Monthly Archive for outubro, 2010

Presidenciáveis (Dilma X Serra), “Verdes” e Gestão Ambiental

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Não existe UM grupo ou movimento que se possa chamar de “ambientalista”, “verde” ou  “ecologista”.  Essas são palavras inventadas pela mídia, mas não conferem qualquer unicidade aos movimentos que assim se autodenominam.  E a prova veio rapidamente assim que se encerrou o primeiro turno das eleições: Marina se eclipsou e os “verdes” partiram na busca de suas melhores oportunidades de ocupação de cargos e das benesses do poder. São dois prá cá, três prá lá.  A política verde é uma política como qualquer outra e, por não ter força, adesista.

Os “verdes” não se consolidaram em nenhum país do mundo.  Dilma e  Serra estão se lixando para a proteção ambiental, mas pegaram alguns motes convenientes do discurso para ficar bem na fita.  Nada diferente de outros líderes políticos em outros países ditos “emergentes”, à exceção da China que já decidiu transformar meio ambiente – genericamente falando – em business as usual, uma oportunidade de negócios e de eficiência econômica como qualquer outra.

Marina, depois que descobriu a palavra “transversalidade”, muito usada por pensadores e psicanalistas franceses na década de 70, encantou-se.  Fala, fala, mas não faz, nunca fez, e não gosta de ouvir os setores da sociedade que realmente trabalham com a questão ambiental de maneira séria: os engenheiros, hidrólogos, geólogos e outros dos órgãos de gestão ambiental do poder público, os agrônomos da EMBRAPA, os especialistas em climatologia do INPA, os produtores rurais que difundiram a prática do plantio direto na palha sem o “alto patrocínio do governo” e colocaram o Brasil entre as referências mundiais nessa área que combina a proteção dos solos com a das águas e da biodiversidade.  Ou seja, transversalidade com a condição de que seja aceita integralmente a pauta dela própria e de seus comparsas das ONGs.

A exclusividade da ênfase na Amazônia faz parte da tática já desmascarada que consiste em fazer mega-estardalhaços com a presença de jornalistas mais jovens para jogar uma cortina de fumaça sobre as máquinas de imprimir licenças nos bastidores, como ocorreu com Belo Monte e com o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – COMPERJ, com total descaso pelas questões ambientais e todas as outras: sociais, urbanísticas, de infra-estrutura de água e esgotos, serviços públicos de educação e saúde, e por aí afora.  A disputa pelo uso do rótulo “sócio-ambiental” é, evidentemente, vazia de conteúdo, tanto ou mais do que o S final do BNDES.

Depois de 45 milhões de metros quadrados de terraplanagem, Itaboraí – onde se localizou erroneamente o COMPERJ –  começa a receber, nos próximos meses, alguns milhares de operários – fala-se, localmente, em contratações diretas de 25.000 pessoas – e a cidade não tem um mínimo de infra-estrutura sequer habitacional, ou de educação, saúde, saneamento básico.  Nada!  As mega-favelas serão inevitáveis.  Os profissionais de melhor salário já estão optando por morar em Niterói ou em outros lugares.  A dúvida, agora, é se Itaboraí ficará pior do que Duque de Caxias ou Macaé, que se “desenvolveram” aos trancos e barrancos.

É isso que os ambientalistas de plantão chamam de desenvolvimento sustentável e de diretrizes políticas sócio-ambientais?  E as emissões do pré-sal, da nova refinaria, da termelétrica à carvão no norte-fluminense, da aciaria chinesa que lá se instalará?  Serão “compensadas” plantando “arvrinhas” ou vamos fazer como os chineses e os países desenvolvidos em meios de transporte menos burros do que os tais “BRT” que agora encantam a cidade do Rio de Janeiro (faixas exclusivas de ônibus, já velhas em Curitiba e em São Paulo, na sigla em inglês Bus Rapid Transit, que atenda à antropofagia cultural os tupiniquins), por exemplo.

A China atingiu, em 2010, a marca de 100 milhões de bicicletas elétricas em circulação e atingirá, em 2012, algo como 15.000 km de ferrovias com trens de alta velocidade que superam em velocidade máxima e média os sistemas ferroviários da Alemanha, da França e do Japão.  Entre outras coisas.

Gestão de recursos ambientais é mesmo coisa séria demais para deixar nas mãos de “verdes” e outros slogans.

Grandes Avanços na Geração Eólica Offshore – Um Cabo Submarino de US$ 5 bilhões

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Enquanto o Brasil avança lentamente na geração de energia eólica e opta por dispendiosas linhas de transmissão em terra firme, os EUA, que não subscrevem a qualquer tratado internacional que envolva metas para a geração de energias limpas mas têm as suas próprias metas, inclusive estaduais, anuncia um projeto que pode revolucionar o setor de geração eólica em alto mar.

Há poucos dias, a Google e a empresa Good Energies anunciaram que participarão dos investimentos num projeto de lançamento de cabos submarinos para a transmissão de energia ao longo de 560 km, com investimentos totais estimados em US$ 5 bilhões.  Cada uma dessas empresas comprometeu-se a aportar 37,5% dos investimentos, e já contam com o apoio da japonesa Marubeni, que ficará com uma participação de 10%. 

A proposta original foi feita pela empresa de transmissão Trans-Elect, que espera iniciar a implantação do projeto em 2013.

O presidente da FERC (sigla da agência regulatória federal de energia elétrica dos EUA, que só age nos projetos interestaduais, ao contrário da nossa ANEEL), John Wllinghoff, afirmou que “conceitualmente parece-me o mais interessante projeto que já vi ser apresentado, permitindo a convergência de muitos projetos de geração ao longo da costa”.

Essa “coluna vertebral” (backbone) terá capacidade para 6.000 MW, o equivalente à geração de cinco grandes reatores nucleares e percorrerá águas federais consideradas pouco profundas a distâncias entre 15 e 20 km da costa.  A idéia é captar energia eólica numa região onde os ventos são fortes e as turbinas não seriam visíveis, eliminando assim um dos obstáculos mais freqüentes com que se defronta a expansão dos projetos de geração eólica nos EUA.

A Trans-Elect estima os custos iniciais de construção em US$ 5 bilhões, aos quais deverão se acrescidos os custos financeiros e de licenciamento.  Os investimentos na primeira fase serão da ordem de US$ 1,8 bilhão, num trecho de 240 km, e o projeto poderá entrar em operação em 2016.  

Antes mesmo da implantação dos projetos de geração eólica, o novo sistema permitirá a transmissão de eletricidade do sul da Virgínia, onde a geração tem baixo custo, para o norte de Nova Jersey, onde a geração é bem mais cara, eliminando obstáculos à transmissão e reduzindo o preço da energia para os clientes do norte por permitir que essa transmissão através de uma das mais congestionadas áreas dos EUA.

A geração eólica no mar tem custos bem mais elevados do que a geração com carvão ou gás natural, ou mesmo do que a geração eólica em terra firme.  Mas os especialistas esperam uma demanda crescente de turbinas offshore para que sejam alcançadas as exigências dos estados relativas à participação de energias limpas na matriz energética em substituição aos combustíveis fósseis.

A redução dos pontos de interconexão a apenas quatro simplificaria o trabalho de trazer a energia para a terra e os obstáculos com a obtenção de licenças, em contraste com a implantação de linhas de transmissão em terra, onde as empresas têm que negociar com centenas de proprietários.  Nesse projeto, as negociações seriam feitas com apenas quatro, e menos ainda na primeira fase.

Mesmo as organizações ambientalistas mais radicais, como o Sierra Club, que lutam contra novos projetos de linhas de transmissão no país, já se posicionaram favoravelmente ao novo projeto.

“Esse tipo de idéia audaciosa pode ser justamente o que precisamos para evitar os impactos profundamente negativos das linhas de transmissão em terra”, afirmou entusiasmada a diretora para campanhas nacionais do Sierra Club, Melinda Pierce.

Projetos offshore já se defrontaram com a oposição feroz dos residentes na costa de Massachussets que viram neles um dano à paisagem oceânica.  Representantes da Tans-Elect afirmam que o novo projeto permitirá a instalação de turbinas com impactos visuais insignificantes.

Os obstáculos ao projeto serão maiores no que se refere aos procedimentos administrativos do que na engenharia ou nos custos econômicos, afirmaram diversos especialistas. No momento em que o Ministério do Interior der as autorizações, por exemplo, os subsídios federais para os programas eólicos já poderão ter o seu prazo expirado – os atuais subsídios expiram em 2012, afirmou o professor Willett Kempton, da Escola de Ciências e de Políticas Marítimas da Universidade de Delaware.

Vale ressaltar que os projetos de energias renováveis há muito contam com fortes incentivos fiscais e financeiros nos EUA – incluindo isenções na tributação sobre os rendimentos -, ao contrário do Brasil, onde esses custos mais elevados são distribuídos entre os consumidores.

O mesmo ocorre com outros subsídios que não são discriminados nas contas de eletricidade, como é o caso da Conta de Consumo de Combustíveis – CCC, que subsidia o transporte de combustíveis fósseis para as regiões não conectadas à rede, em especial na Amazônia, e que no ano em curso deve superar os R$ 4 bilhões.

A ocultação intencional desses custos e subsídios é um obstáculo à tomada de consciência da população para que possa se posicionar em relação à formulação de políticas públicas e até mesmo escolher fontes de energia limpas, ainda quando mais caras.  Energia nuclear, como a energia que será gerada em Monte Belo, também têm custos muito mais elevados, mas aos consumidores não é dada a opção por energias limpas, como ocorre nos países sérios.

No Brasil tampouco existem metas estaduais definidas.

(Com informações do New York Times, parcialmente traduzidas)

Marina Silva – Transitória e Retrógrada

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Nm trabalho coordenado pelo cientista político Romero Jacob, a PUC-RJ, mostra aquilo que o jornalista Merval Pereira denominou “a maldição do terceiro colocado”.  Entre os terceiros colocados em eleições anteriores encontram-se Enéas (1994), Ciro (1998), Garotinho (2002) e Heloísa Helena (2006).  Nenhum deles conseguiu se transformar numa liderança política de expressão nacional e, em alguns casos, nem mesmo local.

Com Marina Silva não será diferente.  O total de seus votos foi menor do que o número de abtenções somado aos votos brancos e nulos.  A votação de Marina resultou muito mais da insatisfação do eleitorado com a mesmice do morno debate político entre Serra e Dilma do que da pretendida “onda verde”, que não tirou o PV de seu já tradicional “naniquismo”: a bancada do PV subiu de 13 para 15 o número de deputados no Congresso Nacional – quem tem 513 deputados -, perdeu a sua única cadeira no Senado (Marina foi eleita pelo PT e depois bandeou-se para o PV naquilo que se define como infidelidade partidária) e, nos estados, o total de deputados “pevistas” subiu apenas de 34 para 37 representantes eleitos, apesar de 1.400 candidatos terem sido lançados.  Ou seja, nada, absolutamente nada a comemorar.

A capacidade de Marina de transferir votos é ínfima ou desprezível.  E a do PV de impor condições, é nula, dado o tamanho de sua bancada.

Seria muito bom mesmo se uma onda de interesse pelas questões ambientais tivesse ocorrido!  Em especial num país que pouco avançou na coleta e no tratamento de esgotos e  na coleta e disposição adequada de resíduos urbanos; que não apresentou resultados na despoluição dos rios e lagoas, na proteção de seus recursos hídricos subterrâneo, na efetiva implantação de seus parques nacionais e estaduais, na adoção de sistemas de transporte menos poluentes (continuamos nas rodovias e ônibus), no domínio e adoção de tecnologias de eficiência energética, e por aí afora.  A onda verde foi apenas uma frase de efeito, com pouco ou nenhum efeito.

Dotado de imenso potencial hidrelétrico – cuja exploração a custos competitivos  já começa a se exaurir -, o país continua a se vangloriar de sua matriz energética limpa e da já antiga produção de etanol, ao mesmo tempo que se volta para novas reservas de petróleo como a grande esperança de riqueza futura.  Tsc, tsc, tsc.

Enquanto isso, os programas de redução de carbono praticamente se limitam à questão do desmatamento e às “compensações ambientais” com o plantio de árvores, evidenciando uma abordagem evidentemente muito limitada se o objetivo é alcançar uma sociedade de baixo emissão carbono.  Tais limitações saltam aos olhos de quem não está cego por dogmas ou tem recursos intelectuais limitados ao “dia da árvore”.  Em particular num período em que se acelera novamente a migração de indústrias de alta emissão de carbono de outros países para cá, como vem ocorrendo com as indústrias de ferro gusa e de aço, desde as alemães até as chinesas, e cresce rapidamente o número de veículos e de termelétricas.

Em resumo, nunca tivemos, no Brasil, uma política pública de gestão ambiental consistente, com  metas e resultados efetivos.  Nada que se possa assemelhar aos resultados alcançados nos países desenvolvidos!

Durante o tempo em que permaneceu à frente do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Marina Silva conseguiu poucos ou nenhum avançoa nas áreas antes citadas, ainda que tenha conquistado uma boa visibilidade nacional e internacional com o samba de uma nota só da redução do desmatamento na Amazônia.  E mesmo na Amazônia, foi ela quem licenciou as hidrelétrticas do rio Madeira, em Rondônia, com razoável descaso pelos impactos sociais.  Nada diferente de muitas outras hidrelétricas do passado.

Quanto ao resto, os avanços na efetiva implantação dos parques nacionais – com vias de acesso e infraestrutura de visitação – foram pífios, apesar dos elevados recursos financeiros doados por fontes estrangeiras para essa finalidade específica, recursos que desapareceram sem deixar vestígios.  Nada ou quase nada na área do saneamento básico, nem mesmo para os amazônidas dos quais ela se auto-proclama legítima representante.

Marina é a encarnação do pensamento mais retrógrado em matéria de gestão ambiental.  Nesse campo, ela continua em Xapuri.

Se os candidatos que foram para o segundo turno quiserem realmente debater meio ambiente, é melhor diversificarem tanto o discurso quanto suas fontes de informação, porque esses verdes de ONGs e pevistas não somam ao debate, à formulação de políticas públicas e nem aos votos.

E se quiserem falar do Código Florestal, ficarão melhor se ouvirem a atual ministra do Meio Ambiente do que os demais gestores públicos que atuam nesse campo, que se omitem, não dizem o que pensam ou não pensam nada, quando não optam por puxa o saco das ONGs para “ficar bem na fita” dos tapetões.  Por ser uma profissional de carreira sem interesses no estrelato e na politicagem, Izabella Teixeira vem falando sobre o Código Florestal de maneira bem mais sensata do que todos os seus antecessores e os políticos ”verdes” em geral.  Uma entrevista dela pode ser vista clicando aqui.  E é muito enriquecedora!

As Petroleiras Destroem a Nigéria – E o Silêncio Intencional é Ensurdecedor

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O fotojornalista Ed Kash documentou as conseqüências das atividades das petrolíferas no delta do rio Niger. Algumas das fotos, mostradas pelo jornal inglês The Guardian, foram expostas na galeria The Host, em Londres, em 2010.

Na região, as pessoas já não conseguem viver em decorrência da água envenenada e da impossibilidade de cultivar a terra cuja produtividade caiu drasticamente em decorrência das chuvas ácidas.

Cerca de 20 mil hectares de manguezais desapareceram do delta do Niger, com efeitos devastadores sobre a pesca, ainda que exista um tratado internacional sobre a proteção de manguezais que está em vigor e foi subscrito até mesmo pelos EUA, que não gostam de acordos externos que não lhes sejam favoráveis, e pela Inglaterra, que ainda não se decidiu se é um país membro da União Européia ou uma província norte-americana.

As estimativas são de que 9 milhões de barris de petróleo vazaram nos últimos 50 anos, contaminando a terra e a água.

Da série de fotos que podem ser vistas no link abaixo, a 8/20 mostra trabalhadores de uma empresa terceirizada da Shell em caricata operação de limpeza de um poço abandonado. Em caso de dúvida, é isso mesmo que se vê: o único com uniforme da Shell, em primeira plano, é uma espécie de capataz armado com um facão.

Na todo 6/20, a legenda informa que centenas de pontos de queima encontram-se em constante atividade, liberando gases causadores de mudanças climáticas.

Esses gases não constam de nenhum inventário internacional desses que colocam o Brasil entre os principais países responsáveis por essas emissões.

A foto 1/20 trás na legenda a informação de que o vazamento continua num poço abandonado pela Shell há 25 anos.

Na foto 2/20 é possível ver as condições de trabalho e da legenda consta a informação de que a destruição do delta e as chuvas ácidas liquidaram com a pesca que historicamente alimentou essa população.

Este tema já foi objeto de um artigo no blog à época do vazamento de petróleo no Golfo do México, mas como as imagens falam por si mesmas e mais alto, vale vê-las clicando aqui.

As petroleiras responsávei por tal devastação têm ISO 14.000, estão listadas nas bolsas dos países desenvolvidos como socio-ambientalmente corretas, fazem marketing usando a “sustentabilidade da cadeia produtiva”, etc.  E tambem fazem doações a ONGs com atuação internacional na defesa das florestas tropicais, que silenciam e se omitem quando se trata de algo que não seja visível para a opinião pública.

No Brasil, a Shell investe pesadamente no setor de produção de etanol e afirma querer transformar o país numa plataforma internacional para a exportação sesse combustível.  Os tais créditos de carbono vão para os países importadores, é claro.

EUA Pedem Desculpas por Contaminar Guatemaltecos com Sífilis

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Entre 1946 e 1948, médicos do sistema público de saúde dos Estados Unidos da América do Norte infectaram cerca de 700 cidadãos da Guatemala – prisioneiros, pacientes psiquiátricos e soldados – com doenças venéreas com a justificativa de testar a eficiência da penicilina.

O Instituto Nacional de Saúde do governo dos EUA chegou a pagar a prostitutas com sífilis para dormir com os prisioneiros, dado que o sistema prisional da Guatemala permitia visitas íntimas.  Quando a prática sexual com essas prostitutas não contaminava os prisioneiros, incisões eram feitas em seus pênis, faces e braços, e nessas incisões eram colocadas as bactérias.  Em alguns casos, as bactérias foram injetadas diretamente na medula.

Se os pacientes contraiam a doença, eles eram tratados com antibióticos.

“No entanto, não é claro se os pacientes foram, então curados”, declarou Susan M. Reverby, professora da Faculdade de Wellesley, que divulgou a ocorrência desses experimentos numa publicação e forçou as autoridades de saúde a iniciarem investigações.

As revelações, tornadas públicas no último dia 30 de setembro, quando a Secretária de Estado Hillary Clinton e a Secretária de Saúde e Serviços Humanos Latjçeem Sebelius pediram desculpas ao governo da Guatemala, bem como aos sobreviventes que foram infectados e seus descendentes.  Eles afirmaram que os experimentos foram “claramente sem ética”.

“Embora esses eventos tenham ocorrido há 64 anos, nós nos sentimos ultrajados com o fato deles terem sido feitos com a máscara da saúde pública”, as duas secretárias afirmaram.  “Nós lamentamos profundamente o que aconteceu e pedimos desculpas aos indivíduos afetados por essas repulsivas práticas de pesquisa”.

Num detalhe das revelações agora feitas, fica-se sabendo que o médico do setor público que conduziu essas experiências, John. C. Cutler, teve mais tarde um importante papel num estudo feito em Tuskegee, no Alabama, no qual negros norte-americanos contaminados pela sífilis foram deliberadamente deixados sem tratamento durante décadas.  Até o final da sua vida, o Dr. Cutler continuou defendendo este trabalho.

A sua pesquisa não publicada feita na Guatemala foi encontrada recentemente nos arquivos da Universidade de Pittsburgh pela professora Reverby, uma historiadora da medicina que já escreveu dois livros sobre os experimentos de Tuskegee.

O presidente Álvaro Colom, da Guatemala, que ficou sabendo dessas ocorrências em seu país no dia 29 de setembro, através de um telefonema feito por Hillary Clinton, afirmou que as informações deixam qualquer um “com os cabelos em pé” e são “crimes contra a humanidade”.  O seu governo disse que cooperará com as autoridades norte-americanas nas investigações.

Tais experimentos foram “um capítulo escuro na história da medicina”, afirmou o Dr. Francis S. Collins, do Instituto Nacional de Medicina.  As modernas regras para as pesquisas financiadas com recursos federais “proíbem absolutamente” a infecção de pessoas sem que elas estejam informadas e consintam, afirmou o Dr. Collins.

A professora Reverby apresentou as suas descobertas sobre as experiências conduzidas na Guatemala numa conferência em janeiro de 2010, mas ninguém prestou atenção, ela afirmou numa entrevista telefônica nesta sexta-feira, 30 de setembro.  Em junho, ela enviou para o Dr. David J. Spencer, ex-diretor do Centro de Controles de Doenças, uma síntese de um artigo para publicação na edição de janeiro de 2011 do Jornal da História Política.  Ele, então, pediu ao governo que investigasse.

Nos anos de 1940, informou a professora Reverby, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos “estavam muito interessados em saber se a penicilina poderia ser usada para prevenir, e não apenas para curar, a infecção por sífilis, e se testes sanguíneos mais acurados poderiam ser desenvolvidos, que dosagens de penicilina eram necessárias para curar a infecção, e em entender os processos de reinfecção depois das curas”.

Eles tinham dificuldades de cultivar a sífilis em laboratórios, e os testes com coelhos e com chipanzés não eram pouco esclarecedores sobre a ação da penicilina nos seres humanos.

Em 1944, “voluntários” foram infectados na Penitenciária da Terra Alta, na Indiana, com gonorréia cultivada em laboratório, mas foi difícil contaminar as pessoas dessa maneira.

Em 1946, o Dr. Cutler pediu para liderar uma missão à Guatemala, que foi encerrada dois anos depois, em parte como decorrência das “fofocas” médicas sobre o trabalho, afirmou a professora Reverby, mas em parte porque grandes quantidades de penicilina estavam sendo usadas, e esse medicamento ainda era caro e não muito abundante.

O Dr. Cutler se uniu, mais tarde, ao estudo feito em Tuskegee, no Alabama, que havia começado de maneira relativamente inócua em 1932 através da observação da progressão da sífilis em indivíduos negros do sexo masculino.  Em 1972, revelou-se que mesmo depois da invenção dos antibióticos, os médicos esconderam o fato dos pacientes para continuar a estudá-los.  O doutor Cutler, que faleceu em 2003, defendeu esses experimentos num documentário feito em 1993.

Sonegação de informações foi o método utilizado na Guatemala, afirmou a professora Reverby.  O doutor Thomas Parran, “cirurgião-geral” (um cargo do governo norte-americano) que supervisionou o começo do experimento de Tuskegee, reconheceu que o trabalho na Guatemala não poderia ter sido feito “domesticamente”, e que os detalhes foram escondidos das autoridades guatemaltecas.

A professora Reverby informou que encontrou algumas das anotações do doutor Cutler na Universidade de Pittsburgh, onde ele lecionou até 1985, enquanto ela fazia pesquisas sobre o doutor Parran

“Enquanto eu os folheava, eu encontrei Guatemala… inoculação…e pensei – que coisa mais estranha é essa?.  O meu parceiro estava comigo e eu lhe disse você não vai acreditar nisso.”

Fernando de la Cerda, conselheiro da embaixada da Guatemala em Washington, confirmou que Hllary Clinton havia pedido desculpas ao presidente Colom no dia 29 de setembro, pelo telefone.  “Nós agradecemos aos EUA por sua transparência na confirmação dos fatos”, ele disse.

Questionado sobre a possibilidade de indenização aos sobreviventes e seus descendentes, o conselheiro la Cerda disse que ainda não havia clareza sobre isso.

As respostas públicas dadas pelos sites de notícias da Guatemala expressaram fúria.  Um comentarista, Cesar Duran, na página Prensa Libre, escreveu: “DESCULPAS.. por favor… isso é o que já veio à luz, mas o que ainda permanece escondido?  Eles deveriam pagar uma indenização ao Estado da Guatemala, e não apenas se desculparem.”

O doutor Mark Siegle, diretor do Centro de Ética da Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Chicago, afirmou que ele estava atordoado: “Isso é chocante, e muito pior do que Tuskegee – pelo menos aqueles homens foram infectados por meios naturais.”

E ele concluiu: “É ironico – não, é pior que isso, é vergonhoso que no mesmo período em que os Estados Unidos estava processando médicos nazistas por crimes contra a humanidade, o governo dos Estados Unidos estava apoiando pesquisas que colocavam seres humanos em grande risco”.

Os processos de Nuremberg contra os médicos nazistas que fizeram experimentos com prisioneiros e internos levaram a um código de ética que, no entanto, ainda não tinha força de lei.  Em 1964, na Declaração de Helsinque, as associações médicas de muitos países adotaram o código.

O escândalo de Tuskegee e as audiências conduzidas pelo senador Edward Kennery estabeleceram os fundamentos para a legislação dos Estados Unidos promulgadas em 1981 estabelecendo regras para a pesquisa médica usando seres humanos – afirmou o doutor Siegler.

Ela foi antecedida de outros escândalos domésticos.  De 1963 a 1966, pesquisadores da Escola de Willowbrook, na Ilha de Staten, infectaram crianças retardadas com hepatite para fazer testes de gamaglobulina.  E em 1963, pacientes idosos do Hospital Judaico de Doenças Crônicas foram injetados com células vivas de câncer para ver se elas causavam tumores.

Por Donald G. McNeil, Jr. – Colaborou Elisabeth Malkin da Cidade do México – publicado no New York Times de 1 de outubro de 2010

Nota do autor do blog – Este blog nunca publicou traduções de publicações feitas em jornais ou revistas, excetuados alguns trechos e sempre no contexto de uma linha de raciocínio e análise.

Esta notícia, publicada ontem no New York Times, no entanto, é chocante que dispensa comentários, exceto um: os EUA nunca se desculparam pela invasão do Vietnam, feita com base num ataque forjado e sem que nunca fosse declarada a guerra; tampouco se desculparam pelo uso de armas químicas que mataram centenas de milhares de civis vietnamitas de maneira indiscriminada, e continuam matando através de seus efeitos tardios; tampouco deram qualquer contribuição para a retirada de minas terrestres que até hoje matam e mutilam no Vietnam, no Laos e no Camboja.