Sobre o Rigor na “Gestão Ambiental” da Amazônia – Quando a Realidade e a Lei São Incompatíveis

O Brasil nunca teve uma política ambiental séria e consistente, para nenhum setor: florestas, solos, recursos hídricos, qualdiade do ar, resíduos, saneamento, unidades de conservação, nada! Teve, sim, iniciativas isoladas que ocasionalmente são elevadas à condição de símbolos.   Mas a prova final e contundente dessa imensa lacuna é o estado em que se encontram os diversos aspectos aqui relacionados.  Como dizem os ingleses, “a prova do pudim ocorre quando ele é comido”.  São os resultados práticos, reais, que provam que o pudim foi bem feito.  Nada além.

O Brasil tampouco teve uma política consistente para a Amazônia, nem mesmo depois do advento das Marinas Silvas da vida com as suas naufragadas reservas extrativistas.  E, aqui, é conveniente ter a prova do pudim.

Santarém, conhecida como a Pérola do Tapajós, localiza-se na margem direita deste rio, na sua confluência com o rio Amazonas.  Pelo censo de 2010, a população do município está na faixa dos 300.000 habitantes.

Ao longo de sua história, para simplesmente poder existir, ergueu-se em sua uma alta muralha de contenção das cheias anuais.  De outra forma, a cidade simplesmente ficaria totalmente submersa durante boa parte do ano.  A parolagem da faixa marginal de proteção e todo o lero-lero em torno do assunto não se aplica à realidade das áreas urbanas da região amazônica: as pessoas não podem viver longe da água porque dela necessitam não apenas para beber como para se alimentar e para o transporte.

Assim, como praticamente todo o transporte é hidroviário, em 2002 o governo resolveu construir um porto fluvial para o comércio.  As estruturas mais caras do porto foram feitas – aquelas de sustentação, cravadas no fundo do rio Tapajós – e abandonadas em 2002.

Abandonada essa obra e havendo demanda de um porto comercial, as autoridades ambientais concederam a licança para um porto à Cargill.  Coisas do tal do mercado e do tal do desenvolvimento.  O porto graneleiro da Cargill foi construído e encontra-se em plena operação.

O Ministério Público (do Pará?) andou implicando com o licenciamento desse porto mas ninguém parece ter-se preocupado com o desperdício de milhões dos cofres públicos com o outro.

Enfim, existindo praias lindíssimas na região – Alter do Chão é distrito de Santarém -, a turma resolveu fazem um terminal turístico eco-sustentável, verde e tudo o mais.  Um pior de madeira com um nome bem bonito, bolado por marqueteiro.  Mas que não pode ser usado pela população da região, que utiliza as velhas embarcações precárias e sem segurança para o transporte regional.   E o “terminal interpretativo” foi inaugurado em grande estilo, com honras e pompas circunstanciais.

Esqueceram-se apenas de um pequeníssimo detalhe: o terminal turístico eco-tudo encontra-se exatamente ao lado de uma imensa boca de esgotos.  Santarém, é claro, sonha com um sistema de coleta e tratamenteo de esgoto, há muito tempo.

A foto acima – com todas as outras deste artigo – foi feita pelo autor do blog exatamente de cima do terminal eco-desenvolvimentista verde e sustentável dessa turma.  Ali, na boca do esgoto, a pesca de rede e crianças se banhando, tranquilamente.  Como se sabe, a transmissão de doenças por via hídrica em meio salino é inexistente ou quase, enquanto na água doce é intensa.

O tamanho da criança que atravessa o fluxo de esgoto no momento da foto e a a muralha de contenção dá uma excelente noção da altura desta última.

Espera-se, agora, que dona Dilma anistie a turma que construiu a muralha na Faixa Marginal de Proteção.

Ou pelo menos que o MMA determine que sejam retirada do topo do único morro da cidade a tancagem de combustível que lá se encontra.

Que se restaure a moralidade!  Ou que todos se locupletem igualmente!

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

One thought on “Sobre o Rigor na “Gestão Ambiental” da Amazônia – Quando a Realidade e a Lei São Incompatíveis”

  1. A riqueza traz progresso e conforto, mas muitas vezes, isso pode levar as pessoas à insensibilidade, quando muito longe de sentir necessidade de sobrevivência tanto no aspecto educacional,de saúde, bem estar e alimentação, ignoram as reais necessidades dos mais carentes, que isolados ao acaso, numa miséria extrema já não chocam com suas vidas em perigo, com seus filhos sem esperança, quando seus gritos são abafados e não chegam a lugar algum porque não têm importância. É a miséria que envergonha, incomoda e perturba a ordem dos ricos e melhor seria expurgá-la da face da terra. Não sendo possível uma intervenção para melhorar este aspecto negativo porque não há vontade, melhor fingirem-se cegos. Os governantes fazem acordos que melhor lhes encham os bolsos, a miséria é utilizada a título de negociação e os rendimentos partilhados entre eles que tudo pode, numa terra sem justiça e sem lei. Um exemplo de uma vida de caos é a dos habitantes ribeirinhos, em suas precárias palafitas, onde em cada noite o perigo ronda debaixo de assoalhos podres, de levar mais uma criança rio abaixo. Em cima de terra fértil, famílias dormem com fome, crianças enfrentam os perigos das águas para tentar segurar um navio cargueiro para lá vender suas geléias ou qualquer coisa que lhes renda cinco ou dez reais, sob o olhar de desdém de quem compra, achando muito os dois reais que paga pelo objeto que leva. Moradores dos pés descalços porque o local não comporta um Nike na lama, pele picada de pernilongos, presa das serpentes, comida fácil dos jacarés. Na igreja de Aparecida mais um devoto aparece, e para ficar mais chique mais alta será a oferta e diante da televisão sua alma fica mais leve. Quanta beleza há neste lugar, lindos rios, natureza preservada, e os estrangeiros que dizem isso nem observam as famílias desoladas. No funeral do político, presentes cardeais, o povo faz fila para aparecer nos jornais, à missa é especial, porque o homem é rico. E nem se lembram do povo ribeirinho, no meio de tantos bichos, no meio de tantas árvores, não consertam as canoas, muito menos o assoalho, caçar é proibido, cortar pau também não pode. Endureçam-se as leis, para que sejam cumpridas, prendam qualquer homem que quebrar a disciplina, mas não mexam com os mognos do marido da Marina. Estes… podem.

O que você pensa a respeito?