Maquiagem Verde: Produtos de Couro Animal X Meio Ambiente (por Raquel Valentini)

Com a necessidade da preservação ambiental, muitas empresas aderiram ao marketing verde para melhorar sua atuação no mercado. Dessa oportunidade ou necessidade na área de marketing, certo número de empresas acordaram para a realidade e tentam adaptar as suas atividades para essa necessidade e outras deram início a produção das “eco-coisas”. A moda verde pegou até mesmo onde não há a possibilidade de uma atividade ambientalmente correta (refrigerantes, por exemplo), e o uso indevido do radical eco (derivado da palavra ecologia) leva muitos consumidores a caírem no conto do vigário da maquiagem verde. Maquiagem verde é o nome dado para campanhas ambientais de empresas que agem de forma incoerente com a imagem que tentam criar.  É a divulgação da empresa dizendo fazer algo ou qualquer coisa relacionada ao meio ambiente.  Na teoria, o marketing verde visa atender a necessidade dos consumidores ecologicamente conscientes e contribuir na criação de uma sociedade sustentável. 

Como os produtos derivados de couro animal atendem essas expectativas? Na atividade da pecuária extensiva, desmata-se uma grande área para dar lugar ao pasto que alimentará o gado. Essas informações já são suficientes e acrescentam-se às formas de manejo dos solos: o compactação  gerada pelo pisoteio do gado, por exemplo.  No caso da pecuária intensiva, que não desmata, o consumidor não é informado sobre as formas de criação e de alimentação do gado, com hormônios de crescimento e antibióticos em abundância. Depois vem o curtume, onde o couro cru é processado do seguinte modo: salga (para o armazenamento de vários dias), retirada do sal (remolho), retirada os pelos com enxofre (depilação), adicionamento de cal hidratado para aumentar o volume (caleiro), retirada o cal (desencalagem); e só aí se inicia o processo de curtimento propriamente dito, com ácidos ou enzimas (purga)  para retirar o que o cal remanescente; o couro recebe ácidos inorgânicos (como cromo, alumínio, etc.) para acertar seu ph (curtimento) e, tornar-se imputrescível. Não vamos levar em consideração como esses produtos químicos são descartados e nem a quantidade de água utilizada.    “Couro certificado”, no Brasil, baseia-se na IG (Indicação Geográfica) e pode ser conceituado como “a identificação de um produto ou serviço como originário de um local, região ou país, quando determinada reputação, característica e/ou qualidade vinculadas essencialmente a esta sua origem particular. Em suma, nada ou quase nada relativo ao produto eco-qualquer-coisa. No Brasil (seguindo exigências européias) este é o único certificado concedido por um órgão governamental (no caso o Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI) e refere-se às atividades agrícolas. Para atividades não agrícolas o certificado foi concedido pela primeira vez à Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul.              

 Resumindo, não existe um certificado legal, consistente, coerente referente à produção “ecologicamente correta” de couro.  Aos consumidores ditos ou que se acreditam eco-conscientes ficam as perguntas: Como a Nike (agora) recusa couro vindo da Amazônia? Nas outras regiões não existem florestas e a mesma regra não se aplica? Como realmente é fabricada a My Paper Bag da Tarun Paul e em qual momento da fabricação ela pode ser considerada “ecologicamente correta”?  O quê significa “ecobag” de couro certificado?  Na aquisição desses produtos, o consumidor, de fato, tem mais chances de acertar ou apenas de comprar gato por lebre.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários em “Maquiagem Verde: Produtos de Couro Animal X Meio Ambiente (por Raquel Valentini)”

  1. Taí, Luiz, tu me deste uma idéia. Acho que vou chamar o meu blog de EcoBlog do Código Florestal Brasileiro. Que tal?

    Comentário do autor

    O artigo é de Raquel Valentini, excelente publicitária.
    Acho a idéia ótima, e devemos também começar a denominar as atividades desses ONGs chatas de eco-sacanagens (há ONGs boa, também, mas que não ficam batendo o tambor).

  2. Texto consciente, esclarecedor,explicativo de Raquel Valentini. A exemplo de outros leitores, devo intitular-me eco-besta, ou eco-bode. Partindo da frase que diz ” A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”, fica somente na ameaça, não na atitude justa e igual. Empresas de nome e renome sempre estão e estarão politicamente, burocraticamente, corretamente, ecologica-Mente… corretas. Besta sou eu, que sirvo de exemplo na minha cidade e região por não me enquadrar nas inúmeras terminações “mente” ecológicas da justiça porque sou muito pequena, trabalho duro para sobreviver e por tudo isso a justiça estampada de verde, decidiu que o melhor para o universo seria obrigar-me a demolição de minha própria casa e de todas as edificações existentes em minha propriedade, entre elas, a casa da minha netinha, porque as construções estavam dentro dos cem metros que dizem ser APP. Como não faço parte de nenhuma quadrilha, não sou terrorista e nem tenho nenhum contato ligado ao PCC, tive um prejuizo de mais ou menos duzentos mil reais sob gargalhadas verdes de atores vestidos de negro que representam o diabo nos palcos soberbos, não o povo.

O que você pensa a respeito?