Controle da Poluição Atmosférica: A Ordem é Vender Catalisadores (por Raquel Valentini)

Ao final de 2009, o Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA aprovou uma resolução em que obriga todos os estados a realizarem vistorias anuais nos veículos. Cada estado deve elaborar seu Plano de Controle de Poluição Veicular dentro do prazo de 12 meses. Os seus membros acreditam que a inspeção deve contribuir para diminuir a emissão de gases poluentes, mesmo com o aumento da frota de veículos no país, acelerada pela redução do IPI para automóveis.

 Além da dúvida sobre a competência legal do CONAMA para estabelecer esse tipo de exigência e da eficácia da medida para reduzir a poluição urbana fora dos grandes centros, outros questionamentos se fazem necessários.

Para a maioria das pessoas que se interessam pelo tema, a “culpa” das emissões de gases e partículas poluentes recai sobre a poluição causada pelos carros em uso. Mas isso é apenas uma parte do processo.  A extração e a produção de materiais para a fabricação de um único carro- foram 3.185.243 unidades fabricadas em 2009, segundo a ANFAVEA – também gera uma imensa quantidade de poluição.

Não se pode manter a consciência tranquila controland0se apenas a emissão de poluentes através de um escapamento, conforme acredita o então ministro Carlos Minc. Alguém já se perguntou a origem das toneladas de aço, plástico, entre outros materiais utilizados para a fabricação de um carro?

 Para a sua fabricação, um carro necessita de diversos componentes. Alguns são adquiridos de fornecedores nacionais, outros só são encontrados no exterior. Ao medir o grau de poluentes emitidos por um automóvel, deve ser levado em consideração não só a forma de extração da matéria-prima, mas a energia utilizada, o tipo de trabalho, os produtos adicionados e o descarte na fabricação, mais o transporte das peças. Mas a atenção será voltada para o processo dos principais componentes:

 De fato, o uso de derivados de petróleo está presente na manufatura dos diversos componentes que serão utilizados para a produção de combustíveis, plásticos, tecidos, tintas, etc. 

Ferro e aço: o minério de ferro é retirado por mineradoras de grandes depósitos naturais, com imensos impactos ambientais.  Os minérios extraídos são transportados para siderúrgicas nacionais ou mercados consumidores de matéria prima internacionais.

Nas siderúrgicas, o minério de ferro é derretido com o uso intensivo de energia e a queima de grandes quantidades de carvão em fornos  que atingem 1600º C de temperatura e expelem finos (poeira) de minério e de carvão, além de  gases –CO, CO2, N2, H2O, CH4, H2 – para a atmosfera.

Os alto-fornos produzem ferro-gusa e escória que fundidos geram o ferro-forjado.  Retira-se o enxofre do ferro-gusa através da dessulfuração e mais uma vez ele derretido para retirada de impurezas e produzir o aço.

Resumindo: esse foi mais um marketing eleitoreiro mal aplicado para quem diz defender o meio ambiente.

Carros continuarão sendo fabricados do mesmo modo e ao facilitar a sua venda em lugar de investir em transporte de massa, o governo continuará a tapar o sol com a peneira. Poucas empresas têm tomado a iniciativa de fabricar materiais sustentáveis e muito menos as que pretendem mudar os materiais utilizados na fabricação de um carro.  Quem sairá ganhando mesmo com isso serão apenas os fabricantes de catalisadores – e catalisadores em nada reduzem a emissão do carbono que causa as mudanças climáticas.

Ganham, também, as empresas privadas que têm contratos para fazerem as medições nos estados que têm programas do tipo proposto pelo CONAMA.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

Um comentário em “Controle da Poluição Atmosférica: A Ordem é Vender Catalisadores (por Raquel Valentini)”

  1. Além de todas os pontos muito bem colocados, gostaria de saber se haverá inspeção também nos veículos do transporte público do país. Estou no RS, estado que se vangloria de ter uma das melhores e mais novas frotas de transporte público do país e, mesmo assim, esses veículos poluem mais do que vários carros juntos … É visível isso …

O que você pensa a respeito?