As Florestas e a “Certificação Ambiental” e – Verdades Inconvenientes

As intenções talvez tenham sido as melhores possíveis, mas o rastreamento de produtos não funcionou.  Não funcionou para as armas, nem para a origem dos tênis de marca fabricados por crianças e adultos trabalhando em condições desumanas em países pobres.  Por que funcionaria, então, para a origem da madeira ou para a carne bovina?

 Uma pesquisa feita pela organização “caritativa” (como definida pela imprensa inglesa) WWF da Inglaterra mostrou que metade dos consumidores não  têm a mais vaga idéia da origem dos produtos madeireiros que adquirem.  Talvez não tenham é interesse mesmo. 

 A pesquisa, realizada ao longo de dois anos para o Conselho de Gestão de Florestas criado há 17 anos na Inglaterra e nos EUA.  Denominada Forestry Stewardship Council (FSC), essas organizações depois estabeleceram “filiais” ou “franchises” em outros países.

Os dados revelam que a Inglaterra é o quarto maior importador de produtos madeireiros ilegais depois da China, dos EUA e do Japão.  Estima-se que em 1977 cerca de 3,2 milhões de metros cúbicos de madeira extraída ilegalmente foram importados pela Inglaterra, por um valor de quase 1,4 bilhões de dólares norte-americanos.  É de 20% a participação da madeira extraída ilegalmente no total de produtos madeireiros importados pela Europa.  Noves fora aquela que é importada com documentação falsificada, é claro.

Como os números totais incluem os produtos madeireiros extraídos legalmente porque provenientes de plantações de eucalipto e similares cuja extração ilegal é inexistente ou desprezível, pode-se deduzir que é muito maior a participação das madeiras nobres extraídas ilegalmente nas importações de produto com elas fabricados ou sob a forma de meras pranchas importados pelos países altamente desenvolvidos e pela China.

“A madeira é um produto cuja demanda é definida pelo mercado, exatamente como qualquer outro.  Assim, a responsabilidade dos consumidores é extremamente crítica” – afirmou Julia Young, administradora da rede de florestas e comércio do WWF da Inglaterra.

Estima-se, atualmente, que 15% das emissões globais de gases causadores de mudanças climáticas são provenientes do desmatamento no planeta – apesar da insistência dos ambientalistas brasileiros de que só o desmatamento na Amazônia é responsável por 20% dessas emissões globais.  Afinal, brasileiros- como muitos outros povos – gostam de ser os maiores em tudo o que fazem, mesmo quando os números não correspondem à realidade e elevadas taxas de desmatamento continuem ocorrendo em muitos outros países do mundo.  E isso dá visibilidade a políticos e contribui para o aporte de recursos financeiros às ONGs financiadas com recursos estrangeiros.

Onde é que estão mesmo os bilhões de dólares que dos países altamente industrializados para a Amazônia anunciados com a máxima ênfase no momento da criação do tal “Fundo Amazônico” e que beneficiaria as populações locais que não têm acesso a serviços básicos de saneamento, educação e saúde?

A pesquisa mostrou que apenas 28% dos ingleses “ouviu falar” do esquema de certificação do Forest Stewardship Council – FSC.  A quase totalidade acredita – ou tenta acreditar – que simplesmente por estarem sendo vendidos na Inglaterra esses produtos têm proveniência legal.  Os governos desses países importadores não fazem o seu papel – ao contrário, exportam lixo tóxico para os países subdesenvolvidos -, mas o FSC insiste em que a colocação de seu logotipo nos produtos é o melhor caminho para mudar essa realidade.

O WWF da Inglaterra constatou que apenas 25 dos 333 das 333 administrações locais no país adotavam procedimentos de compra que inclui qualquer política relacionada à certificação de origem para a compra de grandes quantidades de papel, móveis e madeiras para a construção.

A União Européia e o Japão também preferem ignorar que a maior parte de seu biodiesel – que permite que metas de redução de emissões de gases causadores de mudanças climáticas sejam alcançadas é proveniente de países que na última década removeram vastas florestas tropicais nativas para plantar dendê para produzir esse substitutivo do seu equivalente de origem fóssil.  O óleo é produzido e certamente refinado, com freqüência, por empresas originárias dos países importadores, como a Cargill.  Com essas vastas monoculturas de óleo de palma, a Indonésia tornou-se o terceiro maior país em emissões de gases causadores de mudanças climáticas, com grandes prejuízos para a população local e para a biodiversidade.

Depois da ação predatória de suas empresas, os governos desses países enviam, aqui e ali, uns trocados e especialistas para falarem na produção “sustentável” de óleo de palma, que está presente em grande número de produtos vendidos em seus supermercados.

Para os que não são fluentes em ingles,vale assistir a algumas reportagens  

http://www.youtube.com/watch?v=T–15EC72J0

http://www.youtube.com/watch?v=InN04Q_hVx0

http://www.youtube.com/watch?v=7Yv3XaucPBU&p=AF7D82F4B4165F3F&playnext=1&index=51

http://www.youtube.com/watch?v=y7fFeJyXkBk

Uma idéia precisa de como é feito a “gestão da cadeia produtiva” pode ser encontrado no filme A Corporação (The Corporation).  Para os que não são fluentes no idioma inglês, subtítulos em português podem ser lidos clicando no ícone abaixo do número de visitantes onde se encontra uma “tradução interativa”.  A tradução do que está sendo falado aparecerá abaixo do campo da imagem.  O primeiro minuto da terceira parte do documentário mostra como é feita a “gestão da cadeia produtiva” no que se refere às condições de trabalho humano e como os dirigentes das grandes corporações defendem o tipo de comportamento por elas adotado.

http://www.youtube.com/watch?v=-egT1WtG5DA&feature=related

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?