Mudanças Climáticas – Inventários “Dinâmicos” e Muito Parciais

No Brasil, as tais políticas para mudanças climáticas têm se limitado ao blá-blá-blá sobre a Amazônia e à realização de inventários voluntários.  Felizmente – ou não! – o assunto agora saiu da esfera dos ministérios do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, que nunca conseguiram se entender, e passou para as mãos do chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, de maneira a assegurar que caminhamos para a inércia em nome do consenso.

Os inventários são no máximo divertidos e estimativos, ao contrário de medidas efetivas no campo do desenvolvimento e da disseminação de novas tecnologias como forma de combater as emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

Divertidos?  Aos fatos!

Um estudo que será divulgado na íntegra em maio – mas cuja versão preliminar já se encontra disponível para download –  mostra que o gás natural não é tão limpo quanto se pretendia, ou pelo menos escapa para a atmosfera a taxas muito mais elevadas do que aquelas antes consideradas nos tais inventários.  De fato, um professor da Universidade de Cornell acaba de demonstrar que pelo menos 7,9% do gás natural “produzido” está apenas escapando de poços mal fechados ou através de juntas e válvulas, além daquele que está sendo inutilmente direcionado para queimadores (flares) por conveniência das petroleiras.

O problema é que o principal componente do gás natural é o metano, cuja contribuição para as mudanças climáticas é 20 vezes superior à do CO2 resultante da queima dos combustíveis fósseis.  E a preocupação com o metano, até o presente, não se limitava à queima adequada de sua produção em lixões e em aterros sanitários, mas estendia-se ao “peido” dos bois e vacas.  Ufa, que caras chatos!

Os representantes da indústria petroleira norte-americana tentam dizer que há um exagero nos trilhões de metros cúbicos de gás que o novo estudo estima que escapam diretamente para a atmosfera.  Como é o hábito da indústria petroleira!  Mas não apresentam dados.  Um bom indicador de que os escapamentos de metano vinham sendo amplamente subestimados é o fato da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em ingles) ter recentemente duplicado as suas estimativas desses vazamentos nos gasodutos do país.   Um aumento de 100% – nada mal!

No caso dos inventários brasileiros, onde estão mesmo esses vazamentos de metano que ocorrem em todas as fases da produção, do transpporte e da comercialização do gás natural?  Em lugar nenhum!

A versão preliminar e resumida do estudo dos pesquisadores da Universidade de Cornell sobre estimativas de vazamentos de metano nos EUA é mais uma prova de que o lero-lero da organização dos produtores rurais norte-americanos sobre a necessidade de conter o desmatamento na Amazônia tem endereço marcado: evitar a competitividade dos produtos agrícolas brasileiros.

Agora, com Dilma negociando a exportação de suínos e de soja para a China, vamos ver como Palloci reage.  Ou se faz a usual cara de paisagem.

O Greepeace, as ONGs associadas e financiadas por madeireiras que criam desertos verdes e exportam celulose de baixo valor agregado, e similares ainda não se pronunciaram.  Eles nunca se pronunciam sobre nada que possa decorrer do conhecimento, da realidade, da pesquisa científica, quando isso não corresponde aos seus interesses monotemáticos mais imediatos.

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?