Mudanças Climáticas – Os Produtores Rurais na Liderança da Fixação de Carbono

O teatrinho no qual os “ambientalistas bons” combatem os “ruralistas maus” é coisa para enganar eleitores otários.  Na vida real, as coisas não são tão simples quanto num vídeo game, e há um grande número de produtores rurais de todos os portes, de agrônomos e de cientistas das mais diversas especialidades, bem como de dirigentes de órgãos estaduais e municipais de meio ambiente que afirmam a necessidade de mudanças profundas no Código Florestal sem que com isso se oponham a políticas sérias, rigorosas e consistentes (isto é, aplicáveis) de proteção dos recursos ambientais.

O curioso é que em meio a todo esse tiroteio, nem os agrônomos e engenheiros florestais mais renomados e tampouco os dirigentes de órgãos ambientais são sequer consultados.  E todos ou a esmagadora maioria dentre eles sabem que há necessidade de mudanças profundas no Código Florestal.

Evidentemente, eles – como os físicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE – que no Brasil lideram as pesquisas sobre mudanças climáticas são considerados “ambientalistas”.

Recentemente, três dos mais renomados cientistas brasileiros da área de conservação dos solos e, por tabela, dos recursos hídricos, afirmaram, em conjunto, que a tecnologia de produção rural conhecida no Brasil como Sistema de Plantio Direto na Palha pode compensar a totalidade das emissões de gases causadores de efeito estufa do setor rural brasileiro.  O Ministério do Meio Ambiente, que pretende ter a palavra final nas questões de redução das emissões desses gases, prestou atenção?

A seguir, a transcrição da Carta de Foz do Iguaçu.

A agricultura tem sido a principal fonte de alimentos e a geradora de uma enorme cadeia de negócios que movimenta quase ⅓ do PIB brasileiro.  Nas últimas três décadas a evolução da produção agrícola teve como um dos pilares a adoção e a manutenção do Sistema Plantio Direto na Palha (SPDP). Esse sistema de manejo do solo ocupa cerca de 26 milhões de hectares do território brasileiro e representa 52% das áreas cultivadas.

O SPDP promove inúmeros benefícios, entre eles destacam-se o controle da erosão, a redução dos custos para o produtor, o aumento da produção e da sua estabilidade em anos secos. Do ponto de vista ambiental o SPDP integra o desenvolvimento de novas tecnologias com a minimização do impacto ambiental devido à redução das emissões de gases do efeito estufa e da maior fixação do carbono no solo.

Na primeira Comunicação Nacional sobre emissão de gases do efeito estufa referente ao período de 1975-1995, as emissões de CO2 pelas atividades agrícolas foram responsáveis pelas taxas anuais líquidas de 46,4 Mt CO2 o que equivale a 12,65 Mt C. Os resultados de pesquisa comprovam que a adoção do plantio direto associado à rotação de culturas para manter o solo coberto com resíduos culturais podem compensar todas as emissões geradas pelo setor agrícola no Brasil.

Mesmo conhecendo o benefício que o SPDP promove ao meio ambiente, ainda não é reconhecido como atividade para requerer créditos de carbono no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo estabelecido no Protocolo de Quioto. Dessa forma, é preciso ações políticas imediatas para fazer com que essa redução na emissão de gases, e o seqüestro de carbono pelo solo devido ao sistema plantio direto, sejam reconhecidos como atividades elegíveis para o período pós-Quioto, que será amplamente discutido em dezembro de 2009 durante a 15º Conferência das Partes a ser realizada na Cidade de Copenhagen, Dinamarca. 
 
Foz do Iguaçu, 11 de Setembro de 2009

Prof. Dr. Carlos Eduardo P. Cerri – Universidade de São Paulo, SP
Prof. Dr. João Carlos de Moraes Sá – Universidade Estadual de Ponta Grossa, PR
Prof. Dr. Telmo Jorge Carneiro Amado – Universidade Federal de Santa Maria, RS

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Para não se estender em demasia, os autores não mencionaram que (a) os créditos de carbono decorrentes da utilização dessa técnica de manejo dos solos já são transacionados na Bolsa de Chicago, no mercado voluntário, e (b) cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas já têm recomendado a inclusão do plantio direto no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, com a correspondente qualificação das áreas rurais sob plantio direto para o recebimento de créditos de carbono.

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Para quem se interessa por redução das emissões de carbono que não seja através do mero reflorestamento e no samba de uma nota só da redução do desmatamento na Amazônia, vale passar os olhos na nova publicação da Agência Internacional de Energia sobre transferência de tecnologia no campo da geração eólica – em inglês – no link a seguir:

http://www.iea.org/Papers/2009/Wind_Roadmap.pdf

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?