Mudanças Climáticas – O Brasil no Desvio.. ou Caindo no Conto do Vigário

Ao tentar estabelecer metas de redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas – em especial com foco no desmatamento -, o Brasil está no caminho  errado e perde uma grande oportunidade de assumir a liderança de um conceito diferente para que essas metas sejam atingidas – o conceito de pegada carbônica -, que já vem sendo colocado nos fóruns de discussão por representantes da China e da Índia.

O conceito se apóia nas evidências de que há décadas os países ricos exportam para os países chamados “emergentes” – e outros – as indústrias intensivas em energia, com baixo valor agregado aos seus produtos.  Assim, o Brasil começou exportando alumina, proveniente da bauxita, com fortíssimos subsídios governamentais, inclusive nas tarifas de energia (que continuam sendo subsidiadas).

Da mesma forma, o Brasil exporta ferro-gusa, aços e mesmo automóveis – sem que exista uma só indústria automobilística nacional – que serão consumidos nos países altamente industrializados.  E como não incidem impostos sobre a exportação, pouco ou nada fica por aqui, além da poluição nas minas, no transporte e nas etapas mais poluentes do beneficiamento dos minérios, em particular.

Apenas para que se tenha um exemplo, estima-se que apenas a Companhia Siderúrgica do Atlântica – CSA, do grupo alemão ThyssenKrupp, elevará as emissões de carbono do Rio de Janeiro em cerca de 15% do total atual.  A inauguração será em breve.

A pergunta, então, é simples: e se a quantidade de carbono emitida para produzir e levar ao consumidor final um determinado produto for contabilizada nas emissões dos países em que se dá o consumo final, como ficam as coisas?  Nesse caso, teríamos a promoção de maior justiça social na alocação das emissões, já que não se trata tanto de que país emite mas de que percentual de carbono foi utilizado na produção e transporte dos bens de consumo finais.

Não é necessário adiar as negociações em andamento, até porque elas terão continuidade dentro de um ano.  Mas é bom se ter em mente que não é possível reduzir emissões quando produzimos ferro gusa para exportação – com altos insumos energéticos – para que ele nos seja retornado sob a forma de produtos de alto conteúdo tecnológico, ainda que empacotados em plataformas de exploração de petróleo, naviso e até mesmo vagões de trem que o governado do Rio de Janeiro se orgulha de ter encomandado à China.

 Ou quando exportamos silício beneficiado até o grau metalúrgico a US$ 16-US$ 20 kg – com alto teor energético – e importamos o silício em grau eletrônico, para a fabricação de chips e painéis fotovoltaicos, a US$ 100 ou mais por quilo.  E note-se, o Brasil não produz células fotovoltaicas para a geração de eletricidade, cujo preço continua caindo lá fora e permitindo que os países altamente industrializados aumentem o percentual de energias renováveis em suas matrizes energéticas.

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A proposta de redução do desmatamento em 20% não parece ter sido cotejada com a lei que autorizou a regularização fundiária de algo entre 300.000 e 500.000 posses na Amazônia.

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O presidente Lula já percebeu o “truque” da exportação de produtos com altos teores energéticos e baixo valor agregado quando pressionou a Vale para aumentar o grau de beneficiamento de seus produtos aqui mesmo.  Até há uma ou duas décadas atrás, uma das referências para o grau de desenvolvimento de um país era o seu consumo de energia.  Agora, esse paradigma tem que mudar e a referência de sustentabilidade deve passar a ser a pegada carbônica do produto no momento em que é entregue ao consumidor final.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

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