O “histórico” acordo de Nagoya sobre a biodiversidade – mais uma farsa

Os políticos gostam de dizer que fizeram alguma coisa.  E os jornalistas repetem como papagaios – os políticos sabem disso, e por isso fazem grandes anúncios.

Na semana passada, foi a vez das manchetes sobre um acordo para proteger a biodiversidade que teria sido fechado por “líderes” mundiais em Nagoya, no Japão.

Evidentemente, não havia nenhum líder lá, mas os jornais repercutiram os “press releases” a anunciaram “um acordo histórico para salvar a vida no planeta”.

Se o leitor deste blog der uma busca na internet em qualquer idioma, não encontrará o tão anunciado acordo!  Que tal visitar a página da Convenção Sobre a Diversidade Biológica – http://www.cbd.int – em inglês, francês, espanhol e outros idiomas menos difundidos no ocidente e tentar encontrar o tal acordo?

Alguém já ouviu falar de um acordo internacional dessa importância que não tenha sido publicado em seu inteiro teor ao final de um encontro de ministros, instituições financeiras do tipo engana-trouxa (como o Banco Mundial) e burocratas em geral?

 Uma minuta de acordo já publicada um mês antes não contem qualquer tipo de compromisso firme.  Se essa minuta foi aprovada – ressalta o jornalista inglês George Monbiot, que escreve para o The Guardian -, o que se aprovou efetivamente foi uma carta de aspirações dentro de uma estrutura flexível de acordo com a qual cada país fará o que bem entender.

“Em 2002, os signatários da Convenção (Sobre a Diversidade Biológica) concordaram com algo similar: uma esplêndida altissonante declaração que não implicava em qualquer compromisso legal.  Eles anunciaram que isso resultaria, até 2010, ‘numa significativa redução dos níveis de perdas da biodiversidade’.   Missão cumprida, anúncios de imprensa, e todo mundo voltou para casa se auto-elogiando.  No início deste ano, a ONU reconheceu que o acordo de 2002 foi infrutífero e que as pressões sobre a biodiversidade permaneceram iguais ou cresceram de intensidade.”

Nada indica que o encontro sobre mudanças climáticas que ocorrerá em breve no México será diferente.  Exceto o Brasil, que bate na mesma tecla da redução do desmatamento na Amazônia – até mesmo por falta de idéias – enquanto licencia indústrias de aço e termelétricas que aumentam drasticamente as emissões de carbono, além de celebrar quase diariamente – ao menos no período eleitoral – – novas descobertas de petróleo, todos os países sérios se atiram na direção dos mais variados avanços tecnológicos.  Business as usual.  E chegam a celebrar as mudanças climáticas que permitem tanto novas rotas de navegação quanto a exploração de petróleo no Ártico.

Com um pouco de humor negro, pode-se dizer que essa enganação toda é divertida.  E que o Brasil continua avançando a passos muito lentos no campo de tecnologias inovadoras para a geração de energias limpas, enquanto continua celebrando uma matriz hidrelétrica em vias de esgotamento e um programa de produção de etanol velho de guerra já quase totalmente em mãos de grupos estrangeiros.

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Ninguém mais ousa sequer mencionar a farsa da produção de biodiesel a partir da mamona que tiraria da pobreza milhares de pequenos agricultores familiares e que acabou lenvado a falência – na prática – a nem tão misteriosa Brasil Ecodiesel que recebeu fortes incentivos financieros governamentais e depois terminou como mico nas mãos de um banco federal.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?