O Mito do Paraíso Perdido e o Ambientalismo Urbano

O mito do paraíso perdido – uma origem na qual o ser humano vivia sem conflitos com a natureza – está presente nas religiões em geral.  Todas elas têm um relato da origem do universo, e nessa cosmogonia houve um momento de harmonia.  Essa ruptura fundamental do ser humano com o Cosmo se expressa com freqüência no sonho de reencontrar o paraíso perdido, atualmente concentrado na mística da Amazônia e da estruturação de um improvável desenvolvimento sustentável.

 A descoberta do Brasil está marcada por essa noção de um reencontro com um paraíso perdido.  E aqui, vale rever a genial e deliciosa obra de Sérgio Buarque de Holanda intitulada justamente A Visão do Paraíso, pai do já mestre Chico Buarque de Holanda e um dos maiores historiadores brasileiros.

Nesse livro, os fatos são revistos com vivacidade característica do autor.  “A crença na realidade física e atual do Éden parecia então inabalável.”  Sérgio Buarque de Holanda chama a atenção para os impactos dessa “secularização de um tema sobrenatural” sobre a História das Américas.

“Do desejo explicável de atribuir-se, nas cartas geográficas, uma posição eminente ao Paraíso Terreal, representado de ordinário no Oriente, de acordo com o texto da Gênesis,  é bem significativo o modelo de mapa-múndi mais correntemente usado.”  (…) o Senhor Deus, tendo criado o homem, em quem insuflou o fôlego da vida e o fez assim alma vivente, plantou para a sua habitação um horto da ‘banda do Oriente’.  Ali espalhou, por toda parte, plantas agradáveis à vista e boas para a comida: no meio destas achava-se a árvore da vida, cujos frutos dariam vida eterna, e a ciência do bem e do mal, única expressamente defesa ao homem, sob pena de morte.”

Desde a Idade Média, buscava-se localizar onde ficava esse paraíso terreno, e as grandes descobertas do Novo Mundo permitem à mística portuguesa o sentimento de que finalmente ele havia sido encontrado.  Gente que não tinha o pecado original e por essa razão não sentia necessidade de esconder as suas “vergonhas”, e que vivia em harmonia com a natureza.  Como era de se esperar, gente igualmente boa para ser escravizada e passada aos milhões – como fizeram os espanhóis com os Maias – ao fio das espadas para que revelassem onde estava o ouro.  Fatos que mais tarde resultariam num inevitável – ainda que vago – sentimento de culpabilidade e tentativa de reparação.  Amor, ódio e reparação, o mito do eterno retorno,e temas similares já exaustivamente estudados.

A leitura da fluente descrição contida na obra de Sérgio Buarque de Holanda – permite o melhor entendimento de algumas das motivações dos movimentos ambientalistas e até mesmo dos esforços para internacionalizar a gestão da Amazônia, agora com a sua “compra” através de doações que nunca chegam, até porque os doadores não sabem exatamente se preferem mantê-la como um Jardim do Mundo ou se é melhor estarem atentos aos minérios que lá podem ser encontrados nesse ainda sobrevivente Eldorado.

Não é à toa que esse “ambientalismo” urbano prefere a Retórica e evita a Lógica ou mesmo a Dialética no momento de debater o novo texto sagrado do Código Florestal.   “A Retórica não visa a distinguir o que é verdadeiro ou certo mas sim fazer com que o próprio receptor da mensagem chegue sozinho à conclusão de que a ideia implícita no discurso representa o verdadeiro ou o certo.”  Nos dias de hoje, a Retórica já assumiu desde a forma midíática do grande evento de meia dúzia de pessoas até as mensagens curtas do twitter que não permite muito mais do que uma centena de caracteres.  A expectativa é de que uma mentira mil vezes repetida torne-se verdade.  Até a descoberta da próxima mega-jazida de alguma coisa que dê muito dinheiro e resulte em boas “compen$ações ambientai$”.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

Um comentário em “O Mito do Paraíso Perdido e o Ambientalismo Urbano”

  1. Ou até um “demônio destruidor do meio ambiente” assinar um convênio milionário com uma ONGs ambiental e virar amigo do meio ambiente. Aí recebera um salvo-conduto para fazer o bem entender com a bênção do zambientalistas e sem ser importunado por emepéios.
    Excelente texto.

O que você pensa a respeito?