Limites às Emissões de Carbono – Senado dos EUA Abandona Projeto de Lei e Todos se Calam

O Senado dos EUA decidiu abandonar qualquer tentativa para aprovar um projeto de lei que limitaria às emissões de carbono dos maiores poluidores do país. O projeto, aprovado por pequena margem pela Câmara dos Deputados, ficou engavetado no Senado por um bom tempo antes de ser definitivamente abandonado em decorrência da resistência tanto de republicanos quanto de democratas.

O silêncio das grandes ONGs sobre o assunto é ensurdecedor.  Nenhum “ativista” algemou-se a um poste diante do Congresso, nenhum senador foi acusado de “exterminador do futuro”.  Nada!  Uma parte do silêncio talvez se deva às dúvidas sobre se essa decisão resultará em aumento ou em redução das doações para as campanhas de proteção de florestas em outros países.

Os argumentos dos senadores para a decisão foram simplórios: a criação de uma taxa federal sobre as emissões de carbono seria passada para os consumidores elevando os preços da eletricidade e dos combustíveis, além de incentivar a indústria a transferir atividades para outros países colocando em risco empregos nos EUA. Ponto.

Os congressistas respondem, evidentemente, às pressões dos lobbies das petroleiras, das carvoeiras e das geradoras de eletricidade, mas se houvesse um clamor de uma parte significativa dos eleitores, a lei seria aprovada, ainda que com as usuais brechas para que a “compensação” fosse feita com as usuais promessas de uns trocados para proteger florestas tropicais.

Esta última hipótese, aliás, deve ganhar impulso. Afinal, Obama terá que se pronunciar de alguma forma no próximo encontro internacional sobre mudanças climáticas a ser realizado no México. Aí, muito provavelmente, a parolagem sobre a necessidade de preservação das florestas deve ser útil para mascarar o usual e radical desinteresse dos EUA pelo “bem comum da humanidade”.

Falar sobre preservação das florestas dos outros e nunca sequer mencionar a recusa dos EUA no que se refere  subscrever à Convenção Sobre a Diversidade Biológica tem sido uma marca registrada dos discursos tanto do governo quanto das grandes ONGs internacionais.

Certa vez, à época em que o Congresso norte-americano recusou-se, pela primeira vez, a ratificar a Convenção Sobre a Biodiversidade, uma subsecretária (vice-ministra) de Justiça do governo dos EUA comentou entre amigos:

“Eu não compreendo. Afinal, tudo o que a Convenção diz é que os países de onde se originarem os recursos biológicos para a produção de bens com valor de mercado terão direito a uma participação justa nas receitas das empresas que produzirem esses bens. Uma participação justa é tão vago! Qual seria a contraproposta: uma participação injusta?”

Ela estava errada!  A proposta real é de participação zero na comercialização de produtos elaborados com base em material genético das florestas tropicais.

Com a decisão norte-americana, não é improvável que a Inglaterra continue a afrouxar as iniciativas relacionadas ao cumprimento de suas próprias leis sobre mudanças climáticas. Afinal, a Inglaterra há muito se comporta mais como uma província dos EUA do que como um país membro da União Européia.

Em ambos os casos, falar sobre florestas em outros países é mais fácil do que assumir responsabilidades com mudanças internas. E ninguém sequer menciona, por exemplo, outras iniciativas que poderiam auxilar a redução dos gases causadores de mudanças climáticas nos países em desenvolvimento, tais como a transferência de tecnologias na área das energias renováveis e da eficiência energética.

Para não ficar “mal na fita”, o Senado dos EUA deverá aprovar uma lei ampliando a responsabilidade das petroleiras em caso de vazamentos de petróleo.

Os EUA continuarão a ser o segundo maior responsável pela emissão de gases causadores de mudanças climáticas do mundo. Até recentemente, quando foram superados pela China, eram o primeiro da lista. Mas há que se dizer que o orçamento do governo da China para energias limpas está sendo, em 2010, o dobro do orçamento dos EUA para os mesmos objetivos.

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Para quem quiser ver os dados internacionais disponíveis com o ranking das emissões por país e por capita (sem o ufanismo brasileiro até nesse campo), os links abaixo são muito esclarecedores:

http://www.nationmaster.com/graph/env_co2_emi_percap-environment-co2-emissions-per-capita

Os dados constantes da Wikipedia também são interessantes e, na página, há um link para as informações da Agência Internacional de Energia que podem ser visualizados tanto em PDF quanto em Excel (em ambos os formatos, disponíveis para dowload).

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_carbon_dioxide_emissions_per_capita

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?