Trens de Alta Velocidade e Mudanças Climáticas – A China Dá o Seu Recado

Depois de ter sido acusada de contribuir de maneira decisiva para o naufrágio anunciado do encontro sobre mudanças climáticas de Copenhagen, a China esfregou hoje – dia 26 de dezembro – na cara do mundo a inauguração de mais um trem de alta velocidade unindo duas grandes cidades situadas a 835 quilômetros uma da outra: Wuhan e Guangzhou.  A viagem que antes demandava cerca de 10 ½ horas pôde ser feita em menos de 3 horas, a uma velocidade media de 350 km/hora e uma velocidade máxima de 390 km/h.

A China pretende completar a implantação de 42 novas ferrovias de trens de alta velocidade nos  próximos três anos, com o total de 12.000 quilômetros adicionais, disponibilizando assim esse meio de transporte para cerca de 90% da população.  O tempo de viagem ferroviária entre Hong-Kong e Pequim cairá de 23 para 8 horas.

O programa chinês de investimentos em trens de alta velocidade é ambicioso e quando concluído, em 2020, a China terá o maior, mais rápido e mais avançado sistema de trens do mundo*.   Em 2009, o país investiu 50 bilhões de dólares nesse tipo de transporte e o investimento total previsto até 2020 é de 300 bilhões de dólares.  A geração de emprego é imensa e só a ferrovia Xangai-Pequim gerou 110.000 postos de trabalho.

As autoridades chinesas já prevêem uma significativa redução da demanda de transporte rodoviário e, sobretudo, aéreo a partir desses avanços.

Foram necessários 23 anos para elevar a velocidade média dos trens na China de 43 km/hora – em 1978 – para 100 km/hora – em 2001, e apenas 9 anos para mais do que triplicar essa velocidade para os atuais 350 km/h.  A velocidade media dos trens na Alemanha é de 232 km/h, no Japão é de 243 km/hora no Japão e na França de 272 km/hora.

As diferenças de consumo de energia entre os diferentes meios de transporte foram estimadas pelo Departamento de Transportes nos EUA em 1995 e os números encontrados ainda podem servir como referência.

Transportar uma tonelada de carga por uma distância de um quilômetro consome 221 quilojoules de energia por via férrea, 225 quilojoules por via aquática, 2.000 quilojoules se utilizados caminhões e 13.000 quilojoules por via aérea.

Ou seja, o transporte ferroviário nos EUA (que não são um país avançado em matéria de trens de alta velocidade mas têm padrões estritos para a eficiência de motores auto-veiculares) consome pouco mais de 10% da energia utilizada pelo transporte rodoviário.

Se alguém quisesse aplicar o critério da redução das emissões de dióxido de carbono num programa de implantação de ferrovias desse tipo – que é um programa de eficiência econômica e energética -, os países altamente desenvolvidos teriam que pagar um bocado de dinheiro à China pela redução das emissões de carbono.  Evidentemente, ninguém quer desembolsar dinheiro para que a China acelere ainda mais o seu avanço científico, tecnológico, econômico, social e, como se não bastasse, na área da redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

O impacto das emissões do setor de transportes nas mudanças climáticas e na economia é imenso, o que levou o Parlamento Europeu a decidir por elevados investimentos no setor ferroviário.

No caso do Brasil, isso só ocorrerá se for superada a fase do samba de uma nota só do desmatamento e a monopolização do assunto pela área ambiental, que termina eximindo outras áreas do governo de suas responsabilidades no campo das mudanças climáticas.

Até lá, o governo continuará a se render ao lobby das empreiteiras e da indústria (estrangeira) de caminhões, dando prioridade ao transporte rodoviário mesmo nos investimentos a serem feitos na Amazônia, que afirma querer proteger.

E o Brasil patinando no lero-lero midiático sobre um trem de alta velocidade ligando o Rio de Janeiro a São Paulo.  Uns, reduzem as emissões com grandes avanços tecnológicos; outros, propondo o congelamento da realidade, ainda quando os cientistas prevejam a transformação de 30 a 40% da Amazônia em savanas até 2050 em conseqüência do aquecimento global, com ou sem a canoa furada da reserva legal.

***

* – Para não se tornar refém de um só fabricante, a China utilizou diferentes fornecedores dos equipamentos de maior conteúdo tecnológico: Bombardier, Kawasaky, Siemens e Alstom.  Um estudo do Banco Mundial indica que em junho de 2011 quase 7.000 km de ferrovias de alta velocidade já se encontravam em operação, com muitas linhas em diversos estágios de construção.

***

O mais divertido é que o Brasil exporta minério de ferro para a China e importa o produto sob a forma de trilhos.  Como se não bastasse, há alguns meses o governo do Rio de Janeiro anunciou, em junho de 2010,  com grande orgulho, que importaria da China 30 trens elétricos por US$ 165 milhões.  Logo depois, anunciou-se a aquisição de 114 novos vagões do mesmo fabricante chinês para o metrô do Rio.  O minério sai daqui, a geração de emprego e de valor é feita lá.  E a turma ainda celebra. 

***

Para não se tornar refém de um só fabricante, a China utilizou diferentes fornecedores em diferentes ferrovias: Bombardier, Kawasaky, Siemens e Alstom.  Aprendeu com todos!

***

Imagens dos novos trens chineses e do terminal recém inaugurado dão uma idéia dos avanços tecnológicos do país, em contraste com o  que ocorre nessa área no Brasil.

china-high-speed-trains.jpg

china-wuhan-railway-station-capital-of-hubei-province.jpg

***

A China não precisa de bolsa-família porque mesmo com uma população que já supera 1,3 bilhão de habitantes já resolveu os seus problemas de educação em todos os níveis, bem como de habitação e saúde pública.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários sobre “Trens de Alta Velocidade e Mudanças Climáticas – A China Dá o Seu Recado”

  1. Prezado Luiz,

    Parabéns pelo artigo e pela iniciativa.

    Como sei da importancia de seu blog, recomendo para voce e todos os que acreditam que o Brasil deveria ter políticas sérias, bem fundamentadas do ponto de vista acadêmico, técnico e empresarial, de forma continuada durante décadas, tanto no campo da inovação tecnológica quanto em sua aplicação, na pesquisa e uso de novas fontes de energia alternativa e em politicas ambientais e urbanas para metropoles e grandes cidades, a leitura do excelente artigo que The New Yorker, ediçao de 21 a 28 de dezembro acaba de publicar. Trata-se de LETTER FROM CHINA – THE GREEN GIANT (CARTA DA CHINA – O GIGANTE VERDE), de Evan Onos. O sub-titulo é: The Beijing Crash Program for Clean Energy – O Esmagador Programa de Pequim para Energias Renováveis).

    Expõe aquilo que o Governo Chines fez e esta promovendo nos campos de atividade acima citados, bem como traz algumas comparações com as politicas e iniciativas americanas (USA).

    É uma pena que o governo brasileiro não enfrente com seriedade todos estes setores e áreas de atividade, e ignore as experiência de outros paises, visto que agindo assim está promovendo o nosso atraso comparativo em áreas que serão mais do essenciais no futuro próximo.

    Boa sorte na leitura e nas propostas que cada um puder promover nas suas respectivas áreas de atuação!

    Feliz Ano Novo,
    JGFrancisconi

    Prezado Jorge Francisconi,

    Grato pelo comentário e pelo envio do artigo, que traduzirei e resumirei aqui.

    A China chegou a Copenhagen com a proposta de uma redução de 40-45% de suas emissões, desde que os países altamente desenvolvidos se comprometessem a muito mais, e isso foi dito pela especialista do Environmental Defense Fund (e não pela imprensa brasileira, com O Globo e a Rede Globo concentrados em incensar Lula, talvez por mera incompetência para acessar as informações corretas).

    Você pode ler a entrevista em http://www.newyorker.com/online/blogs/evanosnos/?xrail.

    Eles vão avançar tão rapidamente em energias renováveis que logo atingirão os patamares dos países mais avançados. E nós vamos continuar limitados a pedir um troco pela preservação da Amazônia. E ainda por cima com o orgulho vão de termos sido “o primeiro país a sair da crise”. Como comentou Elio Gaspari (acho), a China nem entrou na crise.

    Bom abraço,

    Luiz

O que você pensa a respeito?