Obama, Derrotado pelo Congresso dos EUA, Pretende “Comprar” a Amazônia?

Nesta quinta-feira, 10 de março de 2011, os republicanos passarão o trator na proposta de Obama e dos democratas de estabelecer regras para a redução de gases causadores de mudanças climáticas.  De acordo com a proposta republicana, a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em ingles) fica simplesmente proibida de regulamentar a emissão de CO e mesmo o estabelecimento de metas de eficiência para os veículos automotores (emissões por quilometragem) não poderá mais ser feito a partir de 2016.

Os EUA disputam com a China a liderança nas emissões globais desses gases, e em matéria de emissões per capita estão sem dúvida na liderança absoluta (as emissões per capita são certamente um melhor indicar da “pegada carbônica” dos cidadãos de um país).  Como se não bastasse, é crescente a exportação de carvão para as usinas térmicas que impulsionam a economia chinesa para exportar mais para os EUA e para o mundo.  À conta de quem devem ser lançadas essas emissões: do país de origem ou do país de destino dos bens produzidos?

A vantagem do Congresso norte-americano é que não há essa tentativa tão brasileira de ficar no meio do caminho.  Os republicanos, tradicionais defensores (ou empregadinhos, dependendo do congressista e do ponto de vista) da indústria petrolífera, simplesmente negam a existência de mudanças climáticas causadas ou aceleradas pelas atividades humanas.  Não importa o que diga a NASA ou qualquer outra instituição científica do próprio país.   Danem-se as evidências e os cientistas.

Jay Inslee, um democrata de Washington, já desanimado diante da derrota certeira, comentou que nem mesmo que Copérnico, Galileo, Newton e Einstein testemunhassem perante o Congresso os republicanos aceitariam a ciência.

Derrotado no Congresso norte-americano e querendo dar um exemplo de que apesar disso fará alguma coisa, não será uma surpresa se na agenda dos encontros de Obama com Dilma surgir algum dinheiro para a proteção das florestas amazônicas.  Na tradição norte-americana, comprar consciências (baratinhas) e políticas públicas em outros países não é corrupção.  Para ficar bem na fita em casa, tudo; para eliminar a pobreza dos tais “povos da floresta” – sem saneamento, sem acesso à educação e à saúde primária -, nada.

Além de abrir uma janela para que Obama fique bem na fita com os seus eleitores, esse gesto permitiria atender à crescente demanda do agro-negócio norte-americano: deter a crescente competitividade dos produtos brasileiros.  E ele não vão dizer que cerca de 45% da Amazônia já estão legamente protegidos sob a forma de terras indígenas e unidades de conservação, como demonstrou a EMBRAPA – Monitoramente por Satélites.

Uma organização (ONG) financiada por grandes produtores de soja, carne e madeira norte-americanos divulgou, há algum tempo, estudo demonstrando que deter a expansão da fronteira agricola em países como o Brasil – ou principalmente no Brasil – resultaria em benefícios diretos para o agro-negócio norte-americano: um aumento de receita entre US$ 190 bilhões e US$ 270 bilhões entre 2012 e 2030, aí incluídos um aumento direto da receita dos setores de soja, carne, madeira e óleos vegetais na faixa de US$ 141 bilhões a US$ 221 bilhões.

O relatório, em inglês (é claro, eles não seriam inocentos a ponto de disponibilizá-lo em portugues) pode ser lido aqui, em como como o agro-negócio brasileiro prentede ganhar muito dinheiro “salvando o planeta”.  Os principais números encontram-se logo no início do estudo, na página 7.

Evidentemente, ninguém de bom senso acredita que essa canalha esteja efetivamente interessada em mudanças climáticas, já que em momento nenhum mobilizou-se para defender as propostas de Obama para reduzir as emissões de carbono em seu próprio país.   Além disso, nenhum deles – e nem as ONGs por eles financiadas para atuar no Brasil – defende a constituição de reservas legais ou de áreas de preservação permanente lá.  O mote é: florestas lá, fazendas aqui!

As mudanças climáticas, prevêem os cientistas, transformarão as florestas amazônicas numa vegetação do tipo savana com ou sem a reserva legal e o inútil Código Florestal brasileiro, sem similar no mercado mundial.

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O Greenpeace ainda não se pronunciou sobre essa votação decisiva no Congresso norte-americano.  Lá, eles não se atrevem a fazer lobby.

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Visitar a ultra-cínica página dos grandes produtores rurais norte-americanos na internet em http://adpartners.org é sempre bom, até para ver como financiam ONGs “ambientalistas” com forte presença no Brasil.  Recomenda-se à Confederação Nacional da Indústria – CNA e à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG a tradução e a disponibilização do relatório para os brasileiros em geral, e em particular para os membros do Congresso Nacional e das cooperativas de produtores rurais.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?