Florestas – Falem Bem, Mas Falem dos Outros

Alguns dos países que mais falam na preservação das florestas tropicais são grandes importadores de óleo de palma (dendê) provenientes de áreas desmatadas na Indonésia, na Malásia e em outros para assegurar-lhes o fornecimento de “biocombustíveis” com o deslocamento de populações nativas para a periferia das cidades. 

Mas o cinismo descarado não termina aí.  Dados sobre o percentual de áreas florestadas sobre a área total dos vários países, bem como sobre o percentual de florestas nativas (primárias) em relação à área total florestada em cada um deles, demonstram claramente como se forja o mecanismo de projeção de responsabilidades sobre os demais.

Países como Holanda (sede do Greenpeace), Inglaterra e Alemanha – que estão entre os que mais falam sobre a preservação das florestas tropicais e mais prometem recursos para a sua proteção tem ZERO de florestas nativas em seus próprios territórios.  A Noruega, que compra caças militares de US$ 200 milhões para proteger os seus interesses sobre o petróleo do Ártico, também fala um bocado em florestas tropicais mas tem desprezíveis 2% de florestas nativas enquanto mantem 33% de seu território com florestas comerciais.

País A B
Reino Unido 12 0
Noruega 33 2
Suiça 31 40
Canadá 34 53
Holanda 11 0
Alemanha 32 0
Brasil 62 92

A – %  áreas com florestas sobre área total do país

B – % florestas primárias sobre total de áreas com florestas

Curiosamente, os dados podem ser encontrados na página na internet de uma dessas organizações que tanto falam  na proteção das florestas tropicais.  São dados baseados em informações da FAO, referem-se ao ano de 2010, e estão em:

http://rainforests.mongabay.com/deforestation/

Essa organização, como as demais que atuam nessa área, não propõem que os paises que tanto falam nas florestas tropicais e na biodiversidade iniciem um processo de restauração de suas florestas originais e de seus “biomas”. 

E nem fazem nada de concreto para que as suas corporações paguem pela biodiversidade que tanto lucro lhes proporcionou e continua proporcionando.

Evidentemente, isso não impede que esses países tenham, em todos os outros campos, políticas ambientais MUITO mais avançadas do que as nossas.  Os resultados concretos comprovam isso: nesses países, os rios e lagoas estão completamente limpos (ou quase), com a cadeia biológica desses corpos d’água recuperada (ou em fase avançada de recuperação).  E note-se que nenhum deles tem leis estabelecendo faixas marginais de proteção e áreas de preservação permanente ou qualquer coisa que se possa parecer com o tão decantado Código Florestal brasileiro.  A gestão dos recursos ambientais é feita no mundo real, e não no mundo jurídico, político partidário. ou do imaginário dos naturalistas do século XIX, que enganam o público leigo.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

6 comentários sobre “Florestas – Falem Bem, Mas Falem dos Outros”

  1. Então, nem sempre o valor manifestado pelas riquezas naturais, revertem-se em benefícios para a população local. A exploração mercantil está sendo capaz de remeter somente os lucros de uma região explorada para os centros hegemonicos, deixando só as mazelas sociais e um rastro de destruição ambiental como herança.
    Seria muito bom, convencer os países ricos, a garantir recursos substanciais, para que as populações das regiões de florestas tropicais, fossem compensadas pela preservação da biodiversidade e, consequentemente,pela contribuição ao equilíbrio climático do Planeta.

  2. Martoni,
    O autor não está mal informado e nem mal intencionado. O autor apenas citou números da FAO e de uma ONG “ambientalista”, e forneceu os links. Se números não lhe agradam porque se contrapôem às suas crenças, leia newsletters de ONGs que professam a sua fé, e evita fatos, dados científicos, números, tudo que possa contradizê-la, e vá fundo numa dessas franchises de multinacionais que arrecadam grana de crentes.

  3. Verdade, Ingrid.. mas nenhum país altamente industrializado jamais ultrapssou a linha de “boas declarações” em relação a essas compensações. Com quanto está o “famoso” Fundo Amazônico anunciado logo depois de Copenhaguem com grande barulho pelas autoridades ambientais breasileiras?

  4. Luiz, boa noite. Sou holandes, acredito plenamente nos
    numeros. Falo somente sobre Holanda porque é aqui que moro, não sei se vc já visitou nosso pais. Você não pode comparar Holanda com Brasil. Holanda não tem florestas primarias e 100 anos atras tambem já não tinha. Se nos temos 11 % da area florestada é uma coisa fenominal. Toda floresta (aqui chamamos de bosques)nossa foi plantada. A area ainda cresce anualmente, aqui não pode derubar uma arvore sem permissão. E isso num pais onde cada habitante tem menos que 0.002 km2 para viver.
    Um abraço, Martoni

  5. Prezado Martoni,
    Não apenas já visitei – muitas vezes – o seu país como, também, morei nele por dois anos, entre Amsterdam e Bergen an Zee. Conheço-o razoavelmente bem e amo o seu povo – em muitas ocasiões senti-me como em minha segunda pátria.
    Exatamente, o objetivo do artigo foi falar em florestas primárias e deixar nas entrelinhas que a existência ou não existência delas depende do tipo de ocupação histórica – coisa que, aqui, os “ambientalistas” tentam negar a todo custo (como se não vivessem, na Amazônia, uns 6,5 milhões de brasileiros, sem condições mínimas de atendimento sequer primário de saúde, educação, ou saneamento. Mas, o mais importante é que 50-60% das florestas amazônicas JÁ ESTÃO PROTEGIDAS sob a forma de Unidades de Conservação e de Reservas Indígenas. Outro ponto que os “ambientalistas” não gostam de falar: são “parques de papel”, e os biólogos e similares que se assenhoraram deles não gostam de visitantes – de pousadas, campings, hotéis -, ainda quando se masturbem diante de um documentário qualquer sobre parques norte-americanos no Discovery Chanel. Dado esse extenso percentual já protegido é que não vejo razão para tanto alvoroço. Preocupa-me bem mais o fato de que grandes doações internacionais para a Amazônia – no programa Amazon Rainforest Protection Action (ARPA) tenham simplesmente sumido pelo ralo. Fora isso, a Holanda está décadas à frente do Brasil no que se refere à gestão dos recursos ambientais. Mas ai de quem, no Brasil, falar em canais, barragens de todos os tamanhos para impedir o avanço dos mares, ou outras intervenções na natureza que esses “ambientalistas” parecem ver como o tal do Éden perdido.
    De toda forma, a questão de florestas primárias na Holanda é realmente excepcional devido ao tipo de ocupação. E na Alemanha ou na Inglaterra, que falam de Amazônia e importam biodiesel de óleo de palma de florestas tropicais úmidas removidas nas duas últimas décadas na Indonésia e na Malásia?
    Enfim, utilizados os parâmetros percentuais – incluindo as vastas áreas já protegidas sob as formas antes mencionadas -, o alvoroço todo sobre a Amazônia me parece MUITO exagerado. Se esses caras cuidassem de realmente implantar todas aquelas Unidades de Conservação já seria bom demais.

  6. Prezado Luiz Prado. Gostaria de continuar a receber seus blogs. Material de grande valor de conteudo,para mim. Peço a gentileza de recadastar meu novo e-mail em sua lista de envio. Muito obrigado. Fernando

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