EUA Pedem Desculpas por Contaminar Guatemaltecos com Sífilis

Entre 1946 e 1948, médicos do sistema público de saúde dos Estados Unidos da América do Norte infectaram cerca de 700 cidadãos da Guatemala – prisioneiros, pacientes psiquiátricos e soldados – com doenças venéreas com a justificativa de testar a eficiência da penicilina.

O Instituto Nacional de Saúde do governo dos EUA chegou a pagar a prostitutas com sífilis para dormir com os prisioneiros, dado que o sistema prisional da Guatemala permitia visitas íntimas.  Quando a prática sexual com essas prostitutas não contaminava os prisioneiros, incisões eram feitas em seus pênis, faces e braços, e nessas incisões eram colocadas as bactérias.  Em alguns casos, as bactérias foram injetadas diretamente na medula.

Se os pacientes contraiam a doença, eles eram tratados com antibióticos.

“No entanto, não é claro se os pacientes foram, então curados”, declarou Susan M. Reverby, professora da Faculdade de Wellesley, que divulgou a ocorrência desses experimentos numa publicação e forçou as autoridades de saúde a iniciarem investigações.

As revelações, tornadas públicas no último dia 30 de setembro, quando a Secretária de Estado Hillary Clinton e a Secretária de Saúde e Serviços Humanos Latjçeem Sebelius pediram desculpas ao governo da Guatemala, bem como aos sobreviventes que foram infectados e seus descendentes.  Eles afirmaram que os experimentos foram “claramente sem ética”.

“Embora esses eventos tenham ocorrido há 64 anos, nós nos sentimos ultrajados com o fato deles terem sido feitos com a máscara da saúde pública”, as duas secretárias afirmaram.  “Nós lamentamos profundamente o que aconteceu e pedimos desculpas aos indivíduos afetados por essas repulsivas práticas de pesquisa”.

Num detalhe das revelações agora feitas, fica-se sabendo que o médico do setor público que conduziu essas experiências, John. C. Cutler, teve mais tarde um importante papel num estudo feito em Tuskegee, no Alabama, no qual negros norte-americanos contaminados pela sífilis foram deliberadamente deixados sem tratamento durante décadas.  Até o final da sua vida, o Dr. Cutler continuou defendendo este trabalho.

A sua pesquisa não publicada feita na Guatemala foi encontrada recentemente nos arquivos da Universidade de Pittsburgh pela professora Reverby, uma historiadora da medicina que já escreveu dois livros sobre os experimentos de Tuskegee.

O presidente Álvaro Colom, da Guatemala, que ficou sabendo dessas ocorrências em seu país no dia 29 de setembro, através de um telefonema feito por Hillary Clinton, afirmou que as informações deixam qualquer um “com os cabelos em pé” e são “crimes contra a humanidade”.  O seu governo disse que cooperará com as autoridades norte-americanas nas investigações.

Tais experimentos foram “um capítulo escuro na história da medicina”, afirmou o Dr. Francis S. Collins, do Instituto Nacional de Medicina.  As modernas regras para as pesquisas financiadas com recursos federais “proíbem absolutamente” a infecção de pessoas sem que elas estejam informadas e consintam, afirmou o Dr. Collins.

A professora Reverby apresentou as suas descobertas sobre as experiências conduzidas na Guatemala numa conferência em janeiro de 2010, mas ninguém prestou atenção, ela afirmou numa entrevista telefônica nesta sexta-feira, 30 de setembro.  Em junho, ela enviou para o Dr. David J. Spencer, ex-diretor do Centro de Controles de Doenças, uma síntese de um artigo para publicação na edição de janeiro de 2011 do Jornal da História Política.  Ele, então, pediu ao governo que investigasse.

Nos anos de 1940, informou a professora Reverby, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos “estavam muito interessados em saber se a penicilina poderia ser usada para prevenir, e não apenas para curar, a infecção por sífilis, e se testes sanguíneos mais acurados poderiam ser desenvolvidos, que dosagens de penicilina eram necessárias para curar a infecção, e em entender os processos de reinfecção depois das curas”.

Eles tinham dificuldades de cultivar a sífilis em laboratórios, e os testes com coelhos e com chipanzés não eram pouco esclarecedores sobre a ação da penicilina nos seres humanos.

Em 1944, “voluntários” foram infectados na Penitenciária da Terra Alta, na Indiana, com gonorréia cultivada em laboratório, mas foi difícil contaminar as pessoas dessa maneira.

Em 1946, o Dr. Cutler pediu para liderar uma missão à Guatemala, que foi encerrada dois anos depois, em parte como decorrência das “fofocas” médicas sobre o trabalho, afirmou a professora Reverby, mas em parte porque grandes quantidades de penicilina estavam sendo usadas, e esse medicamento ainda era caro e não muito abundante.

O Dr. Cutler se uniu, mais tarde, ao estudo feito em Tuskegee, no Alabama, que havia começado de maneira relativamente inócua em 1932 através da observação da progressão da sífilis em indivíduos negros do sexo masculino.  Em 1972, revelou-se que mesmo depois da invenção dos antibióticos, os médicos esconderam o fato dos pacientes para continuar a estudá-los.  O doutor Cutler, que faleceu em 2003, defendeu esses experimentos num documentário feito em 1993.

Sonegação de informações foi o método utilizado na Guatemala, afirmou a professora Reverby.  O doutor Thomas Parran, “cirurgião-geral” (um cargo do governo norte-americano) que supervisionou o começo do experimento de Tuskegee, reconheceu que o trabalho na Guatemala não poderia ter sido feito “domesticamente”, e que os detalhes foram escondidos das autoridades guatemaltecas.

A professora Reverby informou que encontrou algumas das anotações do doutor Cutler na Universidade de Pittsburgh, onde ele lecionou até 1985, enquanto ela fazia pesquisas sobre o doutor Parran

“Enquanto eu os folheava, eu encontrei Guatemala… inoculação…e pensei – que coisa mais estranha é essa?.  O meu parceiro estava comigo e eu lhe disse você não vai acreditar nisso.”

Fernando de la Cerda, conselheiro da embaixada da Guatemala em Washington, confirmou que Hllary Clinton havia pedido desculpas ao presidente Colom no dia 29 de setembro, pelo telefone.  “Nós agradecemos aos EUA por sua transparência na confirmação dos fatos”, ele disse.

Questionado sobre a possibilidade de indenização aos sobreviventes e seus descendentes, o conselheiro la Cerda disse que ainda não havia clareza sobre isso.

As respostas públicas dadas pelos sites de notícias da Guatemala expressaram fúria.  Um comentarista, Cesar Duran, na página Prensa Libre, escreveu: “DESCULPAS.. por favor… isso é o que já veio à luz, mas o que ainda permanece escondido?  Eles deveriam pagar uma indenização ao Estado da Guatemala, e não apenas se desculparem.”

O doutor Mark Siegle, diretor do Centro de Ética da Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Chicago, afirmou que ele estava atordoado: “Isso é chocante, e muito pior do que Tuskegee – pelo menos aqueles homens foram infectados por meios naturais.”

E ele concluiu: “É ironico – não, é pior que isso, é vergonhoso que no mesmo período em que os Estados Unidos estava processando médicos nazistas por crimes contra a humanidade, o governo dos Estados Unidos estava apoiando pesquisas que colocavam seres humanos em grande risco”.

Os processos de Nuremberg contra os médicos nazistas que fizeram experimentos com prisioneiros e internos levaram a um código de ética que, no entanto, ainda não tinha força de lei.  Em 1964, na Declaração de Helsinque, as associações médicas de muitos países adotaram o código.

O escândalo de Tuskegee e as audiências conduzidas pelo senador Edward Kennery estabeleceram os fundamentos para a legislação dos Estados Unidos promulgadas em 1981 estabelecendo regras para a pesquisa médica usando seres humanos – afirmou o doutor Siegler.

Ela foi antecedida de outros escândalos domésticos.  De 1963 a 1966, pesquisadores da Escola de Willowbrook, na Ilha de Staten, infectaram crianças retardadas com hepatite para fazer testes de gamaglobulina.  E em 1963, pacientes idosos do Hospital Judaico de Doenças Crônicas foram injetados com células vivas de câncer para ver se elas causavam tumores.

Por Donald G. McNeil, Jr. – Colaborou Elisabeth Malkin da Cidade do México – publicado no New York Times de 1 de outubro de 2010

Nota do autor do blog – Este blog nunca publicou traduções de publicações feitas em jornais ou revistas, excetuados alguns trechos e sempre no contexto de uma linha de raciocínio e análise.

Esta notícia, publicada ontem no New York Times, no entanto, é chocante que dispensa comentários, exceto um: os EUA nunca se desculparam pela invasão do Vietnam, feita com base num ataque forjado e sem que nunca fosse declarada a guerra; tampouco se desculparam pelo uso de armas químicas que mataram centenas de milhares de civis vietnamitas de maneira indiscriminada, e continuam matando através de seus efeitos tardios; tampouco deram qualquer contribuição para a retirada de minas terrestres que até hoje matam e mutilam no Vietnam, no Laos e no Camboja.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

4 comentários sobre “EUA Pedem Desculpas por Contaminar Guatemaltecos com Sífilis”

  1. Aterrador, chocante, nojento e uma simples “desculpa” não é suficiente!

  2. Afinal, quantas doenças existem no mundo com índices de mortalidade exponencialmente maiores do que a sífilis?
    É tudo um lobby empresarial da indústria farmacêutica que fará uns quantos ganharem quantias inimagináveis à custa da (no mínimo) saúde de milhões de pessoas.Foi assim com a Penicilina, com o Tamiflu, etc, etc, e será assim sempre. O mais triste disso tudo é que a população dos países de terceiro mundo é que é usada como cobaia sempre.

  3. Nem sempre a população dos países que não são sérios – o tal terceiro mundo -, já que eles testaram muitos medicamentos infectando as suas próprias pópulações, e os soldados que foram para o Vietnam e ficaram expostos ao Agente Laranja nunca receberam um tostão de indenização.

  4. ESTA É APENAS UMA MINI PORÇÃO DOS HORRORES JA FEITOS E AINDA SENDO FEITOS EM SURDINA, NA POPULAÇÃO MUNDIAL.

O que você pensa a respeito?