A Jihad Contra a Alegria de Viver e os Aiatolás do Meio Ambiente

Álvaro Pessôa

Cuidado com a sua próxima festa de São João.  Junho está chegando! Caso a armação do “arraiá “demande o corte de bambus nativos ou você pretenda pular a fogueira “,  pode acabar denunciado ao Juiz como criminoso ecológico, um horroroso crime federal.

O mesmo ocorre se seu caseiro queimar folhas secas do seu quintal, podar as árvores sem licença ambiental, usar mini motosserra ou pegar minhocas para ir pescar.  Vai aparecer um Torquemada moderno, vestindo os uniformes do INEA, da Policia Federal, da Policia Florestal, do IBAMA, ou outra praga similar e lá vai você preso, inafiançável.

A sorte do Marechal Rondon, é que conseguiu servir ao Brasil no século passado. Hoje não tomaria nem o trem para o sertão, por falta de licença ambiental, alvarás, carteira de identidade de explorador.  Dizia o Marechal, que pelos índios, era preciso morrer, se necessário fosse, mas jamais matar um deles. Pois se hoje em dia, um jacaré lhe atacar, trate de morrer, ou deixe morrer até seu filho, se preciso for (na boca do jacaré), mas não mate o bicharoco nunca, que ele é sagrado. Centenas morrem todo dia na porta dos hospitais públicos, mas a fauna é intocável.

Felizes os que nasceram nas décadas de cinqüenta e sessenta, e tiveram a alegria de catar tatuí e vongole nas praias de Ipanema!  Hoje seriamos todos processados e iríamos em cana por exercermos a atividade criminosa de apreender exemplares da fauna nativa com o fim de saboreá-los, sem a competente licença de pescaria.

Em Tocantins, recentemente, as oito vacas de uma pobre senhora camponesa, lancharam apetitoso capim sem saber que o dito estava plantado nas sagradas e invioláveis terras de reserva legal.  Multaram-na em R$ 20.000, dinheiro que a senhora ali assentada pelo INCRA nem imagina quanto seja.

Razão tinha um tal de Charles Darwin, que ao passar por aqui em sua viagem ao redor do mundo, no Beagle (não é o cachorro) escreveu : funcionários públicos, salvo raras exceções, têm muito de mesquinho o corpo e medíocre o espírito, o que é exponencial nos burocratas brasileiros; mas só para ver uma floresta cheia de macacos, sou até capaz de beijar o chão onde pisa o burocrata brasileiro, quando mais me submeter às suas atitudes ranzinzas e arrogantes.

Parece hoje, não parece?  Servidores públicos que tratam ou fiscalizam atividades relacionadas com o meio ambiente, em sua esmagadora maioria, procedem como os fieis do Alcorão. São dotados de uma Sharia (sistema de crenças) próprio e emitem Fatwas (decisões definitivas) irrecorríveis.  Definitivas porque, em caso de descumprimento, o burocrata aparece armado com bandas de artilharia pesada, mísseis e foguetes, cinco delegados da Polícia Federal, peritos que emitem pareceres relâmpagos, Almotacés e Escrivães, sem falar em Juízes zangados, que mandam cessar todas as atividades, pois a administração pública goza do princípio da boa fé. Isso sem falar nos Inquéritos Policiais Federais, embargos, medidas cautelares, escândalos na porta da casa do acusado, com direito a televisão especialmente convidada.

A ESSAS ATITUDES SE CHAMA DEMOCRACIA.  Autoritários eram os chefes militares (sic)!  A Fatwa irrecorrível, é muito mais autoritária que qualquer mando de Senhor de Engenho, mas também pode ser aplicada, em sua forma mais grave: a de tortura empresarial. 

São inúmeras as Recuperações Judiciais e as Falências decorrentes dessa nova Inquisição. Ouse um empresário brasileiro, iniciar um projeto imobiliário numa praia, instale torres de transmissão elétrica, ou transporte seus empregados em caminhão (a obra é morro acima) que, logo a seguir, os uivos medonhos e os silvos das bombas dos ” stukas ” da administração pública, acabam com a empresa, com o projeto e, muitas vezes, com a vida do próprio empresário.

Lembrando Churchill: ” nunca tão poucos, desgraçaram tanto a vida de tantos “.

O pior de tudo, é que esses jovens AIATOLÁS, que fazem incidir pesadas FATWAS sobre a população ordeira e trabalhadora e sobre os empresários que sustentam com seu imposto e seu suor todas as atividades públicas (inclusive as de fiscalização) realmente acreditam – ou lhes é conveniente acreditar – que estão fazendo o bem à sociedade.  Lutam como leões pela condenação de gente idônea e saboreiam a vitória.

Foi o que ocorreu, em caso recentíssimo levado a julgamento em nossos tribunais, pela condenação de um veranista com mais de 80 anos, na região serrana do Rio de Janeiro.  Seu crime ecológico foi ter um empregado que queimou folhas secas e sapecou as cinzas num pasto do próprio veranista.  Todos os anos, em julho e agosto, a área de pastagem das Serras, por razões climáticas (estação das secas), entra em combustão espontânea.  Mas isso não tem a menor graça, pois o óbvio não tem charme.  Bom mesmo é condenar alguém, com base num positivismo de fazer inveja aos Juízes do Terceiro Reich, que aliás acabaram todos também condenados, exatamente pelos excesso de positivismo aplicado.

Não consigo entender, à luz da tese de que somos um povo bom, fraterno, alegre e até mesmo cordial (como queriam os senhores Cassiano Ricardo e Segio B. de Holanda).  Essa amargura, azedume e raiva contra o cidadão, então, de onde vêm?  Afinal esses fiscais do meio ambiente costumam ser jovens e, em principio, a mocidade é generosa, pois é esperançosa.  São jovens articulados, bem vestidos, exemplares, dignos de admiração pela sociedade, com seus carros de modelo recente e, de certo modo, representam alguma coisa de que a nação deve se orgulhar.

Até mesmo Santo Thomás de Aquino, escreveu uma obra sobre a alegria, que a Santa Inquisição tratou de queimar (veja-se o filme O Nome da Rosa)!  Pois, assim, queimam a alegria dos brasileiros na fogueira da nova Inquisição tropical e confundem tudo, alhos com bugalhos.

É claro que o Muezim não canta no Minarete contra qualquer um.  A Fatwa é seletiva, e Themis tem os olhos abertos por debaixo da venda.  Os jovens turcos sabem bem disso.  Existe a classe dos poderosos (pois a política ainda pode) que é inimputável. A outra classe inimputável são os moradores de morros e favelas, manguezais e florestas inatingíveis, beiras de lagoas, topos de morro, vizinhos de faixa de linha ferroviária ou estradas.  Esses podem comer todos os siris e caranguejos, lagostas, pitus e camarões, pescarem todas as tartarugas e muito mais sem que os olhos dos Aiatolás sequer pisquem.  Ali vivem pela total incapacidade do Estado de ter uma política habitacional que os atenda.

As ilustres autoridades fazem o que é possível: condenar a classe média inteiramente indefesa, bem como os pequenos e médios produtores rurais cujo destino não parece ser de interesse da população urbana que acha que comida “dá” em super-mercado.

Que diabos! – devem pensar esses fieis! Crentes no Alcorão e na jurisprudência da Sharia . Guerreiros sagrados do Islã! Querem o que ?  Prestamos concurso público e fomos aprovados. Nosso compromisso é com a lei escrita e a Constituição Federal. Fora da lei não há e nem haverá salvação!   Temos aqui a lei, que é a premissa maior; e o fato delituoso, com toda a tipicidade, que me permite adequar um ao outro. Se vai ou não haver fogueira ou “arraiá” na festa de São João, me é indiferente. Caso acabem as tipicidades tão ricas da sociedade brasileira, o problema não é meu, mas dos congressistas.

Então, tá!  A isso se resume a realização pessoal desses burocratas, juristas, políticos e outros iluminados!

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

10 comentários em “A Jihad Contra a Alegria de Viver e os Aiatolás do Meio Ambiente”

  1. Que texto explêndido! Coerência,verdade e coragem adjetivam o texto. Por tudo isso, ilustrado tão bem no texto, também padeci. Por sete anos fui enredada e perseguida pela justiça, terminando com a demolição de minha própria casa e a casa de minha netinha. Para terem certeza de que no meu terreno não haverá habitação, obrigaram-me a enchê-lo com plantas nativas, sob fiscalização dos agentes ambientais. Pelo preço que está material de construção hoje, tive uma perda de mais ou menos uns 250,00 mil reais. Perdas e danos por minha conta e risco, enquanto os perseguidores gargalham, colocando mais uma pedra de gelo entre um gole e outro de whisky.

  2. Imagino que não tocaram nas construções de vizinhos mais poderosos, como usualmente ocorre nesses casos.

  3. Só imagino quando você fizer a seleção de seus artigos na web e transformar em livro. Aguardo.

  4. Belo texto!

    Descobri o blog agora e gostei muito. Aqui no Rio Grande do Sul, na praia de Capão da Canoa, havia o Bar Onda, construído na década de 1960, sobre as dunas (o “bioma litora”). A justiça tanto interveio a fim de derrubá-lo que conseguiu – de fato, o seu proprietário veio a falecer depois de anos de estresse e recursos judiciais improdutivos. Agora podemos ver no local belíssimos exemplares de usuários e traficantes de drogas, dando um aspecto muito ecológico ao ambiente.

    Vi no site uma foto dos terraços das Filipinas, onde se cultiva arroz morro acima. Os ecologistas são os primeiros a elogiarem aquela tradição milenar, mas experimente fazer o mesmo num morro da Serra Gaúcha, ou de qualquer outro lugar do Brasil. Cairão de pau em cima do pobre coitado do agricultor que ouse utlizar-se de sua inteligência natural contra os anos de academicismo universitário dos ecossábios.

    Abraço.

  5. Prezado Angelo,
    Grato por seu comentário! Mande fotos do bar da duna, antes e depois, se possível.
    Não existe “bioma litoral” nenhum. Isso é invenção brasuca para dar a impressão de que se está falando de algo científico.
    Quanto ao terraceamento, duas observações: (a) o que voce chama de “ecologistas” são, na verdade, os “ambientalistas brasileiros”, um produto muito de nossa terra, que não entenda NADA de ecologia; é o ativista, o cara do MP que acha que o que está na lei ou na resolução CONAMA é uma “lei da natureza” e tampouco entende ou sequer ouve quem entenda de agronomia, conservação de solos e de águas, geologia, NA-DA; (b) o terraceamento no Brasil é mesmo impensável e se tornará ainda mais impensável no momento em que esses “ativistas” (ativista é o cara que confunde movimento com ação) financiados por interesses de fora do Brasil conseguirem que o Congresso mantenha essa tolice das encostas…. entre outras.
    Nesse campo, também, consolidaremos a nossa posição de líderes do atraso, ainda que sejamos líderes de verdade, por exemplo, no aprofundamento e na disseminação das técnicas de plantio direto / conservação de solos, que de fato asseguram, também, a recarga dos aquíferos subterraneos e a regularização da vazão dos rios (muito melhor do que essa bobagem de FMP padrão para todo o território nacional).
    Abraço,
    Luiz

  6. Prezado Angelo,
    Escreva para o blog, quando tiver vontade.
    Várias pessoas novas estão chegando para desafinar o coro dos contentes e essa farsa ambientalóide.
    Abraços,
    Luiz

  7. Muito bom o texto, fatos pertinentes e indignação na medida certa. Só uma coisa, tendo lido que o autor é também operador do Direito: não há no texto uma ênfase excessiva na responsabilidade pessoal e social do servidor público (técnico) de meio ambiente (nem falo dos ongueiros, um caso perdido), no mais das vezes submetido ao “princípio da obediência devida”, herança das ditaduras revivida pelo ecofascismo? A questão, então, não seria mais de Estado (vide MP) e legislação propriamente?

  8. Prezado Wilson,
    Não há “princípio da obediência devida” nenhum, e ainda menos para funcionários concursados. O que pode haver é o desejo de alpinismo social carreirista, ou a incapacidade de ter uma interpretação própria dos princípios legais ou a burrice, ou o desejo de levar um trocado mesmo.

  9. Sr.Luiz! Que coisa nojenta, deplorável o que fizeram com este sr. proprietário do Baronda.A demolição se deu no mesmo ano em que demoliram minhas casas, posso imaginar o sofrimento psicológico dele e da família, provavelmente por este fato, motivou sua mote. Neste Brasil, em que patrimônios de longos anos, fruto das conquistas pelo trabalho de senhores de oitenta anos são demolidos e casas de crianças de seis anos também, por ordem judicial, atendendo as ideologias ambientais, podemos pensar que isto aqui virou mesmo terrorismo, baderna do mais baixo nível. Sinceramente, isto cria uma revolta tão grande, que pessoas de bem são obrigadas a transformarem-se em bandidas, mas se a índole é boa, justa, preferem ir de encontro a morte, tamanha é a angústia, solidão, descrença e abandono até pela própria justiça que nega todo o amaparo. Desejo a estas pessoas insolentes e insensíveis que suas moléculas sejam massas em asfaltos sangrentos sob rodas aceleradas de qualquer condução, enquanto suas almas descem para o lugar de origem: O Inferno.

O que você pensa a respeito?