Monthly Archive for janeiro, 2011

Amazônia e a Farsa da Responsabilidade Sócio-Ambiental Gringa

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Qual a face mal escondida da “responsabilidade sócio-ambiental” quando fabricantes de refrigerantes e de água mineral em garrafas PET com marcas de fantasia começam a falar no assunto e a fingir que “vestiram a camisa” da chamada responsabilide sócio-ambiental? Alguém que tenha dois neurônios pode acreditar nessa farsa?  Do CUSTO – ou seja, do preço do produto entregue ao revendedor final, antes do consumidor – que porcentagem é água, que porcentagem é embalagem plástica (derivada de petróleo), que porcentagem é transporte?  A manutenção e a expansão do business deles são inerentes à sua própria natureza e eles – produtores de soda e de água mineral em garrafas cada vez menores – não vão abrir mão do que lhes é essencial para produzir algo útil!

E quando essa mesmo corja faz suco “de laranja caseira” ou “néctar de frutas”, qual a estrutura de formação de preços e quanto coube ao produtor da fruta que é transportada até uma fábrica, desidratada, congelada, depois reidratada, misturada com uma porção de substância químicas para dar cor, sabor e espessura, depois embalada, depois transportada novamente – até os pontos de venda, que incluem as proximidades dos produtores originais das frutas que foram utilizadas?

A Coca-Cola é sempre um ótimo exemplo, e mais ainda quando paga à EMBRAPA para desenvolver uma variedade de açaí para fazer uma bebida do tipo soda, com um percentual de açaí desprezível.  De mais de uma centena de variedades de açaí existentes na Amazônia, escolhem UMA, cuja produtividade é maior.

E aí partem para a monocultura, diretamente ou através do estímulo aos produtores locais para que plantem aquela única variedade.  E badalam as propriedades antioxidantes do açaí, totalmente perdidas no processo de pasteurização e congelamento.

Aliás, qual é mesmo o percentual de “guaraná da Amazônia” nas sodas vendidas com o esse rótulo, além da cafeína, do tanino e de uma vago sabor formulado provavelmente na Suíça?

O cinismo não tem fim, mas pode ser comprovado com a leitura de uma reportagem de um jornal da região que não foi divulgada pela grande mídia e que poderia ser comparada a uma associação do mal – EMBRAPA + Coca-Cola.

Afinal, a EMBRAPA deveria fazer pesquisas de interesse do Brasil, e não apenas da Coca-Cola.  Os termos desse acordo espúrio deveriam estar na página da EMBRAPA na internet.

Em matéria de canalhice, a única coisa pior que o autor deste blog pôde observar no cenário internacional foi a publicação de um relatório elaborado por uma ONG apoiada pelo mercado financeiro em Londres – uma tal de Forest Footprint Disclosure.  O título do relatório poderia ser a grande farsa.

Alguém acha, sinceramente, que essa canalha que apoia esse business sob a máscara de uma ONG para despejar dinheiro dedutível do que é devido ao fisco esteja realmente interessada em “sustentabilidade” na Amazônia?  E ainda mais num país cujo governo vem anunciando a privatização de todas as florestsa públicas ainda neste ano, para qualquer finalidade, inclusive o simples corte.  O Greenpeace, esse tal de Forest Footprint alguma coisa e outras ONGs do gênero silenciam! 

O mais incrível é que entre os autores do tal relatório estejam listados um diretor da EMBRAPA (Geral) da EMBRAPA no Acre e um promotor de justiça do Ministério Público Federal no Pará.  Só podemos torcer para que as informações sobre a lista de autores do relatório sejam imprecisas e que o papel desses representantes do poder público nacional brasileiro na elaboração do relatório gringo tenha sido superestimado.

Agora, que tal grandes empresas brasileiras e a Bolsa de Valores de São Paulo apoiarem o monitoramento constante das emissões de carbono pelo Inglaterra, convidando especialistas britânicos e europeus para falarem do imenso fiasco que e o cumprimento das metas estabelecidas pelo próprio órgão de meio ambiente do governo inglês?  Será que a corja colonialista City acharia isso uma ingerência indevida em seus assuntos nacionais?

Essa tuma de moleques gringos certamente não vale o caviar que come!  Mas eles têm o DNA daqueles que, na Inglaterra, se bateram contra a independência da Índia.

Encostas, Faixas Marginais de Proteção em Áreas Urbanas e Outras Mesmices

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Para os cretinos que insistem no papo furado superficial de que ”encostas” não devem ter qualquer uso, independentemente do tipo de uso e de sua configuração específica, vale comparar duas imagens.  A primeira, de terraças de produção de arroz nas Filipinas - alguns com cerca de 2.000 anos e a uma altitude de 1.500 metros -, e a segunda de vinhedos em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

Terraceamento para produção de arroz nas Filipinas

Terraceamento para produção de arroz nas Filipinas

Vinhedos em Bento Gonçalves, RGS

 A imobilização do parte signficativa do território nacional em nome de abstrações genéricas feitas por editoriais de jornais, jornalistas de outras áreas pegando carona em temas que não conhecem, auto-denominados ambientalistas sem formação definida ou conhecimento do que é feito no mundo, promotores que não ouvem pareceres técnicos relacionados a cada situação específica mas apenas decoram leis e regulamentos, e por aí afora –  é algo inadmissível.

Os únicos especialistas que já fizeram o geo-referenciamento do que aconteceria com o território brasileiro se todas as regras do Código Florestal e seus regulamentos – que têm pouco ou nada a ver com gestão ambiental – fossem impostas ao país foram os profissionais da Embrapa Monitoramento por Satélite.  Eles somaram a esses dispositivos do Código Florestal as áreas já designadas como unidades de conservação (federais + estaduais) e as terras indígenas já demarcadas.  E aí, não consideradas as áreas urbanas e de infraestrutura (reservatórios de hidrelétricas, estradas de todos os tipos, e outras),  nem as vastas áreas de mineração.

Os cientistas da Embrapa  Monitoramento por Satélite demonstraram que no balanço final sobram apenas cerca de 30% do território brasileiro para a agricultura!  E neles devem caber não apenas a produção de alimentos – inclusive para exportação - mas, também, as vastas e crescentes áreas para monoculturas de eucalipto, a produção do etanol e mais recentemente do biodiesel (cuja demanda será crescente).

Mas o que importam os fatos e a Embrapa Monitoramento por Satélites para repórteres políticos e editorialistas da Folha de São Paulo, ou para os ambientalistas do Fasano?

E aí, rapaziada, vamos remover os vinhedos do Rio Grande do Sul e os cafezais de Minas Gerais?
Já para aqueles que tentam se aproveitar do número de mortos nas serras do Rio de Janeiro para fazer proselitismo de péssimo caráter – como se fosse possível dizer à população das áreas sujeitas a furacões e tornados para delas se retirarem -, e para aqueles que acham que os conceitos abstratos e genéricos do Código Florestal devem ser aplicados em todos o Brasil – e talvez do mundo -, incluindo as áreas urbanas, valem as imagens recentes de obras de contenção de rios e canais na zona oeste do Rio de Janeiro, feitas à luz do dia e sem que nenhuma ONG, autoridade ambiental ou o MP desse um pio sequer.

FMP - Av. Ayrton Senna. Barra da Tijuca

Chamar de “emergencial” algo que está projetado há muito tempo sempre é bom tanto para a liberação de recursos, para a contratação das obras e para o licenciamento ambiental, quando ocorre.

Vale notar que o escorrimento da água de chuvas que lava as ruas – ainda sendo uma obra nova – é todo carreado para dentro desse canal que interliga lagoas do complexo Barra da Tijuca – Jacarepaguá.  Num país sério, a condução dos primeiros 20 minutos de chuvas máximas, pelo menos, seria conduzida para áreas de infiltração de maneira a evitar a poluição das lagoas e rios.
FMP - Ayton Senna - Obras Ditas Emergenciais
 

Será que só leva cascudo o pequeno produtor que planta a menos de 30 metros – no mínimo – do córregozinho de 60 cm que passa dentro de sua propriedade?  É ele o grande vilão da história?

Se o passeio for um pouco maior, é só seguir na direção da Colônia Juliano Moreira, um pouco mais adiante, e outras obras do tipo estão sendo finalizadas.  Mas ali o Batalhão Florestal não vai.  Nem os “zambientalistas” que mantem boas relações com o poder público.

Mas a turma não quer nem ouvir falar na proposta de substitutivo do deputado Aldo Rebelo, elaborada ao longo de dezenas de audiências públicas com todos os setores da sociedade em todo o Brasil, além de quase uma centena de depoimentos perante a Comissão designada para preparar o substitutivo e quem mais quisesse deles participar, depoimentos de representantes dos mais variados segmentos das atividades econômicas, acadêmicas, profissionais e da sociedade civil.  Preferem tentar um “subsitutivo” preparado a portas fechadas no Ministério do Meio Ambiente para ver se é possível continuar a ganhar no tapetão, como fizeram com a reedição por mais de 50 vezes de uma Medida Provisória que alterou o Código Florestal.

Isso sim é que se pode chamar de mal disfarçado fascismo ambientalóide.

Tornados, Inundações, Previsões do Tempo – Mais Improviso e Menos Ciência ou Vice-Versa?

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Enquanto chuvas torrenciais provocam grandes deslizamentos de terreno nas serras do Rio e cobrem casas em amplos territórios planos na Austrália, além de causar uma devastação em quase uma centena de municípios de Minas Gerais e em diversas localidades de São Paulo, alguns “ativistas” se aproveitam da desgraça alheia para insistir na tolice de que as mudanças no Código Florestal trarão o apocalipse (ainda que nada exista de similar no mundo) ou um fenomenal aumento das emissões de carbono (mas nada falam do pré-sal, porque não ficariam bem na fita).

Talvez devessem propor que se acrescente ao Código alguns dispositivos contra tornados, também, já que um atingiu bairros do Rio de Janeiro e municípios da região metropolitana, como se pode ver  aqui.  Mas, como a destruição não foi muita, o assunto não capturou a atenção da imprensa, exceto por uma sintética mais objetiva declaração do sub-comandante da Defesa Civil: os radares da prefeitura que deveriam captar esse fenômeno, não o registraram.  Um jornal dedicou ao fenômeno – ocorrido pela primeira vez no Rio – um pequeno espaço abaixo da badalação das novas sirenes no Morro do Alemão.  Nele, o curto depoimento de Thamires, de 14 anos, que “ficou bastante machucada”:

“Posso dizer que eu vooei.  A minha sorte foi ter me segurado num poste, para não ser arremessada mais vezes.  Vi um monte de coisas voando: janela, árvore, cachorro e até televisão – disse a adolescente assustada.”

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, que está ligado ao ministério agora ocupado pelos bigodes de Mercadante – um ás da ciência e da tecnologia -,  permanece em silêncio ou nem foi consultado.  Ou foi proibido de falar sem consultar os marqueteiros do governo.

Neste período, talvez valha dar um pouco de atenção ao gráfico abaixo, divulgado há poucos dias pela NASA sob o título Anomalias das Temperaturas Anuais Ajustadas.

NASA.adjusted_annual_temperature_anomalies

Nele, a NASA compara os dados de medições de temperaturas de quatro grandes centros de referência em meteorologia: o Instituto Goddard para Estudos Espaciais da própria NASA, o Centro Nacional de Dados Climáticos – NOAA (cuja página na internet vale visitar, ainda que rapidamente, em www.ncdc.noaa.gov, para se ter uma idéia do “tamanho do bicho”), a Unidade de Mudanças Climáticas do Met Office da Inglaterra (www.metoffice.gov.uk) e a Agência Meteorológica do Japão (www.jma.go.jp).

Sempre é possível que apareça algum cientista de Bangu sur Mér ou de Teresina Heights que discorde.  Mas que é hora do bigode chamar o INPE – onde estão os mais notáveis profissionais brasileiros na área de meteorologia e mudanças climáticas – para dar dizer, publicamente, o que pensam, ah, isto não seria nada mal.  Juntamente com a turma do Serviço Meteorológico da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil (www.mar.mil.br/dhn/chm/meteo/index.htm), talvez se possa ter pelo menos o melhor “desenho” dos equipamentos a serem adquiridos e dos sistemas a serem implantados, e menos improvisos midiáticos.

***

Há anos – desde um extenso relatório do INPE sobre mudanças climáticas e seus impactos no território brasileiro – o poder público, em todos os níveis, já deveria ter sido iniciada a elaboração de um plano de adaptação às mudanças climáticas, incluindo segurança alimentar e energética, em lugar de deixar a gestão do território ao sabor das conveniências formais dos órgãos ambientais.   Talvez porque o impacto das mudanças climáticas sobre a segurança nacional não caibam no calendário eleitoral. 

Recomenda-se, aqui, a releitura do artigo do blog que tem no título as palavras Realpolitik Ambiental.

Enchentes e a Baboseira das Encostas, Várzeas e Topos de Morro

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Em meio à baboseira sobre “áreas de risco”, ocupação de encostas e outras parolagens que vicejam bem em meio à ignorância, só o prefeito Eduardo Paes – por incrível que pareça – disse algo sensato:  trata-se de uma questão de custo-benefício; onde couber a solução das estruturas de contenção de encostas, ela deve ser adotada; onde essas estruturas custarem mais do que um apartamento de frente para o mar em Ipanema, a remoção é a melhor solução.

Simples assim, ainda que o ministério do Meio Ambiente (além dos ecogringos e dos ecopaulistanos)  insista em tentar cafetinar o assunto com regras aplicáveis do Oiapoque ao Chuí.  O que define o “risco” da construção nas encostas é o custo da engenharia para fazer as obras de contenção necessárias, e não um palpite ou laudo que não contenha qualquer outra variável.  E não é necessário sequer falar dos mais recentes avanços tecnológicos já desenvolvidos nos países sérios – como prédios que se equilibram sobre sistemas de suspensão capazes de absorver ondas sísmicas de intensidade considerável – para se descrever alternativas construtivas.  Basta sair da acomodação ignorante e olhar com os olhos de ver.

Ao vice-governador e secretário de estado de obras Zé Pezão, recomenda-se um passeio pela costa da França, saindo de Nice de carro para Mônaco, onde há um sem número de construções em encostas, muitas em áreas que foram transformadas em platõs.  Ou um passeio de barco pelos rios da Alemanha ao longo dos quais podem ser vistas fortalezas e castelos nos topos de morro, nas encostas, e em todas as áreas que o ambientalismo ignorante das Marinas Silvas da vida gostaria de tornar inacessíveis à ocupação do território brasileiro.   Do jeito que vai, um MP de visão provinciana deve achar que as resoluções CONAMA são para valer e que os holandeses desrespeitam “leis naturais” ao construírem nas margens dos canais.

Ou então, se a geologia específica de cada local não importa – o governo do Rio mandou para as serras uma equipe de topógrafos! – , os profetas das encostas podem pedir ao governo da Grécia que remova das ilhas todos os vilarejos.  E quem saba possam mesmo explicar ao governo da Austrália que não se deve deixar que cidades inteiras sejam construídas nas tais “áreas de risco”, como se pode ver nas recentes imagens das inundações no país.

Há que admitir, um país que não tem um boa base de dados de sua geologia – exceto quando de interesse das mineradoras – termina mesmo nas mãos de chantagistas das regras gerais, genéricas, como se fosse possível legislar sobre a natureza da mesma forma que se faz em relação aos seres humanos (para os quais há maior flexibilidade até mesmo em casos de homicídio).

Na cabeça desses otários não existe engenharia – ainda que possam admirar as pirâmides e a Grande Muralha da China – e nada semelhante ao que fizeram na Malásia à Ponte do Céu, na Malásia,  poderá jamais ser feito numa unidade de conservação brasileira.

Aliás, falando em engenharia, e para que nem tudo se transforme em Reserva Extrativista ou em Xapuri, vale dar uma espiada, também, nas imagens da  Ponte de Millau, para que não se perca a perspectiva de que tentar imobilizar a vida é o caminho mais curto para ser por ela derrotado.

É preciso ouvir cientistas e profissionais das mais variadas formações até mesmo para professar  a religião da “Mãe Natureza”.  Sem essa de regras genéricas feitas por leigos ou sem a contribuição de várias áreas do conhecimento.

Repita-se, aqui: o que aconteceu nas serras do Rio de Janeiro foram chuvas de intensidade e duração excepcionais.  Talvez elas estejam ligadas às elevadas temperaturas do mar na região – 2 a 3 graus acima do normal, segundo as informações da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha brasileira.  La Niña, El Niño, mudanças climáticas, não importa!  Algo imprevisível e que ocoreria com ou sem as matas intocadas.  E que não atingiu apenas as casas dos mais pobres – como afirmou Dilma Roussef num surto de desinformação -, mas também centros de cidades e sítios de ricos que ali estavam, intactos, há décadas ou mais.

Eventos Climáticos Extremos e Oportunismo Ambientalóide

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No estilo dos piores tablóides sensacionalistas, a Folha de São Paulo, uma das referências do jornalismo brasileiro, publicou no domingo – 16 de janeiro -, com direito à manchete da primeira página, uma reportagem prá lá de medíocre com o título “Novo Código Florestal amplia risco de desastre”.  A bobagem destaca o nome dos repórteres e tem toda a pinta de notícia plantada e de um escorregão – ou melhor, de um tombo – da chefia da redação na lama dos telefonemas dos amigos.

No artigo anterior deste blog, já havia a previsão do uso oportunista de um evento climático extremo por parte de ambientalóides urbanóides.  Eles fingem não ver que dezenas de municípios de Minas Gerais se encontram em estado de emergência, que chuvas torrenciais acabem de destruir boa parte da Austrália, e que nos últimos dias 1/3 dos municípios das Filipinas foram também devastados por verdadeiros dilúvios.

Nessa linha de pensamento – ou de falta de pensamento e dogmatismo – são capazes de atribuir devastações causadas por furacões e terremotos à falta de leis ambientais ou de seu cumprimento.  Apegando-se a bandeiras em estado pré-falimentar, incapazes, por exemplo, de assegurar a despoluição do rio Tietê ou da Baía de Guanabara, batem no peito e falam da lei ambiental mais avançada do planeta.  Seriam capazes de recomendar a remoção da cidade de San Francisco, na Califórnia, por situar-se na área de maior risco de terremotos do planeta.

A “reportagem” – se é que se pode chamar assim um texto medíocre que não busca fundamentos e nem ouve outros pontos de vista – se concentra na ocupação das encostas.

Tolice arrematada!  Qualquer um que tenha viajado por países europeus que já resolveram os seus problemas ambientais e estão décadas à frente do Brasil – como é o caso da Alemanha – pode ver o grande número de encostas ocupadas há séculos.  Também na costa do Mediterrâneo, há grande quantidade de vilarejos e pequenas cidades na borda de falésias, e plantio em encostas íngremes, como se pode ver nas fotos abaixo.

Nesta última foto, pode-se ver o plantio de oliveiras nas encostas mais íngremes.  Segurança alimentar, geração de emprego, tradição – tudo isso sem “código florestal”, sem intromissão do governo central na vida das cidades, e sem que o que a cudade receba a denominação genericamente leviana de “área de risco”

No mesmo jornal e no mesmo dia, um marco do jornalismo brasileiro, Elio Gaspari , abre sua coluna dominical com um texto irônico e esclarecedor, sob o título “Cabral e Dilma culparam os outros e o povo”.

“Na filosofia dos doutores, o centro de Friburgo estava em área de risco.” – destaca.

Depois de relembrar acontecimentos similares em Angra dos Reis durante as chuvas de 2010, mestre Elio Gaspari sintetiza:

“Desta vez, Sérgio Cabral não estava em Mangaratiba (onde tem casa), mas no exterior.  Quando desembarcou no Rio, já haviam sido contados mais de 300 corpos por conta de temporais que começaram dois dias antes. Ao chegar, Cabral contrariou sua lição de 2010 e visitou as áreas afetadas. Foi acompanhado pela doutora Dilma Rousseff, que ensinou: “A moradia em área de risco no Brasil é a regra, não é a exceção”.

Falta explicar por qual critério Dilma e Cabral definem “áreas de risco”. O centro de Friburgo? A cidade de Areal? Bairros urbanizados onde viviam pessoas que pagam IPTU? Em 2010, a explicação demofóbica para a morte de mais de 30 pessoas no morro do Bumba, em Niterói, sustentou que a patuleia estava em cima do que fora um lixão. Estava, com a permissão da prefeitura, e ninguém foi responsabilizado. (o grifo é nosso)

“A essa explicação, somou-se a do catastrofismo ambiental. Para quem gosta de falar em calamidades climáticas, vale lembrar que, na Austrália, onde choveu mais do que no Rio, os mortos foram 25 e há dezenas de desaparecidos.”

Num outro trecho de sua coluna, Elio Gaspari brinca com as palavras, com a precisão de um bisturi, sob o título “Área de risco”.

“Na quarta-feira, reunido com sua equipe em Brasília, o secretário nacional de Defesa Civil, doutor Humberto Viana, informou que uma das prioridades de seu mandarinato será a construção da sede própria para a repartição. Àquela hora havia mais de dez mil pessoas desabrigadas no Rio. Na linha da doutora Dilma, pode-se dizer que Secretaria de Defesa Civil é uma área de risco na administração federal.”

A imprensa não pode embarcar nesse lero-lero oportunista de relacionar eventos climáticos extremos para fazer política de ocasião.  O Código Florestal brasileiro é tão antiquado que considera área de preservação permanente qualquer coisa acima de 1.800 metros.  Se aplicado à Bolívia, teríamos que começar por remover a cidade de El Alto, onde se encontra o aeroporto internacional que dá acesso a La Paz.  Para não falar em Cuzco, no Peru, que está a 3.500 metros de altitude e é região de grande visitação turística.

Aliás, quem quiser ver imagens de algumas das mais altas cidades do mundo, a começar por La Rinconada, no Peru, a mais de 5.000 metros de altitude, vale ver as fotos do The Huffington Post clicando em www.huffingtonpost.com/2010/11/18/highest-cities-in-the-world_n_785478.html#s185590&title=undefined.

***

Manila e muitas outras províncias das Filipinas foram inundadas em menos de 12 horas depois de iniciadas as fortes chuvas nas serras do Rio de Janeiro.  Para os ecomaníacos e jornalistas de improviso da Folha de São Paulo, as causas das muitas mortes e desaparecidos deve ter sido o descumprimento do Código Florestal brasileiro.  Vale dar uma espiada em

www.youtube.com/watch?v=_Y9OZrlaATY

As imagens do verão de 2008 em Wisconsin, nos EUA, também foram associadas ao fato de que os EUA não tem absolutamente nada similar ao Código Florestal brasileiro – mas tem parques nacionais que funcionam -, as pessoas constroem em “áreas de risco” (ainda que nada similar jamais houvesse acontecido na região), e toda essa baboseira provinciana que aqui parece “praga de madrinha”.

www.youtube.com/watch?v=RuezygBWlyM&feature=channel

***

O Brasil continua sem uma política de transição e adaptação às mudanças climáticas, já amplamente definida por regiões em muitos países que têm políticas ambientais sérias, como a Alemanha e boa parte dos EUA, entre outros.

Eventos Climáticos Extremos X “Áreas de Risco”

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 ”No Brasil, a construção em áreas de risco é mais a norma do que a exceção”.  Crítica velada ao governo Lula que só lançou um programa habitacional ao final de seu segundo mandato ou frase feita, de algibeira, soprada no caminho das serras do Rio de Janeiro?  A imprensa foi muito mais sensata ao falar em “eventos climáticos extremos” – sem qualquer referência ás mudanças climáticas que se tornaram uma constante nos debates intrnacionais sobre meio ambiente.

Numa outra notícia, informa-se que a casa do sítio que inspirou Tom Jobim a compor Águas de Março foi destruida pelas chuvas.  Ela certamente não estavam em “área de risco”.  Como não estavam em “áreas de risco” a antiga e lindíssima estrada Teresópolis-Friburgo, muitos condomínios de luxo, edifícios no centro das cidades e por aí afora.  Essa tentativa de cafetinar catástrofes naturais só merece o mais total desprezo.

Se deixar por conta dessa turma, Pompéia e Herculano estavam em “áreas de risco” e a culpa de tudo foi dos grego-romanos que ali construíram as belíssimas cidades (que, diga-se de passagem, já tinham coleta de esgoto). 

A redução do risco nas construções em encostas é feita com geologia, com engenharia estrutural, com muros de contenção, e não com parolagem.  Há construção em encostas em toda a Europa e nos EUA, sem que isso impliquei em deslizamentos por terem sido usados bons recursos de engenharia – aqui, quem comanda são empreiteiras que cobram por metro cúbico do cimento que ninguém mede – e o estado da arte na construção civil.

Para evitar o uso ambientalóide de mais um evento climático extremo, vale observar imagens da Austrália destes últimos dias.  Lá não existem construções em “áreas de risco” e a devastação das inundações atingiu uma área equivalente à soma dos territorios da Inglaterra e da Alemanha.  Com bom senso, a primeira-ministra australiana limitou-se a dizer que os esforços necessários para reconstruir o país serão equivalents àqueles utilizados no pós-guerra.  E voltou ao trabalho!

O lero-lero das autorifdades públicas – que, do nada, falam em buscar R$ 1 bilhão no Banco Mundial – vale consultar a página da Confederação Nacional dos Municípios – CMN que o governo gasta 10 vezes mais em resposta aos desastres naturais do que em prevenção.

Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) – O Crime Compensa?

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No Brasil de hoje, o marketing é peça essencial não apenas da política, mas das mais simples iniciativas como fazer uma raspagenzinha no asfalto e um recapeamento mixuruca: colocam-se imensas placas nos pontos mais visíveis e dá-se o nome à bobagem de rotina de “Operação Asfalto Liso”.  O marketing passou a ter mais importância do que o que é feito!

Agora, é a vez da CSA com o slogan “Grafite Zero”.  Grafite é a mãe!  Dever ser o único pó de grafite no mundo com o qual as cricanas brincam de ajudar as mães e fazerem a limpeza usando imãs… para atrair o tal do grafite!

De toda forma, o nome genérico daquela imensa porcaria é particulado.  “Tóxico” ou não – o argumento cretino da CSA, e a mentira na qual ela tenta acreditar – o particulado causa problemas de saúde, em particular bronco-pulmonares com as inevitáveis conseqüências cardiológicas.

Aliás, alguém já fez uma campanha de análise química dessa montanha de poeira negra que cobre a casa e a vida dos moradores?  Se bobear, ali está toda a escala periódica de elementos químicos!

E, além dos danos à saúde pública e da imensa porcaria, particulados entram pelos computadores, televisões e outros aparelhos eletrônicos, diminuindo a vida útil e causando defeitos.

Já é tempo da população local tomar vergonha na cara se organizar em lugar de deixar ao poder público e à empresa a decisão sobre o que fazer.

A unica “compensação ambiental” aceitável numa situação dessas é parar de poluir e mudar radicalmente de ATITUDE diante da autoridade ambiental e da comunidade atingida.  As demais “compensações” são periféricas.

A  persistência da empresa naquilo que em inglês denomina-se “denial” (denegação, na tradução psicanalítica brasileira, ou recusa de ver algo que é evidente) é uma patologia social e  uma fonte da continuidade das infrações.  E nada importam as baboseiras sobre as médias e asa máximas de particulados no ar, já que as normas brasileiras de qualidade ambiental e de controle de poluição são mais do que antiquadas, são largamente obsoletas.

De toda forma, uma empresa alemã tem que cumprir, aqui, as normas de lá, e isso inclui não causar os imensos incômodos que a CSA está causando, há meses, à população da região.

Um excelente exemplo desse tipo persistente de descaso desavergonhado é o porto de Tubarão.  Na década de 90, começaram a ser examinadas alternativas para conter as nuvens de pó de carvão e de minério que se espalha continuamente sobre a cidade, proveniente do arraste eólico sobre as imensas pilhas desses materiais nos pátios do complexo portuário.  Os imóveis vivam imundos, o dano era visível o tempo todo, e os médicos falavam com freqüência nos altos índices de doenças respiratórias.

Uma das soluções consideradas foi a colocação de telas quebra-ventos (wind fences), já então  bastante usadas em outro lugares do mundo com as mais diversas finalidades, desde evitar que trens de alta velocidade descarrilassem na saída de tuneis em regiões de fortes ventos até o controle do arraste eólico de pó em áreas portuárias.

Já estava mais do que comprovado de que se bem dimensionadas as cercas quebra-ventos reduzem o arraste de poeira em 90%.  Mas os “investidores” queriam lucros e não havia interesse dos gerentes locais em tentar convencê-los.  Além do que, o argumento era o mesmo de sempre: não há normas brasileiras sobre esse tipo de controle.  Ora, bolas, o que importa se existem normas ou não quando uma cidade inteira está sendo visivelmente prejudicada e a saúde da população está sendo prejudicada?

A primeira reação da canalha local foi a disseminação boca a boca de que aquela solução não existia e de que a única explicação era o então secretário de estado de então – o autor deste blog – representava os interesses de algum fabricante.  A Companhia Siderúrgica de Tubarão, a Vale (então do Rio Doce) e a administração do Complexo Portuário de Tubarão recusaram-se a sequer considerar o assunto.

Mas brasileiro odeia inovação – ainda que goste de novidade – e por essa razão é que Tom Jobim dizia que para fazer sucesso aqui era necessário primeiro fazer sucesso “lá fora”.

Enfim, a proposta foi abandonada, mas, tampos depois, alguém deve ter arranjado uma forma de ganhar dinheiro com ela, colocando cercas quebra-ventos – ainda que de altura questionável para o tipo de ventos e para a altura das pilhas – e hoje anunciam, com orgulho, que estão fazendo o que deveriam ter feito há 30 anos atrás.

Esse é o Brasil do futuro na área do controle da poluição, entre outros.

A notícia foi divulgada como um grande avanço em 2008 e pode ser lida em

http://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/2008/08/cercas-de-20-metros-de-altura-em-volta-de-pilhas-de-minerio-reduzirao-poeira.html

No ano seguinte, a Vale anunciou o seu grande atraso tecnológico no controle da poluição como grande inovação, como se pode ver em

http://www.vale.com.br/saladeimprensa/pt/releases/release.asp?id=19150

Não há informações sobre o dimensionamento apropriado das cercas quebra-ventos ou dos resultados do monitoramento, como seria de se esperar, mas já é um reconhecimento de que a engenharia existe para resolver problemas, e não para cumprir normas antiquadas.

Da mesma forma, a proposta de colocar câmeras – incluisve infra-vermelhas para assegurar a visibilidade noturna – nas áreas problemáticas da CSA merece ser levada adiante – afinal, qualquer condomínio ou shopping as tem – e não apenas para controle do INEA, mas para o acesso de toda a população e da imprensa.  Ou a CSA tem algo mais a esconder?

China Anuncia Avanços no Reprocessamento de Urânio… E Entra no Mercado Brasileiro de Eletricidade

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Há dias, a China anunciou avanços na área de reprocessamento de urânio para uso em usinas nucleares que permitirão o aumento da auto-suficiência do país nessa área dos atuais 70 anos para cerca de 3.000 anos. Nada mal, em particular quando se considera que isso foi feito com tecnologia própria – ou seja, não pagarão royalties a ninguém.

A China tem, hoje, 13 reatores nucleares em operação, 26 em construção e 54 em fase de projeto. O governo do país já anunciou a sua intenção de elevar a participação da geração nuclear na matriz energética nacional dos atuais 1% para 6% em 2020. Bem menos do que os 20% dos EUA, mas em termos absolutos bem mais do que a capacidade instalada total da França.

Nos reatores em construção, a China está utilizando tecnologia Westinghouse, considerada mais segura do que a usada nos reatores anteriores, sempre sob contratos rigorosos de transferência de tecnologia.

A China já está replicando a tecnologia de seus fornecedores estrangeiros e começa a projetar os seus próprios reatores e unidades de reprocessamento. Como sempre acontece com conseqüência do planejamento estratégico chinês, o governo já planeja a venda de tecnologia para outros países, e mesmo a construção de reatores no exterior.

O país tem entre as suas metas a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas, mas dentro de um plano de negócios bastante definido.

No Brasil, o primeiro reator nuclear, Angra I, com tecnologia Westinghouse, começou a ser construído em 1972, e só teve autorização para entrar em operação em dezembro de 1984. Esse reator foi conhecido popularmente, durante muito tempo, como “usina vagalume”.

Em 1975, num arroubo nacionalista, o governo militar resolveu demonstrar independência em relação às empresas norte-americanas e assinou aquilo que ficou conhecido como “acordo nuclear Brasil-Alemanha”, com o objetivo de construir 8 reatores nucleares. Mas Angra II só entrou em operação em 2000. E Angra III só recebeu a licença ambiental em 2010, infelizmente nas proximidades das duas anteriores, com impactos negativos para uma das mais belas áreas turísticas do país. A regra que requer o estudo de alternativas de localização não costuma ser seguida no Brasil por empreendimentos de interesse do governoi, como ocorreu, também no caos do Complexo Petroquímico de Itaboraí – COMPERJ.

Em particular como decorrência dos esforços da Marinha brasileira, o Brasil já domina o ciclo completo de enriquecimento de urânio. Mas ainda tem como meta dominar esse ciclo em escala industrial até 2014.

O país, que só prospectou cerca de 25% de seu território em busca de urânio, ainda restringe a sua cantilena sobre redução dos gases causadores de mudanças climáticas quase exclusivamente à redução do desmatamento e à produção de etanol, desconsiderando quase totalmente oportunidades de aumento da eficiência energética na geração, na transmissão, na distribuição e no uso final de energia.

Em 2010, a estatal chinesa de transmissão de eletricidade comprou sete empresas brasileiras de transmissão de energia por um valor superior a R$ 3 bilhões, tendo liquidado a dívida com o BNDES para evitar o usual lero-lero local sobre índices de nacionalização de equipamentos e produtos. Juntamente com as aquisições, as respectivas concessões por 30 anos. A principal estratégia chinesa para recuperar os seus investimentos nessa área é a redução de perdas em distâncias de até 2.000 km. A China já atingiu elevados padrões de eficiência na transmissão em 1.000 KV,enquanto o Brasil alcança o máximo de 600 KV.

Os chineses já anunciaram que têm interesse na implantação de linhas de transmissão de longa distância na Amazônia.

Índia: Monsanto, Suicídios em Massa e Desestruturação do Setor Rural

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Naryanaswamy Naik foi até um pequeno armário e pegou uma lata de pesticida.  Então, ele ficou parado diante de sua esposa e de suas crianças e bebeu o líquido.  ‘Eu não sei o quanto ele havia pedido emprestado.  Eu perguntei, mas ele não respondeu.”  Sugali Nagamma disse, enquanto o seu pequeno neto brincava aos seus pés. “Eu diria a ele:  não se preocupe, nós podemos vender o sal de nossas mesas. (…) Ele morreu na frente de sua esposa e de suas crianças – você pode imaginar?”

Aqui, uma tradução livre do artigo de Alex Renton publicado no jornal inglês The Independent de domingo, dia 2 de janeiro de 2010.  Ao contrário do usual, os comentários do autor do blog serão destacados em sob a forma de maior distanciamento em relação à margem esquerda do texto.

 A morte de Naik, um pequeno produtor rural no estado de Andhra Pradesh, em julho de 2009, é apenas uma nova marca de uma atordoante lista: cerca de 200.000 proprietários rurais indianos se suicidaram na última década.  Como Naik, um terço deles escolheu a ingestão de pesticida para fazer isso.  Uma forma agonizante de morrer, marcada por vômitos e convulsões.

O jornalista indiano Palagummi Sainath assegura que esses números são muito mais elevados, baseado em suas viagens de trabalho para Andhra Pradesh e para Maharashtra.  “Um produtor rural a cada 30 minutos, atualmente, e muitas vezes 3 da mesma família.”  Os critérios de registro dessas mortes mudam de estado para estado, e assim muitos suicídios não são considerados, como ocorre com o significante número de mulheres que se suicidaram mas que não foram consideradas como “produtores rurais” ainda que o seu ganha-pão fosse a sua atividade agrícola.

A maioria das famílias nas quais ocorreram suicídios relata que a perda de colheitas e a perda de terras são os seus maiores problemas.  Metade dos suicídios ocorre em quatro estados produtores de algodão.  Em termos reais, o preço do algodão corresponde, hoje, a 1/12 do valor do mesmo produto há 30 anos.  A cientista Vanana Shiva associa os suicídios à queda dos preços do algodão, ocorrida a partir do momento em que o governo retirou os subsídios às colheitas e as sementes geneticamente modificadas foram introduzidas, em 1997.

“Cada suicídio pode ser atribuído à Monsanto”, afirma Shiva, ressaltando que a introdução da semente geneticamente modificada Bt Algodão causou a falência das colheitas e a disseminação da pobreza porque o seu uso requer o uso de pesticidas e de fertilizantes.  O príncipe do País de Gales fez as mesmas acusações.  A Monsanto nega dizendo que a pobreza tem muitas causas.

Uma negativa capenga, como todos os desmentidos da Monsanto sobre as suas atividades predatórias desde a fabricação do “agente azul”, fabricado para destuir as plantações de alimento durante a invasão do Vietnam pelos EUA, e do agente laranja, também usado logo a seguir e que deixou décadas de sequelas com dezenas de milhares de deformações genéticas nunca sujeitas a indenizações ou sequer de pedidos de desculpas.  (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Agent_Orange).*

No Brasil, a Monsanto faz o que bem entende sem que o governo dê indícios de acordar para os riscos da disseminação de suas sementes geneticamente modificadas que são estéreis e tornam os produtores dependentes delas.  Ao contrário, o governo permite que a Monsanto inspecione os carregamentos de alimentos para o exterior em busca de indícios de sementes “de sua propriedade”, ali impondo o pagamento dos royalties.  Não existe qualquer transparência em relação aos acordos e parcerias entre fabricantes de sementes geneticamente modificadas e a EMBRAPA.  Quais os benefícios para os produtores rurais brasileiros e para a nação brasileira em geral.

Entre os muitos argumentos encontra-se um com menos carga política: o clima, historicamente complexo pelo papel dos Himalaias de um lado e de oceanos turbulentos de outro, e particularmente imprevisível nos últimos anos.  No Rajastão, ao noroeste, uma seca de 10 anos terminou apenas no último verão, enquanto historicamente, na Índia, as monções anuais ocorreram apenas três vezes na última década.

Na Índia, os 600 milhões de pobres e os produtores rurais são mais frequentemente as mesmas pessoas.  Uma única colheita fracassada acaba com as suas reservas financeiras e os leva a perder a terra.  Depois disso, são poucas as chances de retorno à produção rural.

Essas tragédias e até mesmo a venda de crianças para o casamento e o trabalho escravo – algo comum na Índia – são os resultados mais dramáticos desses episódios.  Mas são mais comuns as histórias de dezenas de milhões de pessoas migrando dos campos para as cidades, aumentando o contingente de pobres nas áreas urbanas e deixando vazios na estrutura de produção de alimentos do país.

“Há vinte anos nós podíamos colher o suficiente para nos alimentar e para vender.  Agora, nós não podemos plantar trigo, feijão, cenouras – porque não há suficientes chuvas.  Então, vamos para as cidades em busca de dinheiro.”

Depois de descrever situações em que crianças e até mesmo bebês dormem no chão de obras nas cidades enquanto mães carregam sacos de cimento e tijolos por R$ 2,50 ao dia, o autor do artigo descreve a “nova pobreza, surgida do caos no clima” como a incapacidade de manter as crianças nas escolas.

Shankar Lal, um dos imigrantes de Surah na Kheda, estava tomando chá debaixo de um viaduto com uma dúzia de jovens de seu vilarejo, esperando para serem recrutados por algum empreiteiro. “Se a chuva voltar, nós poderemos ser produtores rurais novamente.  Mas tudo indica que em 10 anos não existirão mais vilarejos, todos estarão nas cidades ou mortos.”

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, metade de todas as crianças da Índia tem peso menor do que o desejável.  Com tantos produtores rurais desistindo de seu trabalho, o problema não é apenas como a Índia alimentará os seus pobres, mas como alimentará o país inteiro.

O governo brasileiro ainda parece acreditar que a segurança alimentar pode ser alcançada através de bolsa-família.  Ainda que louvável, esse programa originalmente concebido pelo Banco Mundial e implantado em diversos países latino-americanos (sempre condicionado à frequência à escola e a melhorias no sistema educacional aqui até agora desconsideradas), não é suficiente para lidar com a segurança alimentar à nível regional e local.

Há consenso de que radicais mudanças meteorológicas ocorreram na Índia nas duas últimas décadas.  O que é menos certo são as causas.  Essas mudanças no regime de chuvas são “mudanças climáticas”?

Se o colapso na produção rural da Índia continuar, uma catástrofe afetará povos muito distantes de suas fronteiras.  Atualmente, meros rumores de monções (chuvas) insuficientes ou de más colheitas na Índia são suficientes para fazer os preços das commodities subirem rapidamente.

No Instituto Rajastan de Estudos do Desenvolvimento, Surjt Singh acredita que as mudanças nos padrões climáticos são tão importantes quanto as mudanças nos padrões de produção rural, ou o crescimento da população e o fracasso das políticas governamentais.  A economia está crescendo a uma taxa de 9%, mas o preço dos alimentos cresce a taxas entre 16% e 18%.

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O artigo publicado no The Independent de Londres nos dá uma boa idéia do crescente subdesenvolvimento da imprensa brasileira! Com as raras e honrosas exceções de hábito, atualmente os meios de comunicação no Brasil mais parecem sucursais do Diário Oficial, limitando-se a disseminar releases sobre o que disseram os governantes fulano e sicrano, com zero de análise da importância ou do conteúdo.

* – Atualmente, a página da Monsanto na internet tem informações sobre a política da empresa para direitos humanos e nela pode ser encontrada a informação de que ela fez doações para a proteção do… jaguar no Brasil, mais especificamente na região do Araguaia.  Quem rece beu a grana deve saber onde é que ela foi parar.