das possibilidades e do que deverá feito, e nem de como fazer ou dos custos envolvidos para atingir as suas metas.  Nada muito diferente dos muitos países que subscreveram ao Protocolo de Kyoto, tinha metas e não as cumpriram (com honrosas exceções, como a Alemanha).

A China, no entanto, adota critérios próprios para falar em redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas: deixa de lado as metas absolutas e refere-se a um percentual de redução por unidade de produto interno bruto – PIB.

De fato, não tem absolutamente nenhum sentido afirmar que o Brasil é o quinto maior responsável pelas emissões mundiais desses gases – o Brasil gosta de ser grande em tudo, até nisso -, se não se toma em consideração a emissão per capita ou por unidade de riqueza.  Um país pode ser considerado um grande emissor ou um pequeno emissor dependendo do critério adotado.

O critério aqui utilizado não levará em conta o desmatamento em qualquer lugar do mundo – Canadá, Rússia ou Brasil -, mas apenas as emissões decorrentes da geração da energia para a produção de bens e transporte.  Não desmatar tem o sentido oposto – deixar de produzir para não emitir (o que pressupõe a adoção de outros valores, inclusive morais, com os quais a maioria dos países não está nem um pouco preocupada).

Aos fatos (ainda que eles possam variar ligeiramente em função das fontes)!

Conforme publicação da Agência de Informações Sobre Energia dos EUA em junho de 2009 com base na Energy Review – 2008, os dez maiores emissores anuais de dióxido de carbono – em milhões de toneladas métricas, são:

China – 6.017
EUA    – 5.902
Rússia – 1.704
Índia – 1.293
Japão – 1.246
Alemanha -   857
Canadá – 614
Inglaterra – 585
Coréia do Sul – 514
Iran – 471

Somados, esses países são responsáveis pela emissão de 19.203 milhões ou 66% das emissões mundiais.

Já se considerada a emissão per capita, a coisa muda completamente de figura e o ranking passa a ser o seguinte (em toneladas métricas por habitante):

EUA – 19,05
Austrália – 18,78
Canadá – 16,47
Rússia – 11,14
Alemanha – 10
Coréia – 9,87
Japão – 9,41
Nova Zelândia – 8,99
Inglaterra – 8,84
Grécia – 8,44

China, Índia e Brasil vêm MUITO atrás, com menos de 5 toneladas métricas de dióxido de carbono per capita.   Entende-se, assim, por que a China está falando em redução das emissões por unidade do produto interno bruto, da mesma forma que poderíamos – e deveríamos falar em redução das emissões per capita .  O que não se entende é por que o Brasil está falando em reduções absolutas, que parecem demasiadamente simplórias.

Mesmo a redução das emissões per capita seriam, para o Brasil, difíceis, já que o país se consolidou como exportador de matérias-primas de baixo valor agregado cuja produção requer o uso intensivo de energia, o que se contrapõe ao tipo de PIB dos países altamente industrializados, com altos índices de valor tecnológico agregado (aço ou alumínio X micro-processadores, por exemplo).

Amazônia – Desfaz-se o Mito do Peso do Desmatamento nas Emissões Brasileiras

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Finalmente – parabéns, até que enfim! -, outras áreas do governo brasileiro começam a se pronunciar sobre as emissões de gases causadores de efeito estufa, tema que até agora vinha manipulado pelo Ministério do Meio Ambiente e dos assim chamados “ambientalistas”.  O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, cujos cientistas fizeram o único estudo sério e consistente sobre os impactos das mudanças climáticas no Brasil até hoje publicado, acaba de declarar que o desmatamento na Amazônia é muito inferior aos percentuais que os “ambientalistas” tentaram fazer o país engolir até agora para justificar os seus tambores e o seu ideário capenga de acordo com o qual existem florestas e biomas, nunca seres humanos.

Esse percentual pode ser ainda bem menor quando consideradas outras fontes – cujo cálculo é mais difícil -, tais como as emissões de metano em lixões, forma predominante de disposição final de resíduos urbanos no Brasil.  O país não tem um inventário confiável de outras fontes, o que dá maior destaque à Amazônia. 

Em palavras simples, o Brasil também necessita políticas públicas de eficiência energética e de energias renováveis se quiser diminuir as suas emissões totais.

Há alguns meses, ao final de um encontro técnico-científico realizado na Amazônia, Gilberto Câmara, diretor-geral do INPE, declarou que os cálculos das emissões provenientes do desmatamento na Amazônia feitos pelo IBAMA eram um “chutômetro”.  Agora, o pesquisador do Centro de Ciências do Sistema Terrestre do INPE, Jean Ometto, cravou os percentuais acima citados, com base na redução do desmatamento, no significativo aumento  das outras fontes de emissão, e num argumento sempre intencionalmente abandonado pelo sensacionalismo de algibeira: “o desmatamento não faz as árvores virarem fumaça; parte da madeira se transforma em móveis, casas, portas, e com isso o carbono fica estocado por anos; há, ainda, o fato de eu parte das áreas desmatadas é substituída por pastos à base de forrageiras como a braquiária – reconhecidamente seqüestradoras de carbono, além de cana-de-açúcar e grãos, que também contribuem para neutralizar emissões”.

Um aspecto importante da tomada de posição do INPE é a retirada definitiva do bastão de conhecimentos e preocupações com o meio ambiente do Ministério do Meio Ambiente e dos “ambientalistas”.  De fato, vale lembrar que nos países sérios há muito a resolução das  questões ambientais não é assunto apenas e nem sequer prioritariamente pelos órgãos de meio ambiente e pelos “ambientalistas”.  As políticas públicas de gestão de águas, por exemplo,  são formuladas com base no parecer de engenheiros civis, sanitaristas, hidráulicos e outros, além de hidrólogos, biólogos, geólogos e outros especialistas.  E lá, os juristas OUVEM esses outros especialistas, em lugar de tentar formular regras sem fundamento no mundo real.  E os rios estão limpos!

Outro aspecto importante dessa tomada de posições pode ser encontrado no que podemos denominar de “o paradoxo Marina Silva”.  De fato, durante a sua passagem pelo Ministério de Meio Ambiente, Marina clamou pela “transversalidade” no enfrentamento das questões ambientais – usando essa palavra que comum entre filósofos e psicanalistas franceses na década de 80.  Transversalidade significando que as diversas áreas do governo tinham que incorporar as questões ambientais na formulação de políticas públicas, sem o que nenhum avanço significativo seria feito.

Afirmação verdadeira, mas não colocada em prática.  Na visão de Marina, como em geral do IBAMA e do Instituto Chico Mendes, a transversalidade era apenas a imposição dos pontos de seus pontos de vista sobre as demais áreas do governo.  Isso fica evidente, por exemplo, no fato de que o Decreto 5.795/06, que trata, entre outras coisas, de “florestas e formações sucessoras para uso alternativo do solo” (sic), foi assinado apenas por José de Alencar e por ela própria, não trazendo a assinatura do ministro da agricultura.  Na opinião de Marina, ao que parece, o único uso digno dos solos era o de dar suporte às florestas, já que os demais usos são classificados como “uso alternativo”.

Enfim, parabéns ao INPE.  Quem sabe agora nos debates sobre o Código Florestal venham a ser ouvidos pelo menos os profissionais da EMBRAPA Florestas e outros segmentos dessa instituição, além dos agrônomos, o Ministério das Cidades e outros interessados.  Mas o ideal não é que eles fiquem esperando um convite para serem ouvidos, mas que, à exemplo do INPE, tomem a iniciativa de se fazerem ouvir.

Mudanças Climáticas – Novos Indicadores de Aumento de 6 Graus na Temperatura Média da Terra

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O mundo caminha a passos firmes para o pior cenário previsto até hoje pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC: um aumento médio de 6 graus até o final do século, com elevações muito maiores nos pólos.  Em consequência, grandes extensões do planeta se tornarão inabitáveis.

As conclusões são de um programa de monitoramento da Antártica denominado British Antartic, Survey – www.antarctica.ac.uk – que tem uma equipe própria de 400 pessoas e opera 5 bases na Antártica com dois navios oceanográficos e cinco aviões, além de envolver uma rede de 40 universidades inglesas e 120 colaboradores em todo o mundo.  Nada mal.

As medições do British Antarctic Survey indicam que as emissões de CO2 aumentaram em 29% entre os anos 2000 e 2008 (o último ano para o qual os números se encontram disponíveis), com emissões anuais três vezes maiores do que aquelas que ocorreram entre 1990 e 2000.  Os pesquisadores estimam que haverá um pequeno decréscimo em 2009 em decorrência da recessão mas que as emissões voltarão a crescer a partir de 2010.

No total, as emissões decorrentes da queima de combustível fóssil aumentaram em 41% entre 1990 e 2008.  O Protocolo de Kyoto estabelece que os países altamente industrializados deveriam  reduzir suas emissões abaixo dos níveis de 1990.

Pela primeira vez, os cientistas detectaram que a capacidade natural da Terra de absorver mais carbono decorrente das atividades humanas está falhando.  Ainda havendo dúvidas sobre a capacidade dos oceanos de absorver esse carbono, há evidências de que já estariam ocorrendo feedbacks positivos, com o aumento das emissões levando ao aumento da temperatura que começa a resultar na liberação de mais dióxido de carbono para a atmosfera.  Ou seja, o aumento previsto da temperatura não será lento e gradual, mas exponencial, e o já surrado “até 2.100″ passa a ser, nitidamente, apenas uma referência.

Além disso, os cientistas afirmam que, pela primeira vez desde os anos 1960, as emissões provenientes da queima de carvão mineral superaram as emissões decorrentes da combustão de derivados do petróleo.  A maior parte desse aumento da queima de carvão ocorreu na China e quase a metade do crescimento dessas emissões chinesas resultou da fabricação de produtos que são exportados.

Voltamos à questão de saber se tais emissões devem ser levadas à conta do país onde são fabricados os produtos ou à conta dos países onde eles são consumidos, já uma profunda mudança nos padrões de consumo deve ser parte de qualquer estratégia global de redução das emissões de dióxido de carbono.  Isso, para não falar nas emissões per capita.

Há os que acreditam numa revolução tecnológica que se dissemine rapidamente, até mesmo pelo caminho do livre mercado.  Outros acreditam na responsabilidade ambiental das grandes corporações.  Mas os números e os efeitos observados nos últimos pelos cientistas acima citados não são otimistas e nem pessimistas.  São apenas constatações. 

***

É interessante notar que no extenso artigo sobre o Protocolo de Kyoto na versão em inglês da Wikipedia não há sequer referência ao Brasil, exceto numa listagem de países, como se pode ver em http://en.wikipedia.org/wiki/Kyoto_Protocol.

Agora, de um dia para o outro, o país tenta aparecer como uma liderança no assunto, ainda que suas políticas para a área de energias renováveis e de eficiência energética sejam tímidas e claudicantes.  Não há políticas para a área de transportes - onde se originam emissões significativas -, nada de veículos híbridos; as iniciativas relacionadas a aterros sanitários com captação de metano são esparsas; arrastam-se as propostas para a adoção massiva de energia fotovoltaica, da micro-geração, do sistema de tarifação reversa conhecido como feed-in tariff,  da energia nuclear (em lugar das termelétricas sujas), e por aí afora; nada, absolutamente nada, sobre as linhas de transmissão e de distribuição inteligentes – smart grids -, ignoram-se as possibilidades de uso de B-100 fabricado a partir de produtos nativos da Amazônia nas comunidades isoladas, e por aí afora.

A única novidade é a inclusão do sequestro de carbono decorrente da rápida disseminação das práticas de conservação dos solos no Brasil conhecidas como Plantio Direto, que respondem por algo em torno de 5% da proposta que o Brasil levará a Copenhaguem.  Mas os “zambientalistas” não gostam de falar nisso, porque é coisa de produtor rural.

E, o que é mais importante, o Brasil continua sem qualquer projeto de adaptação às mudanças climáticas, como já ocorre em todos os países sérios!

E o Brasil apostando o seu futuro no intangível pré-sal!

Quase tudo política eleitoral, sem conteúdo real.  Mas os jovens jornalistas não sabem perguntar e a mídia prefere notícias rápidas, facilmente palatáveis, ao estilo twitter.

Desmatamento na Amazônia e Redução das Emissões de Carbono – Verdades e Mentiras

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Enquanto o governo brasileiro – leia-se, Lula e Dilma – patina na tomada de decisões sobre metas de redução de emissões de gases causadores de mudanças climáticas, a China se posiciona oficialmente pela manutenção dos princípios do Protocolo de Kyoto, de acordo com o qual os países desenvolvidos devem assumir as responsabilidades, enquanto os demais – incluindo a própria China e a Índia, que parecem estar de acordo sobre esse ponto – ficam isentos de ter metas obrigatórias até 2020, pelo menos.

Metas obrigatórias no Brasil dependeriam de estudos sobre a viabilidade da redução das emissões por setores de atividades econômicas, e esses estudos simplesmente não existem.  Assim, apenas como exemplo, na área de transportes urbanos, a decisão de impor pelo menos um aumento progressivo e definido de ônibus híbridos – já fabricados no Brasil e exportados -, seria fácil avaliar a redução nas emissões nessa área.  E assim, em muitas outras.  Mas não, o samba de uma nota só reduz-se a compensar emissões com o plantio de florestas.

Enquanto isso, a China investe massivamente em tecnologias de energias renováveis e em eficiência energética.  Os compressores eletrônicos de alta eficiência utilizados nos aparelhos de ar condicionado brasileiros, por exemplo, são todos fabricados na China.

É literalmente impossível falar em desmatamento zero na Amazônia quando até o final de 2010 deverão ser regularizadas 500.000 posses!  Mas, que importa?  Esse é assunto para as próximas administrações.  O que pesa agora é o lero-lero político.

Além disso, vale lembrar que (a) apenas 60% das florestas amazônicas estão em território brasileiro (os 40% restantes estão no Perú, Colômbia, Venezuela, Ecuador, Bolívia, Suriname Guiana e Guiana Francesa), (b) as florestas amazônicas representam apenas 50% das florestas tropicais úmidas remanescentes no mundo (as demais, na Ásia por exemplo, estão sendo rapidamente substituidas por plantações de dendê para a produção de biocombustíveis) e, (c) o que tem sido guardado em segredo, as florestas boreais estocam quase o dobro do carbono contido nas florestas tropicais úmidas!

Aos costumes!

No Canadá, apenas 8% dessas florestas são protegidos, enquanto 50% foram concedidos a empresas florestais para corte raso.   Simples assim!  Cerca de 80% das árvores de florestas boreais nativas cortadas no Canadá são exportados para consumo e processamento nos EUA para fazer desde produtos madeireiros até papel higiênico.  E a maioria dessas empresas concessionárias desse corte raso nas florestas boreais do Canadá exporta madeira “certificada” por organizações impostoras como o Forest Stewardship Council (FSC).

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC recomendou, em 2007, que as florestas boreais fossem totalmente protegidas e o Canadá nem piscou.  Nele encontram-se a maior extensão de florestas nativas do mundo.  As florestas boreais cobrem 15% da superfície terrestre do planeta e estocam 30% do carbono de todos os biomas.

Uma boa parte dessas florestas está no Alasca – em território dos EUA -, mas os cientistas dos países altamente industrializados e as suas ONGs que tudo sabem e tanto falam sobre as emissões das florestas amazônicas ainda estão “pesquisando” as emissões decorrentes do corte raso das florestas boreais.  Sobre as emissões decorrentes do desmatamento na Amazônia as ONGs tipo WWF enchem o peito para fazer afirmações certeiras, em casas decimais.

Esses “segredinhos” talvez valham como subsídios para as decisões do presidente Lula.  Mas valem, sobretudo, para abrir os olhos dos brasileiros que vivem nas cidades e se alarmam com as manipulações de informações dos Greenpeaces da vida.

Essas informações podem ser encontradas em

http://news.mongabay.com/2009/1112-hance_boreal.html

e em http://www.whrc.org/borealNAmerica/index.htm, em inglês.

Não se defende, aqui, que as florestas amazônicas brasileiras sejam deixadas ao léu.  Apenas, tenta-se esclarecer como atuam os grupos de interesse e com que tipo de responsabilidade moral para com a humanidade outros países se comprometem.

De qualquer forma, vale perguntar, até quando a turma – os ingleses, o governo brasileiro, essas ONGs que fazem teatro de guerrilha – vão continuar fingindo que (a) a Amazônia é a coisa mais importante do mundo para conter as mudanças climáticas e (b) o Brasil só tem esse caminho para reduzir as emissões de gases causadores dã emissões de dióxido de carbono.

Companhia Siderúrgica do Atlântico – CSA e o Blá-Blá-Blá da Compensação de Emissões de Carbono

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O jogo de cena montado em poucos dias em torno das emissões de carbono da Companhia Siderúrgica do Atlântico “rendeu” tal visibilidade no jornal O Globo  que permite questionar a isenção ou a competência jornalística desse órgão de imprensa nesse episódio.

O CO2 nunca foi sequer considerado um poluente atmosférico – e, portanto, essas emissões não são regulamentadas, no Brasil, nos EUA ou em outros países.  Não existe tecnologia para a captura durante os processos de queima de combustíveis fósseis ou outros.

A preocupação com essas emissões – decorrentes de qualquer processo de queima – surgiu depois da constatação de sua importância para as mudanças climáticas e alguns países desenvolvidos que aderiram ao Protocolo de Kyoto estabeleceram metas de redução nacionais que poderiam ser atendidas através de grandes avanços tecnológicos na área da eficiência energética ou da adoção de fontes renováveis.

Mas essas metas não eram obrigatórias para economias periféricas, como é o caso do Brasil, que nunca teve qualquer política consistente para a redução das emissões de CO2 além de esforços para a re

Muito se falou na compensação das emissões de carbono da CSA sem que fosse feita qualquer referência ao inventário das emissões industriais no estado do Rio de Janeiro, cuja liderança nesse campo está, sem sombra de dúvidas, com a Petrobras, tanto na Refinaria Duque de Caxias – REDUC quanto em suas operações de extração de petróleo na bacia de Campos.

Além disso, tampouco foi feita qualquer referência a outras aciarias, como a unidade da Votorantim, em Resende, a outras grandes fontes de emissão de carbono na mesma atividade industrial, como a fábrica da Companhia Siderúrgica da Guanabara – COSIGUA, do Grupo Gerdau, situada na mesma bacia aérea da CSA.

Da mesma forma, nada se falou das futuras emissões do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, erroneamente localizado em Itaboraí.

Vale ressaltar que, dessas, a única estrangeira é a CSA, do grupo Thyssen Krupp, alemão.  As grandes fontes de emissão de carbono de propriedade de grupos brasileiros não foram sequer mencionadas durante o bater de tambores de cartas marcadas.

É interessante, ainda, notar que todo o processo de licenciamento da CSA foi “transparente” – já que precedido de estudo de impacto ambiental (EIA) em tese amplamente divulgado e precedido de audiência pública formalmente participativa – como acontece, há muito, com todo o sistema de EIA-RIMA ou de audiências públicas no Brasil.

Com ou sem a transparência ideal sobre o processo de licenciamento dessa indústria, todas as irregularidades envolvidas já eram conhecidas em 2007, valendo uma visita ao seguinte link: 

www.pacs.org.br/uploaded_files/20090703144344_printed_outras_UEFDU19lc3R1ZG8gZGUgY2Fzby5wZGY=.pdf

Nele, entre outras coisas é possível saber que já em 2007, encontravam-se na Justiça (a) sete ações cíveis em andamento contra a empresa e o órgão ambiental que emitiu a licença, (b) uma ação civil pública por danos ao meio ambiente ajuizada MP estadual, (c) um inquérito criminal em andamento no Ministério Público federal contra o IBAMA, os órgãos ambientais estaduais e a prefeitura do Rio de Janeiro acusando-os de “cúmplices e sócios da poluição”, e (d) uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público do trabalho contra a vinda de um grande contingente de chineses para trabalhar nas obras da empresa (tudo com o aval do governo federal, que concedeu os vistos de trabalho em detrimento de profissionais brasileiros de igual qualificação, mas sem a validação prévia do CREA).

Serão essas as razões ocultas do súbito ataque à CSA?  Será que se encontram adormecidos nas gavetas do Judiciário e do MP todos esses processos ou há “riscos” de um iminente de uma condenação de todos os réus?

Passando ao largo dessas dimensões eleitoreiras e judiciais, a secretária de estado Marilene Ramos foi a única entrevistada que, com profissionalismo, mostrou cautela ao falar na exigência de compensações para as emissões de carbono (apesar do excelente trabalho que vem fazendo, o perfil da secretária não inclui a badalação na mídia).

De fato, O Globo e as personalidades que se manifestaram favoravelmente às compensações pelas emissões de carbono da CSA não tiveram o cuidado de calcular que área de florestas seria necessário plantar para fixar uma quantidade de carbono equivalente àquela emitida apenas pelo conjunto de indústrias acima relacionadas.  Não é improvável que o reflorestamento de toda a área rural do estado fosse suficiente para assegurar tal compensação.  Esse cálculo é, de fato, imprescindível para qualquer tomada de decisão.

Já se disse, aqui, que há muito os países altamente industrializados exportam para os países “emergentes” ou de economias periféricas as indústrias intensivas no consumo de energia, como é o caso das siderurgias.  Não o fazem por questões ambientais – ainda que as normas brasileiras de emissão de poluentes estejam, há muito, ultrapassadas.  Fazem por razões de mercado, pura e simplesmente.  São produtos de baixo componente tecnológico e pouco valor agregado, do tipo que caracteriza as exportações brasileiras.

Com tanto blá-blá-blá em torno de uma única fábrica, vale comparar as emissões da indústria de aço de cinco países de economia emergente.  Ainda com dados de 1995 – ano seguinte ao último inventário oficial de fontes de emissão de gases causadores de mudanças climáticas no Brasil -, o quadro não deve ter mudado muito.

steel-in-emerging-countires.jpg 

Tanto a Índia quanto a China já manifestaram a sua intenção de não assinar qualquer acordo internacional sobre a redução desses gases na forma atualmente proposta.  Líderes de ambos os países já se manifestaram favoráveis a mudanças profundas nos padrões de consumo dos países altamente desenvolvidos e à adoção do conceito de pegada carbônica dos produtos finais consumidos em cada país.

Se fosse fácil resolver esses problemas, bastaria uma gritaria generalizada de “ambientalistas” para que todas fontes de emissão de gases causadoras de mudanças climáticas do planeta fossem obrigadas a fazer as tais “compensações” e o mundo não estaria empacado nas negociações em torno do assunto.

Mudanças Climáticas e o Naufrágio Antecipado de Copenhaguem

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Hoje, no encerramento da reunião ocorrida ao longo desta semana em Barcelona, representantes do governo inglês afirmaram que são mínimas as possibilidades de que se chegue a um acordo global no próximo mês, em Copenhaguem.  As divergências de posições são tão grandes que mais provavelmente qualquer decisão será deixada para dezembro de 2010, no México, ou até depois.

O sincero reconhecimento de que são desprezíveis as chances de um acordo com algum nível de impacto significativo sobre a redução dos gases é, também, uma confirmação de que os interesses nacionais superam os assim chamados interesses globais da humanidade, já que ao longo de dois anos cerca de 10.000 representantes de 192 países trabalharam e estiverem presentes a um grande número de reuniões internacionais tendo em mente o prazo do encontro que se realizará em Copenhaguem.

De um lado, países industrializados como Canadá e Rússia recusam-se a aceitar metas de redução de emissão de carbono.  No senado dos EUA, avança a passos de cágado o projeto de lei de segurança energética e redução das emissões (os norte-americanos sempre enfatizam a própria segurança e independência no que concerne a decisões que possam impactar a sua economia).  E outros países desenvolvidos, como o Japão, já deixaram claro que não pretendem meter a mão no bolso para apoiar o processo de redução das emissões em países em desenvolvimento.  Os demais querem ter segurança sobre os valores e, mais do que tudo, dos mecanismos que assegurem a destinação desses recursos financeiros na forma decidida por eles.

Assim, vai para o brejo o sonho do pagamento internacional por “serviços ambientais” e da constituição de um “fundo amazônico” que possa realmente impactar a qualidade de vida dos “povos da floresta”.

Enquanto isso, a Inglaterra e a Europa em geral continuarão importando óleo de dendê proveniente da Malásia, da Indonésia, das Filipinas e de outras áreas desmatadas em países africanos para poderem dizer que reduziram as suas emissões.

No Rio de Janeiro, só o início das operações de uma aciaria alemã – a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) – aumentará em 14% as emissões de carbono no estado.  E isso sem computar o início das atividades de outra aciaria em Resende – Votorantim – e do Complexo Petroquímico em Itaboraí, liderado pela Petrobras e pessimamente localizado.

No mesmo dia, fingindo seriedade, a ONU “exige” que o Brasil apresente as suas metas de redução do desmatamento.  E, o que é pior, o Brasil achando se enrolando nessa questão, como se não existissem pelo menos 5 milhões de pessoas vivendo nas florestas amazônicas (fora dos centros urbanos).

Mudanças Climáticas – O Brasil no Desvio.. ou Caindo no Conto do Vigário

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Ao tentar estabelecer metas de redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas – em especial com foco no desmatamento -, o Brasil está no caminho  errado e perde uma grande oportunidade de assumir a liderança de um conceito diferente para que essas metas sejam atingidas – o conceito de pegada carbônica -, que já vem sendo colocado nos fóruns de discussão por representantes da China e da Índia.

O conceito se apóia nas evidências de que há décadas os países ricos exportam para os países chamados “emergentes” – e outros – as indústrias intensivas em energia, com baixo valor agregado aos seus produtos.  Assim, o Brasil começou exportando alumina, proveniente da bauxita, com fortíssimos subsídios governamentais, inclusive nas tarifas de energia (que continuam sendo subsidiadas).

Da mesma forma, o Brasil exporta ferro-gusa, aços e mesmo automóveis – sem que exista uma só indústria automobilística nacional – que serão consumidos nos países altamente industrializados.  E como não incidem impostos sobre a exportação, pouco ou nada fica por aqui, além da poluição nas minas, no transporte e nas etapas mais poluentes do beneficiamento dos minérios, em particular.

Apenas para que se tenha um exemplo, estima-se que apenas a Companhia Siderúrgica do Atlântica – CSA, do grupo alemão ThyssenKrupp, elevará as emissões de carbono do Rio de Janeiro em cerca de 15% do total atual.  A inauguração será em breve.

A pergunta, então, é simples: e se a quantidade de carbono emitida para produzir e levar ao consumidor final um determinado produto for contabilizada nas emissões dos países em que se dá o consumo final, como ficam as coisas?  Nesse caso, teríamos a promoção de maior justiça social na alocação das emissões, já que não se trata tanto de que país emite mas de que percentual de carbono foi utilizado na produção e transporte dos bens de consumo finais.

Não é necessário adiar as negociações em andamento, até porque elas terão continuidade dentro de um ano.  Mas é bom se ter em mente que não é possível reduzir emissões quando produzimos ferro gusa para exportação – com altos insumos energéticos – para que ele nos seja retornado sob a forma de produtos de alto conteúdo tecnológico, ainda que empacotados em plataformas de exploração de petróleo, naviso e até mesmo vagões de trem que o governado do Rio de Janeiro se orgulha de ter encomandado à China.

 Ou quando exportamos silício beneficiado até o grau metalúrgico a US$ 16-US$ 20 kg – com alto teor energético – e importamos o silício em grau eletrônico, para a fabricação de chips e painéis fotovoltaicos, a US$ 100 ou mais por quilo.  E note-se, o Brasil não produz células fotovoltaicas para a geração de eletricidade, cujo preço continua caindo lá fora e permitindo que os países altamente industrializados aumentem o percentual de energias renováveis em suas matrizes energéticas.

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A proposta de redução do desmatamento em 20% não parece ter sido cotejada com a lei que autorizou a regularização fundiária de algo entre 300.000 e 500.000 posses na Amazônia.

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O presidente Lula já percebeu o “truque” da exportação de produtos com altos teores energéticos e baixo valor agregado quando pressionou a Vale para aumentar o grau de beneficiamento de seus produtos aqui mesmo.  Até há uma ou duas décadas atrás, uma das referências para o grau de desenvolvimento de um país era o seu consumo de energia.  Agora, esse paradigma tem que mudar e a referência de sustentabilidade deve passar a ser a pegada carbônica do produto no momento em que é entregue ao consumidor final.

Desmatamento Zero – Mais Uma Vez, a Miséria Moral Inglesa Engana o Mundo

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O lero-lero da proteção das florestas tropicais úmidas como forma de conter as mudanças climáticas e de proteger a biodiversidade já foi para o brejo.  Sem alarde, discretamente, mas rápidos como quem rouba – e como roubam! -, os países europeus substituíram cláusulas de proteção dessas florestas do texto que será levado a Copenhaguem de maneira a permitir a sua substituição por “florestas energéticas”, com ênfase nas plantações de palmáceas como o dendê para a produção de biodiesel a ser exportado para a Europa.

De acordo com o novo texto, essas novas áreas de monocultura, ainda quando substituindo florestas nativas, serão elegíveis para receber os mesmos pagamentos por “serviços ambientais” que os países que as mantiverem intactas.  Uma versão anterior da minuta tornava essas áreas inelegíveis para apoios financeiros sob o guarda-chuva do combate às mudanças climáticas, mas essa proibição foi simplesmente deletada e a União Européia, liderada pela Inglaterra, impediu que o veto fosse reintroduzido.

Assim, a Europea, que importa biodiesel das plantações de dendê na Malásia, pode mais tarde bater no peito e afirmar que reduziu as suas emissões provenientes de energias não renováveis.  E os malasianos que se danem e migrem para favelas ao redor de Kuala Lumpur.

Como se sabe, a Inglaterra, através de personagens patéticos como o príncipe Charles e David Milliband – ministro da energia e das mudanças climáticas – finge tenazmente defender as florestas amazônicas e os interesses dos povos indígenas que nelas habitam.  E, o que é pior, o governo brasileiro inclina-se por concordar com esse tipo de trapaça internacional, porque ela agrada à mídia e aos “ambientalistas”.

O WWF da Inglaterra e algumas outras ONGs menos famosas protestaram contra a nova redação da proposta de acordo que será levada a Copenhaguem, sem alcançar o mesmo eco na imprensa européia.  O Greenpeace não enviou nenhum de seus jovens de boa fé para se amarrarem nas cadeiras do parlamento britânico.

Em reuniões fechadas e “discretas” – para não dizer indecentes -, os europeus – sempre liderados, nesse tema, pela Inglaterra, conseguiram reduzir o texto da proposta que será levada a Copenhaguem de 19 para 9 páginas.  Depois, tentaram responsabilizar países com imenso peso político no cenário internacional, como a Malásia e a Indonésia, por essa contrafacção de acordos internacionais.

Tanto o  Congo – produtor de petróleo controlado por firmas estrangeiras e seu “governo” que deixa a população na miséria – quanto a República dos Camarões também teriam influenciado a decisão, segundo a versão que a delegação britânica vazou para a imprensa.  Afinal, nesses dois países – como no Brasil, diga-se de passagem – já se instalaram os grupos de interesse europeus voltados para a expansão da produção de biodiesel do dendê, briquetes de madeira e outros.

Cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas afirmam que o desmatamento na Ásia, na África e nas florestas amazônicas são atualmente responsáveis por 20% das emissões das emissões totais de carbono.

Esse é um percentual bem diferente do que aquele divulgado no Brasil que, com as suas manias de grandeza, ainda acredita que por si só o desmatamento na Amazônia é contribui com 20% ou mais das emissões globais de carbono (ainda que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais discorde disso).  E, o que é pior, tenta acreditar na importância das “contribuições financeiras” dos países ricos caso sejam alcançadas as metas de redução de desmatamento como forma de assegurar aos “povos da floresta” um bom padrão de acesso a serviços básicos de saúde, saneamento, acesso à eletricidade e às modernas comunicações.  Se bobear, a esmola será tanta que esses povos da floresta poderão até mesmo fazer turismo cultural de observação aos hábitos e costumes dos nativos europeus.

Como em Quincas Borba, que se encanta com o fausto da corte e termina enganado, o governo brasileiro ainda enche o peito para falar de um humanismo nunca praticado pelos países desenvolvidos que já solucionaram, há muito, os problemas básicos de seus cidadãos.  Foi por essas e outras tolices que Machado de Assis deixou o humanismo de lado e, irônico, criou o “humanistismo”, sintetizado no seguinte trecho dessa obra:

 ”– Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

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Se os africanos e asiáticos quiserem desmatar para exportar energéticos, recebem um trocado.  Se o fizerem para dar alimentos às suas populações, não.