Florestas Aqui, Emissões Lá – Os “Vazamentos” dos Créditos de Carbono

A farsa do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e dos Créditos de Carbono criados pelos países altamente industrializados com forte apoio do Banco Mundial começa a resultar em novos e lucrativos negócios de implantação de termelétricas a carvão, altamente poluentes.

John Vidal, editor de meio ambiente do jornal inglês The Guardian, denunciou a brincadeira em artigo publicado na última quarta-feira, 14 de julho.

“A ONU se prepara para canalizar bilhões de dólares de dinheiro público dos países ricos para que as grandes empresas de energia construam 20 grandes termelétricas a carvão, altamente poluentes, na China e na Índia sob a alegação de que elas emitirão menos dióxido de carbono do que as atualmente existentes.”

As informações do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas(IPCC, na sigla em ingles) mostram que 12 empresas já apresentaram projetos para obter créditos de carbono que subsidiarão essa iniciativa, e assim não terão que reduzir as suas emissões em seus países de origem. Essas empresas conseguirão subsídios de cerca de US$ 5,25 bilhões (ou R$ 9 bilhões) em créditos de carbono aos preços atuais desse mercado.

“A corrida das empresas para tirar vantagens dos Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL da ONU acelerou-se depois que da aprovação do projeto do grupo indiano Adami para a construção de duas grandes termelétricas em Mundra, na província de Gujarat. A Adami receberá US$ 37,5 milhões (R$ 63,8) por ano ao longo de toda a vida útil de suas novas termelétricas para adotar tecnologias denominadas ‘super-críticas’, que queimam carvão a temperaturas mais baixas e emitem 30% menos dióxido de carbono do que as tecnologias convencionais.”

Na verdade, a tecnologia agora denominada ‘super-crítica’ teve a sua primeira patente concedida em 1922 e começou a ser testada na Alemanha em 1927. Desde então, aperfeiçoamentos foram introduzidos gradativamente até a construção da termelétrica de Yaomeng, na China, em 2001, considerada uma referência tecnológica.

Em abril deste ano, um gigante da mineração de carvão – a Eskom, da África do Sul – recebeu um controvertido empréstimo de US$ 5,6 bilhões do Banco Mundial para construir a maior termelétrica do mundo com o uso desse combustível sujo. Sozinha, essa nova termelétrica emitirá mais dióxido de carbono do que o total emitido por 115 países do mundo.

A Eskom já informou que apresentará proposta para se credenciar a receber créditos de carbono para “compensar as emissões” de uma nova termelétrica a carvão na Inglaterra de maneira a assegurar que este país atinja as suas metas de redução de emissões.

De fato, um recente relatório da União Européia relativo ao comércio de créditos de carbono em 2009 mostrou que uma grande parte do total de US$ 1,2 bilhão em créditos de carbono adquiridos por empresas européias para compensar as suas emissões de carbono para subsidiar a redução das emissões de indústrias do mesmo ramo em países em desenvolvimento.

As termelétricas a carvão competem, assim, com recursos que deveriam ser destinados à promoção de energias limpas.  Os “vazamentos” do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo parecem tão grandes ou maiores do que o vazamento da BP no Golfo do México, ainda que mascarados de políticas públicas internacionais para a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas.  E tudo com as bençãos dos governos dos paises altamente desenvolvidos, do IPCC e do Banco Mundial.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?