Mudanças Climáticas e “Segurança Naval” dos EUA

“Atendendo a uma determinação do Comando de Operações Navais (CNO, na sigla em ingles), o Conselho Nacional de Pesquisas designou um um comitê que trabalhou sob a orientação do Consellho de Estudos Navais para avaliara as implicações das mudanças climáticas sobre as forças navais dos EUA. Com o estudo, o comitê concluiu que se mesmo as mais moderadas tendências atuais no clima continuarem, elas resultarão em desafios para a Marinha dos Estados Unidos, para os Corpos de Marinheiros (Marine Corps) e para a Guarda Costeira. Ainda que dimensões temporais, de grau e as consequências futuras dos impactos das mudanças climáticas sejam incertas, muitas mudanças já estão ocorrendo em regiões do mundo, tais como o Ártico, e demandam ações da liderança naval dos Estados Unidos.”

Esse não é um texto de ficção mas um relatório oficial do governo norte-americano! O relatório afirma que as disputas sobre fronteiras e zonas econômicas exclusivas ocorrerão em decorrência da abertura de novas rotas marítimas e da competição por recursos (econômicos). Aumentará a demanda sobre a capacidade militar naval para resposta rápidas em novas áreas marítimas nacionais e internacionais. Da mesma forma, instalações navais costeiras serão colocadas em risco pela elevação do nível dos oceanos e pela maior frequência de eventos climáticos extremos, como tempestades. Será necessário o fortalecimento das alianças e a formação de parcerias das forças militares navais.

Se o leitor acha que eles estão alucinados ou buscando criar uma situação de pânico para obter mais recursos do governo norte-americano, vale ressaltar que o relatório enfatiza a necessidade de que os EUA subscrevam à Convenção das Nações Unidas proposta pela primeira vez em 1967, o que resultou em negociações formais iniciadas em 1973. Essas negociações tiveram a participação de 160 países ao longo de 9 anos, ao fim dos quais, em 1982, foi adotada a Convenção das Nações Unidas sobre a Lei do Mar, à qual os EUA nunca subscreveram (como de hábito, quando os seus interesses não são imediamente evidentes). Em 2010, o Comando de Operações Navais dos EUA continuava a insistir na necessidade de que o país aderisse à Convenção, sem sucesso.

O relatório aqui citado prossegue afirmando que “a situação geopolítica do Ártico tornou-se complexa e com muitas nuances, à despeito do fato da região ter sido ignorada desde o final da Guerra Fria”.

“O Conselho do Ártico, do qual participam o Canadá, a Noruega (a mesma que vive falando que vai fazer doações ao Fundo Amazônico), Dinamarca e Rússia, com a adesão posterior da Islândia, da Suécia e da Finlândia, é um veículo diplomático para lidar com os problemas na região. No entanto, disputas sobre fronteiras marítimas são abundantes. Assim, por exemplo, há disputas sobre o mar territorial e as zonas de interesse econômico exclusivas entre o Canadá e a Dinamarca, bem como entre os Estados Unidos e o Canadá. A Rússia e a Noruega discordam sobre áreas off-shore no entorno de Svalbard. A situação da Passagem Noroeste através do Arquipélago Canadense – áreas territoriais canadenses ou ou um estreito internacional? – constituem-se numa preocupação do Canadá pelo menos desde 1985. O assunto não está resolvido e o tráfego de embarcações só é permitido com base em acordos bilaterais para o uso de embarcações quebra-gelo.”

De fato, o Comando de Operações Navais, os Corpos de Marinheiros (Marine Corps) e a Guarda Costeira concordam sobre o impacto potencial das mudanças climáticas sobre a capacidade e as operações navais norte-americanas, em particular no que se refere à região do Ártico.

“Mudanças dramáticas estão acontecendo na região do Ártico em decorrência das mudanças climáticas, incluindo reduções significativas na cobertura de gelo do Oceano Ártico e o desaparecimento do gelo mais espesso formado ao longo do tempo. O comitê espera que o degelo ocorrido durante o verão na região continue a crescer a uma taxa de 10% ou mais a cada dez anos ao longo das próximas décadas. Isso permitiria o acesso a zonas sem gelo em amplas áreas do Ártico no verão de 2030.”

Como resultado, aponta o Serviço Geológico dos EUA, grandes depósitos de petróleo, gás natural e minérios poderão ser explorados. E o comitê expressa a sua preocupação com a capacidade militar naval dos EUA no Ártico: ela é muito limitada qauando comparada à crescente demanda de segurança nesses novos domínios marítimos.

Para quem acredita em acordos internacionais de interesse global no que se refere às mudanças climáticas, a transcrição desses trechos do Sumário do relatório pode ser útil, ao menos para um teste do nível de ingenuidade de setores “neo-socialistas” e ambientalitas das nações de menor poder militar.

O download da versão preliminar do relatório sobre as mudanças climáticas na visão das forças navais militares dos EUA, na versão original em ingles, pode ser feito aqui.

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Há poucos meses, quando foi concedido autorização para sondagens de petróleo e gás no Artico a uma empresa inglesa, quatro ativistas do Greenpeace subiram numa das plataformas que ainda se encontrava ancorada, numa baía na Groenlândia.  O governo ingles – esse que tanto fala nas florestas amazônicas – enviou uma pequena embarcação de guerra para afastá-los.  Pano rápido, é claro!  Não se tem notícia de que o Greenpeace daqui tenha feito algo semelhante em relação as sondagens do pré-sal em profundidades equivalentes àquela do recente acidente no Golfo do México.  

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?