Marinha dos EUA adota B-50 feito a partir de algas

Ao final de outubro de 2010, a Marinha dos EUA testou, numa pequena embarcação de 49 pés do tipo RCB-X (foto) um combustível B-50 com a parte de biodiesel produzida a partir de algas pela Solazyme, da Califórnia (www.solazyme.com).  Esse é um notável avanço tecnológico e também na área de políticas públicas para os biocombustíveis.  Os EUA – que não assinam tratados internacionais sobre energias renováveis – ficam, assim, em posição bastante confortável do ponto de vista econômico, também, por deter mais patentes nesse campo. 

“Esse é o futuro” – declarou o contra-almirante Philip Cullom: “Nós vamos operar a nossa frota com base nesse combustível”.

De acordo com o Ministério da Energia dos EUA, as atividades militares são responsáveis por cerca de 80% de todo o consumo de energia do governo.  E ainda que o consumo militar tenha sido reduzido em 9,5% entre 2003 e 2007, o valor da conta cresceu 142%, atingindo US$ 142 bilhões ao final desse mesmo período.

Em decorrência, os militares norte-americanos adotaram um plano para substituir 25% dos combustíveis fósseis que utilizam por energias renováveis até 2020.  A Marinha foi bem mais longe e estabeleceu a sua meta em 50%.  A Marinha começará a fazer isso já em 2012, usando esse B-50 em pequenas embarcações que trafegam por rios e na área costeira.  O incremento será gradual de maneira a incluir fragatas, cruzadores e destroyers até chegar numa “força de ataque verde” em 2016.

Isso tudo é possível, em grande parte, porque lá não existe uma Agência Nacional do Petróleo – ANP preocupada com trivialidades inúteis sobre biocombustíveis, cafetinando o assunto e fazendo com que a adição de etanol à gasolina seja a mesma em regiões produtoras e em regiões extremamente distantes da produção – e, assim, aumentando os preços para os usuários finais -, ou decidindo quem pode usar B-2 ou B-5 ou B-50 ou B-100 independentemente da disponibilidade regional do óleo vegetal. 

“A Solazyme está orgulhosa por ser o primeiro fabricante de combustível produzido microbiologicamente utilizado pela Marina numa embarcação militar”, declarou o presidente da empresa.  “O compromisso da Marinha norte-americana com a redução da dependência de combustíveis fósseis deu um novo passo e nós aplaudimos essa liderança.”

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A imagem abaixo mostra o modelo da embarcação da Marinha dos EUA em que foram feitos os testes  com o B-50 produzido com algas.

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Enquanto isso acontece, o Brasil continua falando em B-2, B-3 e B-5, sempre a partir de produtos agrícolas que concorrem coma produção de alimentos.  Apeasr de ter 7.400 km de costa, é pequeno ou desprezível o apoio para a pesquisa de biodiesel a partir de algas.  E, ainda que excelentes pesquisadores façam o seu trabalho, não emos a mentalidade de que é preciso “criar os mercados”.  Aqui, os economistas em geral e em particular os do governo parecem acreditar que o mercado é algo que existe independentemente das decfisões humanas.  Nos países sérios, adotam-se mecanismos variados para “criar o mercado” para os produtos de tecnologias inovadoras consideradas estratégicas.

Facilita a criação do mercado o fato da mistura, nos EUA, não ser obrigatório e padronizada em todo o território nacional, como ocorre aqui.  Frotas cativas podem adotar B-20 ou B-100 ou qualquer percentual fazendo a mistura em suas próprias bombas de combustível, como os usuários de carros podem escolher a mistura desejada de etanol em inúmeros postos de gasolina, sem necessidade da cafetinagem do produto aqui gerenciada pelo governo e com menores custos porque o biocombustível não tem que “passear” até as refinarias ou pontos de mistura centralizados.

Nota – O texto principal foi retirado da newsletter eletrônica do National Bulletin Board, de subscrição recomendada para quem se interessa por políticas sérias e avanços tecnológicos no campo dos biocombustíveis.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

8 comentários sobre “Marinha dos EUA adota B-50 feito a partir de algas”

  1. Muito bom texto, Luiz.
    Quem, como eu, vive atolado no submundo do ambientalismo bocó pode sempre encontrar ar puro no seu blog.

    Abs,
    Ciro Siqueira

  2. Eu sempre encontro muita força nos seus textos e na alegria de conhecê-lo para continuar lutando contra o ambientalismo classe Y que domina este país onde não se conseguem avanços decentes no campo da gestão ambiental, fora o eterno lero-lero sobre o desmatamento da Amazônia, que acaba servindo de cortina de fumaça para tentar ocultar os infindáveis naufrágios e falta de resultados.

  3. Fantástico Luiz Prado! Enquanto os Estados Unidos fazem biocombustível a partir de algas marinhas e em paralelo já estão vendendo etanol para o mundo, a base de milho, com desenvolvimento industrial atrasado em relação ao Brasil e com custo de produção 1/3 maior do que o etanol brasileiro a base de cana de açúcar, continuamos a pensar que somos o povo mais experto do mundo. Deve ser ao contrário pois somos capazes de criar programas de governo pagos com impostos extorsivos, tipo Bolsa Família, Agricultura Familiar, Luz para Todos e outras bobagens mil que servem apenas para criar currais eleitorais, úteis apenas em épocas de eleições, desmotivando agronegócios, indústria e comércio, estes sim, realmente produtivos e sociais. Sim, também acreditamos ser melhores e únicos no mundo em futebol, beleza feminina, carnaval e pureza da cachaça! Deve ser tarefa árdua juntar tanta mediocridade social e econômica sob uma só bandeira. A terra é boa e rica e no mar tem muito petróleo (no futuro) além de peixes e algas para norte americanos faturarem.

  4. O Brasil só “avançou” quando comparado com os seus próprios números. Quando comparado com outros países, é uma lástima.
    Agora, por que as pessoas atribuem isso ao Lula, e não a si próprias, às sua próprias ações e esforços. Um mecanismo de projeção?
    Seja como for, a distância está aumentando, e não diminuindo.

  5. Mas de qualquer forma não deixa de ser engraçada uma frota “verde” entupida de mísseis nucleares. Viva o progresso e a sustentabilidade!

  6. Pois é Sr. Paulo, a frota verde cheia de mísseis nucleares constituem parcela dos paradoxos existenciais. Não tenho condições para avaliar matéria de natureza Divina, sobre o Bem e o Mal!

    Para não fugir do assunto “energia” gostaria de colocar que até onde chegam os meus conhecimentos ao longo de meus 68 anos vivenciando e dirigindo empresas estatais e multinacionais, nos últimos 20 anos a minha própria empresa, ainda não consegui entender o que o Brasil quer de fato em termos da política energética nacional? Se algum leitor de qualquer formação profissional, ou de vivência prática, de qualquer nível acadêmico for capaz, por favor, queira me explicar por que usinas termelétricas solares (USA, Espanha, Israel……….) cujos custos de implantação e de operação são menores e cujo funcionamento “contínuo” é muito mais confiável do que usinas eólicas ainda não são conhecidas no Brasil? Não cito usinas montadas com placas fotovoltaicas pois estes mesmos custos seriam ainda muito mais elevados! Será que tudo se explicaria pela colocação do Sr. Luiz Prado, a qual, peço com total humildade permissão para editar, apenas no sentido de não voltar a falar de política: “Agora, por que as pessoas não atribuem o não sucedido a si próprias, às sua próprias ações e esforços. Um mecanismo de projeção”? Isto explicaria a inação de nossas Universidades, na área de Engenharia, no que diz respeito a PESQUISAS APLICADAS e não mera forma para captar verbas do governo para fins de gerar “Publicações”?

  7. Ainda bem que tenho você para fazer essa observação do óbvio que se sonega o tempo todo: a “sustentabilidade” será do mais forte, como sempre, aliás, na história da humanidade. Mas isso é algo que os “zambientalistas” – ou seja, um nicho de negócios como qualquer outro – não gostam de ver, ouvir, dizer, NA-DA. Preferem a burrice. Ainda que os cientistas já venham dizendo desde os anos 70: esse josta é insustentável. E, o que é pior, não mudará de rumo até o colapso, que pode ser apenas mais uma guerra ou alguma outra confusão doida.

    De toda forma, e ênfase do artigo foi (a) no domínio da tecnologia de produção de biodisel a partir de algas (cepar selecionadas ou com alguma engenharia genética, já patenteadas, é claro), (b) numa forma de biodiesel que não compete com o uso dos solos para a produção de alimentos (como vem sendo feito no Brasil, com biodiesel de soja), e (c) a idéia de que é possível CRIAR UM MERCADO para produtos considerados estratégicos, usualmente com incentivos governamentais diretos e isenções tributárias diversas, até mesmo do imposto de renda, o que não Brasil é inconcebível (porque não há articulação entre a Receita e o que é estratégico, ou porque não se sabe sequer o que é estratégico).

  8. Prezado Fernando,
    O Brasil não tem política energética nenhuma, além da construção de hidrelétricas, nas quais se viciou. Basta dizer que após 30 anos ou algo próximo disso de “acordo nuclear Brasil-Alemanha” e da implantação de Angra I e II, ainda não dominamos a tecnologia nuclear e continuamos enviado o combustível para ser enriquecido fora. As éolicas, aqui, também, são gringas (ainda que as pás possam ser fabricasdas aqui, com tecnologia de fora). E mesmo as turbinas para hidrelétricas são gringas. – alemães, americanas. Coemçamos, apenas, a penar em smart grids e em smart meters… e a tecnologia também será importada, é claro.
    Mas a turma fica contente com isso…. e vai levando.
    Sempre achei melhor privatizar logo o Palácio do Planalto também, mas…

O que você pensa a respeito?