Desmatamento Zero – Mais Uma Vez, a Miséria Moral Inglesa Engana o Mundo

O lero-lero da proteção das florestas tropicais úmidas como forma de conter as mudanças climáticas e de proteger a biodiversidade já foi para o brejo.  Sem alarde, discretamente, mas rápidos como quem rouba – e como roubam! -, os países europeus substituíram cláusulas de proteção dessas florestas do texto que será levado a Copenhaguem de maneira a permitir a sua substituição por “florestas energéticas”, com ênfase nas plantações de palmáceas como o dendê para a produção de biodiesel a ser exportado para a Europa.

De acordo com o novo texto, essas novas áreas de monocultura, ainda quando substituindo florestas nativas, serão elegíveis para receber os mesmos pagamentos por “serviços ambientais” que os países que as mantiverem intactas.  Uma versão anterior da minuta tornava essas áreas inelegíveis para apoios financeiros sob o guarda-chuva do combate às mudanças climáticas, mas essa proibição foi simplesmente deletada e a União Européia, liderada pela Inglaterra, impediu que o veto fosse reintroduzido.

Assim, a Europea, que importa biodiesel das plantações de dendê na Malásia, pode mais tarde bater no peito e afirmar que reduziu as suas emissões provenientes de energias não renováveis.  E os malasianos que se danem e migrem para favelas ao redor de Kuala Lumpur.

Como se sabe, a Inglaterra, através de personagens patéticos como o príncipe Charles e David Milliband – ministro da energia e das mudanças climáticas – finge tenazmente defender as florestas amazônicas e os interesses dos povos indígenas que nelas habitam.  E, o que é pior, o governo brasileiro inclina-se por concordar com esse tipo de trapaça internacional, porque ela agrada à mídia e aos “ambientalistas”.

O WWF da Inglaterra e algumas outras ONGs menos famosas protestaram contra a nova redação da proposta de acordo que será levada a Copenhaguem, sem alcançar o mesmo eco na imprensa européia.  O Greenpeace não enviou nenhum de seus jovens de boa fé para se amarrarem nas cadeiras do parlamento britânico.

Em reuniões fechadas e “discretas” – para não dizer indecentes -, os europeus – sempre liderados, nesse tema, pela Inglaterra, conseguiram reduzir o texto da proposta que será levada a Copenhaguem de 19 para 9 páginas.  Depois, tentaram responsabilizar países com imenso peso político no cenário internacional, como a Malásia e a Indonésia, por essa contrafacção de acordos internacionais.

Tanto o  Congo – produtor de petróleo controlado por firmas estrangeiras e seu “governo” que deixa a população na miséria – quanto a República dos Camarões também teriam influenciado a decisão, segundo a versão que a delegação britânica vazou para a imprensa.  Afinal, nesses dois países – como no Brasil, diga-se de passagem – já se instalaram os grupos de interesse europeus voltados para a expansão da produção de biodiesel do dendê, briquetes de madeira e outros.

Cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas afirmam que o desmatamento na Ásia, na África e nas florestas amazônicas são atualmente responsáveis por 20% das emissões das emissões totais de carbono.

Esse é um percentual bem diferente do que aquele divulgado no Brasil que, com as suas manias de grandeza, ainda acredita que por si só o desmatamento na Amazônia é contribui com 20% ou mais das emissões globais de carbono (ainda que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais discorde disso).  E, o que é pior, tenta acreditar na importância das “contribuições financeiras” dos países ricos caso sejam alcançadas as metas de redução de desmatamento como forma de assegurar aos “povos da floresta” um bom padrão de acesso a serviços básicos de saúde, saneamento, acesso à eletricidade e às modernas comunicações.  Se bobear, a esmola será tanta que esses povos da floresta poderão até mesmo fazer turismo cultural de observação aos hábitos e costumes dos nativos europeus.

Como em Quincas Borba, que se encanta com o fausto da corte e termina enganado, o governo brasileiro ainda enche o peito para falar de um humanismo nunca praticado pelos países desenvolvidos que já solucionaram, há muito, os problemas básicos de seus cidadãos.  Foi por essas e outras tolices que Machado de Assis deixou o humanismo de lado e, irônico, criou o “humanistismo”, sintetizado no seguinte trecho dessa obra:

 “– Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

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Se os africanos e asiáticos quiserem desmatar para exportar energéticos, recebem um trocado.  Se o fizerem para dar alimentos às suas populações, não.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?