Enchentes e a Baboseira das Encostas, Várzeas e Topos de Morro

Em meio à baboseira sobre “áreas de risco”, ocupação de encostas e outras parolagens que vicejam bem em meio à ignorância, só o prefeito Eduardo Paes – por incrível que pareça – disse algo sensato:  trata-se de uma questão de custo-benefício; onde couber a solução das estruturas de contenção de encostas, ela deve ser adotada; onde essas estruturas custarem mais do que um apartamento de frente para o mar em Ipanema, a remoção é a melhor solução.

Simples assim, ainda que o ministério do Meio Ambiente (além dos ecogringos e dos ecopaulistanos)  insista em tentar cafetinar o assunto com regras aplicáveis do Oiapoque ao Chuí.  O que define o “risco” da construção nas encostas é o custo da engenharia para fazer as obras de contenção necessárias, e não um palpite ou laudo que não contenha qualquer outra variável.  E não é necessário sequer falar dos mais recentes avanços tecnológicos já desenvolvidos nos países sérios – como prédios que se equilibram sobre sistemas de suspensão capazes de absorver ondas sísmicas de intensidade considerável – para se descrever alternativas construtivas.  Basta sair da acomodação ignorante e olhar com os olhos de ver.

Ao vice-governador e secretário de estado de obras Zé Pezão, recomenda-se um passeio pela costa da França, saindo de Nice de carro para Mônaco, onde há um sem número de construções em encostas, muitas em áreas que foram transformadas em platõs.  Ou um passeio de barco pelos rios da Alemanha ao longo dos quais podem ser vistas fortalezas e castelos nos topos de morro, nas encostas, e em todas as áreas que o ambientalismo ignorante das Marinas Silvas da vida gostaria de tornar inacessíveis à ocupação do território brasileiro.   Do jeito que vai, um MP de visão provinciana deve achar que as resoluções CONAMA são para valer e que os holandeses desrespeitam “leis naturais” ao construírem nas margens dos canais.

Ou então, se a geologia específica de cada local não importa – o governo do Rio mandou para as serras uma equipe de topógrafos! – , os profetas das encostas podem pedir ao governo da Grécia que remova das ilhas todos os vilarejos.  E quem saba possam mesmo explicar ao governo da Austrália que não se deve deixar que cidades inteiras sejam construídas nas tais “áreas de risco”, como se pode ver nas recentes imagens das inundações no país.

Há que admitir, um país que não tem um boa base de dados de sua geologia – exceto quando de interesse das mineradoras – termina mesmo nas mãos de chantagistas das regras gerais, genéricas, como se fosse possível legislar sobre a natureza da mesma forma que se faz em relação aos seres humanos (para os quais há maior flexibilidade até mesmo em casos de homicídio).

Na cabeça desses otários não existe engenharia – ainda que possam admirar as pirâmides e a Grande Muralha da China – e nada semelhante ao que fizeram na Malásia à Ponte do Céu, na Malásia,  poderá jamais ser feito numa unidade de conservação brasileira.

Aliás, falando em engenharia, e para que nem tudo se transforme em Reserva Extrativista ou em Xapuri, vale dar uma espiada, também, nas imagens da  Ponte de Millau, para que não se perca a perspectiva de que tentar imobilizar a vida é o caminho mais curto para ser por ela derrotado.

É preciso ouvir cientistas e profissionais das mais variadas formações até mesmo para professar  a religião da “Mãe Natureza”.  Sem essa de regras genéricas feitas por leigos ou sem a contribuição de várias áreas do conhecimento.

Repita-se, aqui: o que aconteceu nas serras do Rio de Janeiro foram chuvas de intensidade e duração excepcionais.  Talvez elas estejam ligadas às elevadas temperaturas do mar na região – 2 a 3 graus acima do normal, segundo as informações da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha brasileira.  La Niña, El Niño, mudanças climáticas, não importa!  Algo imprevisível e que ocoreria com ou sem as matas intocadas.  E que não atingiu apenas as casas dos mais pobres – como afirmou Dilma Roussef num surto de desinformação -, mas também centros de cidades e sítios de ricos que ali estavam, intactos, há décadas ou mais.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

8 comentários sobre “Enchentes e a Baboseira das Encostas, Várzeas e Topos de Morro”

  1. Eu achava que o Brasil era pobre, mas vendo a ponte do céu, agora tenho certeza.

  2. Aqui no Brasil, mais da metade das pontes estaria no bolso de alguém…A ROUBRAS nao deixa nada ser construido.
    Abs.

  3. Eu acho que tem um ministério sobrando. Este ministério está cheio de aproveitadores que só querem prejudicar o povo.Recebem um salário altíssimo com dinheiro do nosso bolso e ainda nos f…m. Seria bom que somente o ministério da agricultura cuidasse da parte que os ambientalistas dificultam. Afinal,mato, árvores,plantio,produção de lavouras, tem tudo a ver com terra, tem tudo a ver com agricultura.

  4. Alô Luiz! Concordo praticamente na totalidade das suas afirmações, e faço uma sentença maior: nenhum governo vai investir em contenção de encostas acima do que é conomicamente viável, a não ser que sobre mais no bolso deles, do que construir casas populares.

    Quanto à turma do não dá pra fazer, eu concordo contigo em partes, porque brasileiro é brasileiro se der muita folga eles liquidam com o restinho da mãe natureza. Mas podemos fazer mais e melhor, isso eu tenho certeza, basta acreditar no valor das instituições acadêmicas e nos profissionais competentes que o País possui.

    Precisamos é acreditar mais na Educação, um País com pouca qualificação técnica tem que entregar-se para outros ou permitir a migração de nossos profissionais, essa última eu chamo de perdermos a identidade Acadêmica.

    Abraços. Julio Stelmach ( Acadêmico Gestão Ambiental – UERGS)

  5. Prezado Julio – É sempre uma alegria ter esse tipo de comentário, ainda mais vindo de um jovem da área acadêmica que já entendeu que “ambientalista” é auto-denominação de quem não tem formação ou profissão.

    Fora isso, concordo inteiramente que educação é fundamental. E não apenas para gestão ambiental – já que hoje, a “gestão ambiental” tende a ser político-partidária, sem nenhum mérito. Mas, sinceramente, aos 60 anos, não me lembro do último presidente desta josta que tenha levado educação à sério!!! Lembro-me, quando criança, aqui no Rio, do Carlos Lacerda investindo nisso, e muito depois, do Brizola falando nisso, mais sob a ótica da construção de escolas do que propriamente da educação (ainda que ele tivesse p Darcy Ribeiro ao lado dele).

    Nos últimos tempos, então, só vi o elogio da falta de educação, da falta de leitura, da ignorância, enfim. E promessas, promessas, as mesmas que vi a vida inteira.

    Enfim, há que dizer, a experiência acumulada de urbanismo, habitação popular (tanto do ponto de vista do urbanismo, da arquitetura, da engenharia e e dos mecanismos de financiamento foi para o beleléu. Restou o financiamento de construtoras ao sabor dos interesses de cada momento e local.

    Fora o que, enfim, acho legal protegermos TUDO. Que tal se começarmos pelos parque nacionais e pelas florestas nacionais?

    Bom abraço!

    Nos outros estados, há experiências melhores ou piores,

  6. Interessante a sua colocação, porém não entendi seu extremismo, de mesma intensidade daqueles a quem critica. Seu texto árido não deixou evidente uma conclusão sobre seu posicionamento em relação ao meio ambiente, apenas registrou uma indisfarsável vontade de contrariar. Pergunto: Será que nosso país é uma ilha grega, uma Iha da Madeira, ou qualquer outro dos locais mencionados? O padrão construtivo de cada país ( com sua geologia característica) deve ser considerado e apenas copiado quando as semelhanças geográficas assim o permitirem ou o senhor acredita que a beleza do verde dos morros do Rio de Janeiro, que o tornam inigualável, deveria ser coberta por construções, mesmo que de forma ordenada pela urbanização? O senhor acredita que todos os morros, encostas e várzeas devam ser ocupados, mesmo sendo utilizados os mais modernos métodos de engenharia? Portanto, seguindo seu raciocínio, deveríamos construir em todo o Pantanal, na Amazônia, nas Serras Gaúchas, etc. Por que a tecnologia e engenharia avançada e os peritos que temos aqui no Brasil não resolvem os problemas do Nordeste, seguindo outra vez sua linha de pensamento, por que não fazem igual a países que conseguiram transformar o deserto em áreas cultiváveis? Por que não podemos respeitar os limites naturais, que cientistas e professores (mencionados pelo senhor) já demonstram ser necessário, há muito tempo. Peço, enfim, que não banalize aqueles que sensatamente defendem o meio ambiente e professam a defesa da natureza ( na qual o senhor está inserido). A questão não é tão ínfima para ser resolvida desta forma, ou seja, contrariando ou chamando pessoas de otários. O senhor as conhece?. Finalizando, por que sempre predomina ,mesmo nas mentes esclarecidas como a sua, a idéia de que devemos copiar outros países e não inovar, criando nossas regras e usando o conhecimento de nossos profissionais nem um pouco “otários”?

  7. Prezada Cristina,
    Exatamente por conhecer todos os países e situações que menciono e descrevo, bom como por ter trabalhado com gestão ambiental há uns 40 anos – quando ainda não era formado mas já era redator-especial do Correio da Manhã e escrevia sobre esses assuntos -, acho que não pode haver uma norma sobre esses assuntos que seja aplicável do Oiapoque ao Chuí, em situações geológicas, geográficas, hidrológicas, biológicas e históricas tão diferentes. Essas normas genéricas são inaplicáveis, e muitas vezes burras. Como foi burra a determinação federal de que todo empreendimento imobiliário com parcelamento do solo tenha que ter rede de águas pluviais – sendo genérica e burra e intrometida, a exigência se estendeu ao semi-árido nordestino e à Amazônia (onde tracionalmente o escorrimento de águas pluviais é superficial).
    Esse tipo de debate sobre generalidades tem servido mesmo é para ocultar que não há demarcação ou regularização fundiária na maior parte das unidades de conservação, que a gestão ambiental do país só sabe os limites de cerca de 30% das florestas nacionais, ou que os rios e praias na maior parte das áreas urbanas do país estão IMUNDOS e se deteriorando progressivamente (além dos aquíferos subterrâneos como o Guarani).
    Enfim, mais especificidade torna as regras aplicáveis. O “extremismo” foi, sim, uma resposta aos ambientalistas de algibeira que critico, porque me dou muito bem e respeito os responsáveis pelas práticas de conservação dos solos – e portanto das águas – nas quais o Brasil é líder (e aqui foram desenvolvidas pelos produtores); os profissionais da EMBRAPA Amazônia Ocidental, da Amazônia Oriental, da EMBRAPA Florestas e da Embrapa Monitoramento por Satélite – que não ficam batendo tambor e conhecem as áreas onde trabalham; ou profissionais de meio ambiente sérios, como os químicos, engenheiros químicos, e outros que atuam com afinco nos órgãos ambientais e saem de salas com ar condicionado para enfrentarem os problemas reais.

  8. Obrigada pela atenção.
    Concordo quando vejo muitos pseudo-ambientalistas(de gabinete) usando a questão de meio ambiente de forma demagógica, apenas para auto-promoção e baseada nisto, considerando sua experiência na área ambiental gostaria de saber, se possível, como o senhor vê as obras do trecho norte do Rodoanel de São Paulo que vêm sendo questionadas pela maioria das pessoas, tanto nas 03 audiências públicas já realizadas quanto em ações que demonstram seu descontentamento. Na última audiência, em Guarulhos, um grupo de técnicos comprovou vários erros do EIA/RIMA, dentre eles que, parte do traçado irá afetar o Parque da Cantareira e a Reserva da Biosfera do Cinturão Verde (patrimônio da humanidade). Neste trecho, contrariamente ao que se destina um rodoanel, haverá ligação com avenidas , ou seja, com tráfego urbano!! As audiências apenas têm servido para cumprir formalidades e até o momento nada do que foi dito durante as mesmas foi levado em consideração.Nos outros trechos, apesar dos responsáveis pelas obras alegarem que muitos problemas estariam sob controle, vemos que na realidade não é o que acontece.
    Se puder responder, agradeço desde já.

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