As Belezas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e as Tolices do Código Florestal

Visitar o Jardim Botânico do Rio de Janeiro é sempre uma imensa felicidade.  Tanto por sua beleza, quanto pelos cuidados que continua recebendo – e apesar dos patrocinadores exigirem que seus nomes fiquem sempre bem visíveis.  Nele, é possível ver, também, o quanto é inútil, pela generalidade excessiva, o próprio conceito de faixa marginal de proteção dos rios e lagoas, bem como os esforços ignorantes de conectar essa farsa à proteção ambiental.

Abaixo, imagens de riachos que atravessam o Jardim Botânico, mostrando claramente (a) que o curso foi definido pela conveniência do planejamento, (b) que existem muretas de contenção laterais, cuidadosamente recobertas com plantas, ao longo do tempo, e (c) que riachos menores correm por canaletas subterrâneas – para permitir a existência de caminhos – ou superficiais até desaguarem nos córregos principais.

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Também as quedas d’água naturais foram cuidadosamente arquitetadas, com projetos executados para atender tanto a padrões estéticos quanto a um plano de visitação sem, com isso, perder nada de sua naturalidade ou provocar qualquer vestígio de agressão ambiental.

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Até onde se saiva, nunca um emepéio ou emepéia acordou e resolveu notificar a direção do maravilhoso Jardim Botânico do Rio de Janeiro de que ele deveria respeitar o Código Florestal e remover muretas de contenção artificiais de maneira a permitir que os riachos e quedas d’água voltassem ao seu curso natural, ou que retirassem os caminhos que permitem aos visitantes se aproximarem de tais belezas e e apressentasse um projeto de recuperação das faixas marginais de proteção com espécies nativas.

Mas ai do município ou do proprietário privado que se proponha a fazer algo semelhante em nome da disseminação do amor pela natureza!  Receberá uma notificação ameaçadora ambientalóide do MP e os proponentes do projeto serão ameaçados de danação eterna.

Dizia Schiller, filosófo alemão, que contra a burrice até os deuses lutam em vão.

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Alguns juristas mais afoitos vêem na criação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro logo após a chegada da Corte portuguesa uma preocupação ambiental – como concebida hoje.  Mais tolices.  De fato, criado menos de 3 meses após a chegada da família real, o Jardim da Aclimação teve por objetivo o estudo das plantas e especiarias oriundas das Índias Ocidentais.  O objetivo era o cultivo de plantas exóticas – incluindo a Palma mater, da qual descendem todas as palmeiras imperiais do Brasil – e outras, da flora brasileira, que pudessem ter valor econômico.

A noção de “recursos botânicos” era outra e para que a bobagem e a confusão não persistam vale consultar o link abaixo.

http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/P/verbetes/jbotrj.htm

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

7 comentários sobre “As Belezas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e as Tolices do Código Florestal”

  1. Concordo veementemente acrescentando: A ignorância é petulante!
    E a despeito da história do Jardim sugiro uma “Viagem no Tempo – Os Caminhos do Jardim. Um programa oferecido gratuitamente no Laboratório Didático e que apresenta a história do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) dividida em três períodos, de sua fundação aos dias de hoje, destacando personagens, fatos relevantes e curiosidades vividas na instituição, onde a educação, a pesquisa botânica e a preocupação com a conservação ambiental são percebidas em diferentes momentos e iniciativas.
    Vide: http://www.jbrj.gov.br/

  2. Ps: Acho que sua objetiva contém uma mancha, pois as duas fotos possuem um “flair” no mesmo local.

    Bruna,

    Não importam tanto os lugares, já que em todos os trechos os riachos e quedas d’água do Jardim Botânico foram “aménagés”, planejados, redirecionados. Há, sim, um riacho imundo que vem de fora do Jardim e que é imundo, descendo ali da área urbanizada do Horto, onde a CEDAE não faz a coleta apropriada de esgotos e o tratamento in loco, como deveria se houvesse atenção para as “áreas de entorno”.

    O importante é que não há “faixas marginais de proteção” genéricas, do Oiapoque ao Chuí! Felizmente, a natureza não se enquadra em leis burras. Aliás, as duas versões do Código Florestal em vigor – uma de 1934 e outra de 1965 – foram promulgadas em regimes ditatoriais.

  3. Luiz Prado,
    Belo exemplo você deu da burrice que é este Código Florestal, pode alguém dizer que neste caso a água esta desprotegida? Claro que não!
    As palmeiras imperiais do Jardim Botânico são as mães das grandes palmeiras que vemos em antigas sedes de fazendas, as sementes eram dadas pelo imperador somente a pessoas muito ilustres, era uma honra possuí-las, daí o nome “Palmeira Imperial”.
    Por falar em água, em uma fazenda de café que pertenceu a meu avô, que também pertenceu ao avô deste, existem antigas canaletas de água, feitas de pedra que atravessam a lavoura ladeira abaixo, caindo no terreiro, esta água transporta o café, da lavoura ao terreirão, chegando o café limpo, separado o seco, que bóia, do cereja que afunda, é uma maravilha que demonstra a grandeza de uma época, imagine agora ter de desmanchar tudo isso e plantar 30 metros de capoeira de cada lado.

  4. Alguns pontos importantes:

    O planejamento do curso do trecho do Rio dos Macacos que passa por dentro do JBRJ foi definido em 1808, portanto anterior em mais de 100 anos aos Códigos de 1934 e 1965.

    As canaletas são quase todas superficiais e sua distribuição foi feita de modo que levasse água do Rio para irrigar todos os canteiros, já que na época não havia energia elétrica e bomba-d’água para tal trabalho. A água corre por diferença de altitude.

    Todas as quedas d’água e lagos são artificiais.
    Lembrando que o JBRJ não era aberto à visitação pública quando foi idealizado. Apenas os dignos de uma semente de palmeira-imperial podiam desfrutar de seus encantos.

    O JBRJ na verdade nasceu da preocupação de D. João VI com sua segurança, já que veio ao Brasil fugindo de uma guerra na Europa. A desapropriação da fazenda de café que funcionava na localidade se deu para que fosse construída uma fábrica de pólvora para guarnecer seu exército. Logo depois ele aproveitou o espaço para a aclimatação de plantas e especiarias que trouxe consigo e continuou ganhando ao longo do tempo e aumentando sua coleção.

    Finalizando: a rua Jardim Botânico, que passa em frente ao ponto turístico, bem como a área frontal de seu arboreto, sofrem com profundos alagamentos em dias de chuva forte, pois é uma área com índice pluviométrico alto devido a proximidade da encosta e do Maciço da Tijuca e de lençol freático superficial pela proximidade com a Lagoa Rodrigo de Freitas e o aterramento das pistas da Lagoa. Resultado: se chover muito, se sai nadando do Jardim Botânico. Aí fico pensando se seria diferente se já houvesse os Códigos Florestais em 1808, e acho que sim.

    Comentário do autor do blog

    Pois é, Cristiane. Esse é o argumento central do artigo: se já existisse o Código Florestal em 1808, o Jardim Botânico não existiria. E se um município quiser fazer outro, atualmente, não lhe seria permitido.

  5. Sabemos qual o interesse do governante `a época, mas muitas coisas boas vieram a reboque das divanices do Império. Como seria bom se em todas as brasileiras existisse um jardim botânico. Hoje, os governantes contribuem para o desaparelhamento dos pulmões verdes (vide situação atual do Parque do Cocó de Fortaleza).

    Prezado Valdir,

    Que honra tê-lo entre meus leitores.
    Ainda assim, tenho que discordar enfaticamente. A baixaria cometida pelo Executivo estadual contra o Parque do Cocó – baixaria, venalidade, sem vergonhice, coisa de crápula – não pode servir de justificativa para a truculência e a burrice do Código Florestal brasileiro, que equipara a bacia amazônica ao semi-árido nordestino. Felizmente, a natureza não se submete a essas regras cretinas.

    EVIDENTEMENTE, áreas florestadas para o controle da erosão são necessárias em função do tipo de geologia e de hidrografia. As geradoras hidrelétricas de TODOS os países sérios já sabem disso há décadas sem precisar de lei nenhuma.

    Bom abraço!

    Luiz

  6. Moro no Bairro do Jardim Botânico há mais de vinte anos. Recentemente tomei conhecimento que uma grande parte da área destinada ao Jardim Botânico foi progressivamente invadida por um processo misterioso de ocupação ilegal e que hoje há quase 600 unidasdes dentro da área, inclusive algumas mansões. Tudo indica que a área está se transformando numa favela que mistura barracos e mansões.

    O assunto não vem sendo tratado com a transparência devida e existe um clima de revolta de todos os cidadãos que compreendem a profunda importância do Jardim Botânico, como entidade de pesquisas científicas em Botânica, consevação ambiental, proteção da biodiversidade,ensino, lazer e recreação etc

    O valor histórico e cultural do Jardim Botânico exige que nos mobilizemos para defender a sua existência e integridade.

    Peço que procure obter informações sobre o que se passa realmente e nos informe, com urgência.Falam em desmembrar a área do Jardim Botânico para doar aos invasores, criando uma Area de Interesse Social e que já haveria projeto para tal.

    Socorro!

    Grata!

  7. Isto nos remete a um profundo sentimento de injustiça. Enquanto na terra do Minc pode tudo, noutras regiões não pode.Neste eclipse judiciário,obscuro,a mancha negra que escurece para alguns, ilumina para outros. A balança está quebrada.

O que você pensa a respeito?