Enchentes no Rio de Janeiro – Fatos X Discursos Vazios

Quando se ouve o governo, em todos os níveis, pedir à população que abandone as áreas de encostas, a primeira vontade que se tem é mesmo vaiar, jogar ovos e tomates podres na cara deles.  O Brasil está se acostumando a isso: autoridades que, tomadas pelo poder, não se responsabilizam por nada exceto os slogans: “minha chuva, minha vida”.

Fingem não saber ou não sabem mesmo que as pessoas moram em “áreas de risco” por falta de opção – já que o país não tem qualquer programa habitacional significativo há décadas, e o atual slogan limita-se a ser um programa de financiamento, sem que sejam definidas áreas ou planejadas as necessárias estruturas urbanas de transportes rápidos e seguros, saneamento e similares.

Na maioria dos casos, as áreas de riscos poderiam não representar quaisquer riscos se obras de contenção geológica.  E aí, como está na moda, lá vem os evangélicos ambientalistas dizer que tudo aconteceu porque eles não foram ouvidos, ou porque a lei otária não foi respeitada.

Rios são contidos com séries históricas de chuvas máximas e muros de arrimo / contenção; e morros com o necessário conhecimento de sua estabilidade e, também, com obras de contenção.  O ser humano usa, sim, os recursos ambientais, e compete com as demais espécies por eles.  (Evidentemente, poderia fazê-lo de forma menos consumista e com um controle populacional muito maior, mas esse é outro assunto.)

 Se assim não fosse, Salzburg, na Austria, não existiria ou já teria sido punida pela “vingança da natureza” e outras bobagens do gênero.

Como se vê abaixo, em Salzbruck foi feita uma opção pela ocupação das faixas marginais de proteção e topos de morro (pelas mesmas razões que aqui a Corte portuguesa “protegeu” os topos de morro – o seu uso para a construção de fortalezas, castelos e igrejas).  Há séculos.  E o rio é límpido!

O que se vê, abaixo, em Passa Três, distrito de Rio Claro, no Rio de Janeiro, é bastante diferente de Salzburg, acima.  Uma ocupação de alto risco, sim.  Mas por falta de opção e de políticas públicas!  

E o esgotos seguindo direto para o ribeirão.  Mas quem se importa com isso?
Lá, o IBAMA e as ONGs que jantam nos restaurantes de luxo e  jogam no tapetão ou na mídia das grandes cidades não vão.  Até porque não têm uma agenda positiva para o problema da urbanização em geral, e não apenas das grandes cidades.  Só a falação do que “não pode”.

As cidades foram, por lei, obrigadas a elaborar planos diretores que renderam um bom dinheiro a empresas de consultoria.  Depois, esses planos foram e continuam sendo mudados ao sabor das conveniências da indústria imobiliária, que privatiza os lucros e socializa os custos, já que só depois, muito mais tarde, é que alguém vai pensar em coisas elementares como drenagem de águas pluviais e esgotos, tratamento de esgotos, disponibilidade de transporte público e de escolas, e outros “detalhes”.

É bem fácil conclamar as pessoas que vivem em “encostas” no Rio de Janeiro a sairem de lá.  Dá um pouco mais de trabalho programar obras de contenção adequadas – como as que abundam em áreas mais “nobres” como a lagoa Rodrigo de Freitas.

***

O Rio de Janeiro continua sem um plano diretor de macro-drenagem.  Dizem que já foi contratado.  Mas não dizem quem elaborou os termos de referência para esse contrato e nem quando a versão preliminar do relatório será disponibilizada para consulta do distinto público.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

8 comentários sobre “Enchentes no Rio de Janeiro – Fatos X Discursos Vazios”

  1. Sobre a sua frase “…por falta de opção e de políticas públicas…”, eu acrescentaria: “o costume histórico do país pela falta de educação, onde os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e, em consequência natural disto, sentem-se plenos de orgulho por ocuparem locais como este”, pontos “privilegiados”, como aqueles que estão dispostos nos altos de morros, sob ou sobre montes de pedras.

    A falta de educação é de fato um problema crônico e “cancerígeno” para este país e que foi registrado em documentos do tempo da descoberta da nossa nação. Vem de lá esta cultura e não atoa se vê em várias anotações críticas do tipo “Pena que um país tão lindo não seja colonizado por uma nação ativa e inteligente.” “O Brasil não é lugar de literatura. Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros…” ou “Aqui, a natureza tem feito muita coisa – o homem, nada.”

    E essa falta de educação cultural nos conduz a outras coisas mais, tão atuais como “Não devemos esperar encontrar nessas lojas limpeza e ordem.” que retratam figurativamente a vida social de caos e de espírito instintivo que temos hoje.

    Desta forma, mais adiante, e direto do túnel do tempo é fácil deduzir o porque que a floresta da Tijuca, o Morro da Santa Tereza e as regiões recentemente abaladas como Niterói e a Lagoa Rodrigo de Freitas são alvos recorrentes de pertubação, pois são estas regiões que foram famosas por abrigar quilombos, nascedouros das favelas, refúgios que eram para centenas de escravos fugitivos.

    Assim, tenho certeza que porquanto esta falta de educação de qualidade imperar, tantas mais mazelas sofreremos, sobretudo com os problemas de ordem climática que já vivenciamos de forma sem precedentes.

    Veja mais em: 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.

  2. Uma pequena correção:
    A Austria e especificamente Salzburg sofre com problemas de enchente por conta do padrão de uso e ocupação do solo. Em 2002, mais de 10.000 casas foram destruídas e os prejuízos na região foram de cerca de 3.1 bilhoes de Euros.

    http://www.icpdr.org/icpdr-pages/floods.htm

    É óbvio que algumas áreas não devem ser ocupadas, isso nenhum profissional da área discorda. Informar onde pode ou não pode construir é obrigação do poder público.

    Att.
    André Pol

    Comentário do autor,

    E quando foi a enchente anterior a essa? E a Áustria resolver mudar Salzbruck de lugar? Se for o caso do poder público se o grande pai, o Lula deveria aceitar o conselho do INPE e se preparar o Brasil para remover 46 milhões de pessoas das áreas costeiras.

  3. Tirante o fato de o Brasil ser a terra da “esculhambação institucionalizada”, devemos, sim, preocupar-nos com a ocupação das áreas elevadas do Rio de Janeiro. O fato é que é possível, a longo prazo,
    reurbanizar a cidade do Rio de Janeiro ocupando espaços planos, vazios ou ocupados com velharias de casas e edifícios em decomposição. Só não vê quem não quer. Devemos ter em mente restituir a natureza às nossas terras altas, para evitar-se riscos de calamidades e recuperar-se suas belezas com matas nativas.
    De outro lado, tendo em vista as enchentes generalizadas, nas áreas urbanas, devemos repensar e refazer nossos sistemas de drenagem, completamente esclerosados, arcaicos e superados, tecnologicamente.

  4. Temos, sim, vontade de jogar ovos e tomates podres na cara dos nossos governantes.

  5. Esse problema é exatamente o mesmo que ocorreu em Santa Catarina. Proporcionalmente, aqui foi maior. São duas as causas. Uma é a força da natureza. Isso ocorre mesmo em regiões não habitadas. O outro é humano. Tem a ver com ocupação irregular de morros e encostas. Solução? Não tem. O que pode ser feito é minimizar os riscos. Digo que não tem solução por que seria necessário mudar as cidades de lugar, o que é praticamente inviável. É necessário criar normas de ocupação de solo, drenar os rios, proteger encostas e, mais do que tudo, é preciso frear a ganância do mercado imobiliário. Com tudo isso, não acabaremos com os problemas, mas os tornaremos muito menores.
    Detalhe: a culpa não é só dos governos. É da sociedade como um todo.

O que você pensa a respeito?