Grandes Avanços na Geração Eólica Offshore – Um Cabo Submarino de US$ 5 bilhões

Enquanto o Brasil avança lentamente na geração de energia eólica e opta por dispendiosas linhas de transmissão em terra firme, os EUA, que não subscrevem a qualquer tratado internacional que envolva metas para a geração de energias limpas mas têm as suas próprias metas, inclusive estaduais, anuncia um projeto que pode revolucionar o setor de geração eólica em alto mar.

Há poucos dias, a Google e a empresa Good Energies anunciaram que participarão dos investimentos num projeto de lançamento de cabos submarinos para a transmissão de energia ao longo de 560 km, com investimentos totais estimados em US$ 5 bilhões.  Cada uma dessas empresas comprometeu-se a aportar 37,5% dos investimentos, e já contam com o apoio da japonesa Marubeni, que ficará com uma participação de 10%. 

A proposta original foi feita pela empresa de transmissão Trans-Elect, que espera iniciar a implantação do projeto em 2013.

O presidente da FERC (sigla da agência regulatória federal de energia elétrica dos EUA, que só age nos projetos interestaduais, ao contrário da nossa ANEEL), John Wllinghoff, afirmou que “conceitualmente parece-me o mais interessante projeto que já vi ser apresentado, permitindo a convergência de muitos projetos de geração ao longo da costa”.

Essa “coluna vertebral” (backbone) terá capacidade para 6.000 MW, o equivalente à geração de cinco grandes reatores nucleares e percorrerá águas federais consideradas pouco profundas a distâncias entre 15 e 20 km da costa.  A idéia é captar energia eólica numa região onde os ventos são fortes e as turbinas não seriam visíveis, eliminando assim um dos obstáculos mais freqüentes com que se defronta a expansão dos projetos de geração eólica nos EUA.

A Trans-Elect estima os custos iniciais de construção em US$ 5 bilhões, aos quais deverão se acrescidos os custos financeiros e de licenciamento.  Os investimentos na primeira fase serão da ordem de US$ 1,8 bilhão, num trecho de 240 km, e o projeto poderá entrar em operação em 2016.  

Antes mesmo da implantação dos projetos de geração eólica, o novo sistema permitirá a transmissão de eletricidade do sul da Virgínia, onde a geração tem baixo custo, para o norte de Nova Jersey, onde a geração é bem mais cara, eliminando obstáculos à transmissão e reduzindo o preço da energia para os clientes do norte por permitir que essa transmissão através de uma das mais congestionadas áreas dos EUA.

A geração eólica no mar tem custos bem mais elevados do que a geração com carvão ou gás natural, ou mesmo do que a geração eólica em terra firme.  Mas os especialistas esperam uma demanda crescente de turbinas offshore para que sejam alcançadas as exigências dos estados relativas à participação de energias limpas na matriz energética em substituição aos combustíveis fósseis.

A redução dos pontos de interconexão a apenas quatro simplificaria o trabalho de trazer a energia para a terra e os obstáculos com a obtenção de licenças, em contraste com a implantação de linhas de transmissão em terra, onde as empresas têm que negociar com centenas de proprietários.  Nesse projeto, as negociações seriam feitas com apenas quatro, e menos ainda na primeira fase.

Mesmo as organizações ambientalistas mais radicais, como o Sierra Club, que lutam contra novos projetos de linhas de transmissão no país, já se posicionaram favoravelmente ao novo projeto.

“Esse tipo de idéia audaciosa pode ser justamente o que precisamos para evitar os impactos profundamente negativos das linhas de transmissão em terra”, afirmou entusiasmada a diretora para campanhas nacionais do Sierra Club, Melinda Pierce.

Projetos offshore já se defrontaram com a oposição feroz dos residentes na costa de Massachussets que viram neles um dano à paisagem oceânica.  Representantes da Tans-Elect afirmam que o novo projeto permitirá a instalação de turbinas com impactos visuais insignificantes.

Os obstáculos ao projeto serão maiores no que se refere aos procedimentos administrativos do que na engenharia ou nos custos econômicos, afirmaram diversos especialistas. No momento em que o Ministério do Interior der as autorizações, por exemplo, os subsídios federais para os programas eólicos já poderão ter o seu prazo expirado – os atuais subsídios expiram em 2012, afirmou o professor Willett Kempton, da Escola de Ciências e de Políticas Marítimas da Universidade de Delaware.

Vale ressaltar que os projetos de energias renováveis há muito contam com fortes incentivos fiscais e financeiros nos EUA – incluindo isenções na tributação sobre os rendimentos -, ao contrário do Brasil, onde esses custos mais elevados são distribuídos entre os consumidores.

O mesmo ocorre com outros subsídios que não são discriminados nas contas de eletricidade, como é o caso da Conta de Consumo de Combustíveis – CCC, que subsidia o transporte de combustíveis fósseis para as regiões não conectadas à rede, em especial na Amazônia, e que no ano em curso deve superar os R$ 4 bilhões.

A ocultação intencional desses custos e subsídios é um obstáculo à tomada de consciência da população para que possa se posicionar em relação à formulação de políticas públicas e até mesmo escolher fontes de energia limpas, ainda quando mais caras.  Energia nuclear, como a energia que será gerada em Monte Belo, também têm custos muito mais elevados, mas aos consumidores não é dada a opção por energias limpas, como ocorre nos países sérios.

No Brasil tampouco existem metas estaduais definidas.

(Com informações do New York Times, parcialmente traduzidas)

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?